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domingo, 9 de fevereiro de 2025

O DECLÍNIO DE ALCAFOZES: "TERRA DE AZEITE E GADO"

Em menos de um século, Alcafozes viu diminuir a sua massa humana nada menos que dez vezes. De 1600 almas nos anos 30 e 40 para os actuais 160. Pode.se afirmar por estes números que a aldeia está a definhar em todas as vertentes e deixou-se envolver num abraço que poderá ser fatal por Idanha-a-Nova, vila com a qual reparte agora uma União de Freguesias. Neste resumo histórico de Alcafozes,  recordem.se os tempos áureos de Alcafozes, naquela viagem épica de 12 horas que se iniciava às 07h25, na Estação de Santa Apolónia e terminava numa velha e ronceira camionate da carreira, uma Ford Bus de 1940, da empresa Martins-Évora, às 19h30, na aldeia. 
Alcafozes sobrevive, hoje em dia, envolta nos quatro dias da Festa de Nossa Senhora do Loreto, no final de Agosto, e pouco mais. Ouvem-se uns artistas mais ou menos em voga na altura, compram-se umas senhas na quermesse, acompanha-se a procissão e olha-se para o ar a ver passar os aviões F-16 da FAP. Finda a cerimónia, a povoação regressa a um dia-a-dia monótono para a sua centena e meia de gente. 
Longe vão os tempos da euforia (quase) geral da implantação da República, em 5 de Outubro de 1910, à qual a população de Alcafozes aderiu com todo o povo à volta da nova bandeira empunhada por um republicano dos sete costados, Benjamim Nunes Leitão. Enquanto uns rejubilavam com o hastear do estandarte, outros perseguiram Joaquim Franco, fervoroso monárquico, que se refugiou em Espanha. Uma história curiosa e hilariante é a do Senhor "Conde" (de quê?) que armou a criadagem ao ser serviço com bacamartes e espingardas de carregar pela boca e foi entricheirar-se em Monsanto. Ao aproximar de uma força com duas bocas de fogo pela estrada de Medelim, o fervor da resistência foi por água abaixo e cada um fugiu para seu lado. 

Apesar do temor que impunha a Casa Franca, contava-se, entre outros casos, que a melhor galinha, entre outros haveres, era oferecida às "senhoras", uma aitude reverencial que, por exemplo, não afectou uma mulher de armas que, enfrentou e irrompeu o cerco dos empregados dos donos do terreno da fonte do Chafariz Novo, e de caldeiro em punho avanlou e emcheu-o de água. O resto do povo, empolgado com o seu exemplo, tomou a fonte e esta nunca mais seria propriedade só para dar água aos senhores feudais de Alcafozes. O respeito era de tal modo imposto pelos proprietários e aceite pela esmagadora maioria dos habitantes, que o latifundiário Marrcos, de Idanha-a-Velha, impunha a estes e também aos de Alcafozes que tirassem o chapéu quando ele passasse no seu automóvel num geste revenrencial. 

Numa terra dominada por um caciquismo comum a todo o território nacional, de louceiros sem louça, lavradores sem terras, azeitoneiros sem oliveiras, de boletreiros sem azinheiras, os "esturrêdos, como eram conhecidos os carvoeiros de Alcafozes que vendiam o carvão que vendiam pela vizinhança, nomeadamente aos "alarves" (de onde esta alcunha?) de Idanha-a-Nova, ainda alargaram os limites da aldeia quando os Franco venderam o "Cabeço" de pastagem para o gado em lotes, surgindo o Bairro de Nossa Senhora do Loreto, desenhado com traça pombalina, de ruas paralelas e travessa perpendiculares como a Baixa de Lisboa. Terá sido esse o auge populacional e económico de Alcafozes através de recursos própriios. Mas com o progresso também se desfigorou a terra, Não seria inevitável se houvesse quem enxergasse.  mais longe e pensasse mais além. 

A primeira machadada na estrutura de Alcafozes foi asfixiar a Igreja Matriz de São Sebastião com construções tão próximas à sua frente, algo que é um "pecado" paisagistico neste afunilamento sem sentido, constário às normas destas construções da fé que devem possuir amplos adros à sua frente. 
Mas logo na entrada, o progresso deu um rombo naquilo que a povoação tinha de mais interessante. O Leque, com quatro triângulos em forma de trevo de quatro folhas, arborizado e com quatro belas placas rectangulares com duas "pernas", indicando um deles Idanha-a-Nova 13 kms; outro Granja de São Pedro 6 kms, outro Medelim 13 kms, Covilhã (?) e Guarda 90 kms e o último, obviamente, Alcafozes. Este lugar de estética imaculada foi arrasado para uma chamada rotunda, deserta, vazia, quase invisível, como as cabeças que a idealizaram. Parece que se pretende colocar nesse espaço um monmento a representar uma saca de carvão e um pão, erradamente considerados símbolos máximos, o "ex-libris" de Alcafozes, sendo que o que consta na sua bandeira e brasão é uma oliveira, que há dois mil anos, tal como o gado, representam a história milenar da aldeia. "Alcafozes terra de azeite egado, sim", de "Pão e carvão" não tem sustentação. O pão (bem saboroso, diga-se de passagem) era para consumo pessoal e o carvão, de raíz de azinheira ou de chamiços, é uma actividade que nem um século regista. Isto não é uma questão de gosto, é uma questão de história. 

É um bocado estranho a colocação de passadeiras para peões, espelhos nas esquipas para o trânsito e lombas para abrandar a velocidade, registo o desinteresse geral de não mandar para o pretenso centro cultural os marcos miliários romanos referentes a Alcafozes, um na esquina de um prédio na aldeia, outro no museu de Idanha-a-Velha e um terceiro no museu de Idanha-a-Nova. E Alcafozes não merece o que é seu exposto na terra? São imensos os artefactos que poderiam dar úm conteúdo muito ineteressante ao tal putativo Centro Cultural. Dizem que não gente para ir ver. Isso é a teoria do deixa andar. Há terras na Beira Alta, menores e mais escondidas que Alcafozes, que, além de manterem a traça original exterior das casas e caminhos muito mais sinuosos para lá se chegar exploram restaurantes de luxo com uma clientela de estrato médio-alto. E outras com discotecas bem isoladas mas repletas de clientes. Aliás, e para terminar, uma referência à alteração da traça original das casas do seu tradicional exterior em xisto, tradicional na zona, e granito, para aquelas despersonalizadas pinturas brancas que nada condizem com a região. Não custava manter e até reparar o exterior, mas deixá-lo como foi arquitectado e no seu interior fazer uma remodelação total para modernizae a habitação e torná-la mais confortável. E como se não bastassem todos estes transtornos, ainda veio a negociata dos eucaliptos defigurar ainda mais a outrora misteriosa beleza de Alcafozes.  

Até quando sobreviverá Alcafozes? 


Uma casa de Alcafozes ainda não exteriormente desfigurada

sábado, 1 de fevereiro de 2025

A "SENHORA DO AR" RECONHECIDA COMO PADROEIRA

 A 24 de Março de 1920, na festa do Arcanjo S. Gabriel – o mensageiro de Nazaré -, o Papa Bento XV, acedendo ao desejo do Clero, declarou a Santíssima Virgem do Loreto, Padroeira Universal da Aviação. Em 12 de Setembro desse mesmo ano, os aviadores reuniram-se em massa na Basílica de Loreto e fizeram, oficialmente, a consagração da sua Padroeira. No ano seguinte, a imagem foi destruída por um incêndio e, em 1922, o Papa Pio XII benzeu a nova imagem da Virgem do Loreto, não muito diferente da anterior. Em Portugal, os contactos com gentes de Itália realizavam-se desde a fundação da nacionalidade, inclusive o primeiro Rei de Portugal, D.Afonso Henriques, casou com D. Mafalda de Sabóia, e, ao longo dos séculos, as relações foram constantes. No século XV, mercê da decadência do comércio entre as repúblicas italianas e o Oriente, devido à presença muçulmana na Palestina, começam a surgir na Península Ibérica, nomeadamente em Portugal, comunidades de italianos, não só navegadores e especialistas na arte de marear, mas também comerciantes e outros. D. Dinis contratou o genovês Emanuele Pessagno para almirante em 1317, as famílias Perestrelo e Spínola de origem genovesa, assim como Cristóvão Colombo, e todos se estabeleceram em Portugal. Lisboa enche-se de ricos comerciantes e a comunidade dos italianos teve permissão real para construir, em 1518, o primeiro templo de invocação a Nossa Senhora do Loreto, templo esse totalmente reconstruído no século e, novamente, depois do Terramoto de 1755, tendo resistido as paredes-mestras e a sacristia. O culto foi-se espalhando por algumas povoações. 

Com o advento da aviação após a Primeira Guerra Mundial, e por acção do Clero e de aviadores sensibilizados com o milagre da «Casa Voadora», a 25 de Março de 1920, na festa do Arcanjo São Gabriel, o Papa Bento XV proclamou «A Santíssima Virgem do Loreto, Padroeira Universal da Aviação». A 12 de Setembro desse mesmo ano, os aviadores reuniram-se em missa na ano seguinte, a imagem foi destruída por um incêndio e, em 1922, o Papa Pio XII benzeu a nova imagem da Virgem do Loreto, não muito diferente da anterior, e ela foi acompanhada por aviadores no percurso entre a Capela Sistina e a Basílica de Loreto, onde chegou a 8 de Setembro. Foi no dia 14 de Agosto de 1926 que se iniciou oficialmente o culto a Nossa Senhora do Ar, como pradoreira da aviação em Portugal, com uma celebração eucarística na Capela da Granja do Marquês, onde a imagem foi colocada no trono do altar principal. 

A 19 de Dezembro de 1959, o Governo de Salazar, com especial recomendação de D. Manuel Gonçalves Cerejeira, Cardeal Patriarca de Lisboa e Ordinário Castrense, determinou que todas as capelas da Força Aérea de Portugal são dedicadas a Nossa Senhora, onde é venerada uma sua imagem que representa a sua gloriosa assunção. Os aviadores  chamam-lhe ‘Nossa Senhora do Ar e uma delegação desloca-se à Santa-Sé a rogar a graça da declaração de “Nossa Senhora do Ar” como Padroeira Nacional da Força Aérea Portuguesa.Quando a aviação comercial começa a despontar, a Força Aérea está a evoluir e há um grupo de alcafozenses – do qual se destacou, pelo seu dinamismo, o Sr. Joaquim Marques – que depois de muitas démarches consegue não só obter terreno em volta da capela, para ser realizada uma procissão campal com o apoio do p.ároco António Costa, como, e mais importante, que a cerimónia religiosa campal fosse sobrevoada por aviões da Força Aérea. Importa destacar o papel do então comandante da Base Aérea de Alverca, coronel Mira Delgado e o do tenente-coronel Kaulza de Arriaga, subsecretário de Estado da Aeronáutica que, em 1959, inaugurou os melhoramentos do altar-mor juntamente com o general Carlos Costa Macedo. Autoriza-se que em 1957 a procissão seja sobrevoada por diversos aviões da Força Aérea. 



quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

A CASA DA SAGRADA FAMÍLIA DA VIRGEM DE LORETO

 Antes de chegar a Alcafozes, a imagem de Nossa Senhora do Loreto passou por Lisboa. Há duas hipóteses de a aldeia da Beira Baixa  ver no seu território a santa que não foi santas, mas antes a Casa da Sagrada Família. Ou partiu da capital numa época em que havia muitos "italianos" (a Itália só se unificou no século IXX) ou entrou pela fronteira de Espanha, já que a aldeia de Alcafozes se encontra apenas a uns poucos quilómetros dos nossos vizinhos. É possível que um tal Capello, de origem "italiana" tenha sido o autor dessa veneração à Virgem da Casa Voadora, uma vez que há registos dessa família em Alcafozes desde o século XVII, onde desempenharam cargos de importância laica e religiosa. 
Por essa altura, o orago de Alcafozes era São Sebastião. Este santo era um soldado do exército romano por volta de 283 D.C. com a única intenção de afirmar o coração dos cristãos, enfraquecido diante das torturas. Era querido dos imperadores Diocleciano e Maximiano, que o queriam sempre próximo, ignorando tratar-se de um cristão. Designaram-no capitão da sua guarda pessoal, a Guarda Pretoriana. Por volta de 286, a sua conduta branda para com os prisioneiros cristãos levou o imperador a julgá-lo sumariamente como traidor, tendo ordenado a sua execução por meio de flechas, que se tornaram o símbolo da sua iconografia. . Foi dado como morto e atirado para um rio. Mas Sebastião não falecera.
Encontrado e socorrido por Irene, depois Santa Irene,
 apresentou-se novamente diante de Diocleciano, que ordenou então que ele fosse espancado até a morte. O seu corpo foi atirado para o esgoto público de Roma e e Luciana, mais tarde Santa Luciana, cujo dia é comemorado a 30 de Junho, resgatou o seu corpo, limpou-o, e sepultou-o nas catacumbas. 

Alcafofozes do século XVII era também devoto ao Espírito Santo e a Santo António quando comeou, não se sabe como,a devoção a Nossa Senhora do Loreto. Antes disso, em Lisboa, A igreja, também chamada Igreja dos Italianos foi elevada por D. João V em 1518 para acolher os muitos italianos, principalmente venezianos e genoveses, comerciantes em Lisboa. A igreja depende directamente da Santa Sé e é sufragânea da arquibasílica de São João de Latrão. Voltando aos Capello e a Alcafozes, uma das referências mais substantivas é a de um tal Agostinho Capello, um juiz-desembargador no Rio de Janeiro, que esteve ligado à expulsão dos jesuítas do Brasil e quando regressou a Portugal integrou a Ordem de Cristo, tendo falecido em Alcafozes em 1767, sendo sepultado na igreja de São Sebastião. 
A Capela de Nossa Senhora do Loreto foi construída, segundo algumas fontes, em 1775, muito antes da família Capello se miscegenar com outras famílias poderosas da região, como os Franco Frazão, da Capinha, os Marrocos, de Idanha-a-Velha e os Manzarra, de Idanha-a-Nova. Por essa altura, no entanto, já se realizavam festas em honra de Nossa Senhora do Loreto, existindo duas datas espaçadas no tempo, para este evento, 1828 e 1888. É muito possível que ambas estejam certas, diferenciando-se apenas pelo modo como eram feitas e organizadas pelo povo. 
O culto por Nossa Senhora do Loreto foi evoluindo para patamares mais marianos e ao mesmo tempo mais profanos e festivos para o povo, deixando, a pouco e pouco, esmorecer as festas em honra do Espírito Santo e do Santo António. A Casa da Sagrada Família, representada pela Virgem de Loreto, expandiria a sua devoção e peregrinação, ao ponto de se sagrar como a data mais importante da aldeia de Alcafozes.


Pintura de Tosaco da Capela da Senhora do Loreto


quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

O MISTÉRIO da SENHORA do LORETO

 As revoluções liberais, de 1820 a 1824, não afectou Alcafozes, em termos militares, que recuperava ainda dos saques e destruição das Invasões Napoleónicas. O povo, atarefado com estas tarefas de reproduzir o gado, fazer as sementes de trigo e outros cereais e colher a azeitona, além de reconstruir o que tinha sido maltratado pelos soldados franceses e seus aliados 
Numa data que terá sido ligeiramente anterior a 1775 surgiu, segundo algumas versão, uma imagem de uma santa no restolho do Cabeço das Taipinhas. A imagem foi, não se sabe como, denominada Nossa Senhora do Loreto e, após uma série de investigações, a capela poderia ter ser erguida mais ou menos em 1775. Ainda se aventou a hipóteses de a imagem da santa ter sido abandonada ou perdida durante as Invasões Francesas, mas o facto destas acontecerem entre 1807 e 1810,, o que desfaz temporalmente essa teoria. 
A Senhora do Loreto é um mistério dentro de um mistério, uma espécie de matrioska  de enigmas. O que apurei na Enciclopédia dos Visitante Católicos, de Itália, a virgem na prática nunca existiu. A Igreja Católica reserva a santidade a pessoas que passam pelo processo de beatificação ou, como sucede com Nossa Senhora de Fátima, a uma apariçáo. A Senhora do Loreto não se enquadra neste parâmetros, mas  a fé pela sua imagem, elaborada desconhece-se por quem, antes tem a sua origem numa casa. Não uma casa qualquer, obviamente, mas a casa onde o anjo anunciou a Maria que iria ser mãe de Jesus. Portanto, não havendo uma personagem ou uma aparição, existe um milagre que, esse sim, se pode considerar algo de transcendente. 

A história, segundo a Igreja Catõlica, baseia-se na Santa Casa da Localidade de Loreto, que "voou", transportada por anjos, desde a sua localização original, em Nazaré, actual Israel, primeiro para Tersatz, na Croácia de hoje, onde esteve três anos, e no dia 10 de Dezembro de 1294, a Santa Casa foi de novo levantada e levada por anjos para um bosque de loureiros, em Loreto, nas imediações de Recanati, em Itália. Estas deslocações devido à invasão da Terra Santa pelos muçulmanos, em 1291. O povo dessa aldeia começou a fazer peregrinações à Casa da Sagrada Família. Esse movimento esteve na origem da deslocação de quatro especialistas a Nazaré, ao local de onde tinha "voado" a modesta construção. Ali chegado fizeram a medição dos alicerces, os quais, sem explicação plausível, tinham exactamente as mesmas medidas da base da casa que aparecera em Tersatz, na Dalmácia, junto ao Adriático. Estes alicerces estão actualmente na Basílica da Anunciação, na cidade israelita de Nazaré, de onde "voou" para os dois referidos locais. 

Outros historiadores menos crentes afirmaram que a Casa da Sagrada Família foi transportada de barco pela família Ageli. De uma maneira ou outra, os arqueólogos confirmam que as pedras onde estava assente em Nazaré e comparadas com as pedras da consturução em Loreto são exatcamente iguais. Em 1310, o Papa Clemente V emitiu uma Bula Papal que concedia indulgência aos peregrinos. Na mesma altura, alguém esculpiu uma estátua com a Virgem e o Menino, que ficou negra devido ao fumo das velas, ficando, desde aí, conhecida como a Virgem Negra, A Casa da Sagrada Família inspirou a construção de três basílicas, uma em Nazaré e duas em Itália, a mais recente ordenada pelo Papa Sisto V e contém uma riqueza inestimável de obras de arte e arquitectura do Renascimento. Foi visitada por figuras eminentes, como Mozart, Descartes, Galileu, Cervantes e os santos Inácio de Loyola, Carlos Borromeu, Teresa de Lisieux, Frances Xavier Cabrini, Louis de Montfort, François de Sales e João Paulo II. 


A Casa da Sagrada Família transportada pelos anjos. 

 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

ALCAFOZES INCENDIADA EM 1644

 A coroa portuguesa e castelhana estiveram unidas desde 1580 até 1640. Durante esse período a paz e a tranquilidade reinaram na fronteira entre os dois estados. Formalmente a designação é esta porque não houve propriamente uma anexação mas sim dois reinos governados pelo mesmo monarca, Filipe II de Espanha, I de Portugal. Na região das Beiras e da Zarza la Mayor o clima de segurança foi abalado pela Restauração de Portugal, em 1 de Dezembro de 1640. A partir desta data, os dois países começaram a reforçar as suas fronteiras e iniciar-se-ia a Guerra da Restauração, que culminaria com o Tratado de Lisboa, assinado em 1668 pelos reis Afonso VI de Portugal e Carlos II de Espanha. Durante este período houve guerra, saques e muitas mortes na região do que é hoje a Beira Baixa. O início dos conflitos começou com aquilo que se poderá considerar um exército privado, o da Companhia da Zarza la Mayor, financiado por gente de posses da Extremadura espanhola e grupos de assaltantes apoiado também pelas autoridades locais. O mais famoso, Pilante Celanes Castellano entrou pelo Rio Erges, passou os picos agrestes da Serra da Gata e saqueou Penha Garcia e arreadores. Apesar de haver uma instauração de fronteiras com práticas mais ou menos aduaneiras, contrabandistas de ambos os lados foram os desestabilizadores iniciais da linha divisória entre as duas nação, até que os exércitos se organizassem para se enfrentarem. Depois desses incidentes iniciais chegaram três companhias espanholas a Zarza la Mayor. Porém, rapidamente os seus soldados se tornaram saqueadores, não só para roubarem bens, mas também para levar animais para se alimentarem.

A tropa portuguesa, comandada pelo general Fernão Teles de Meneses chegou à zona fronteiriça para controlar uma situação dramática para os povos das aldeias. Também numa acção de surpresa, o comandante das nossas tropas, com um exército de 2550 homens de infantaria e 800 de cavalaria entrou na Zarza e fez 230 vítimas entre os espanhóis, que ainda viram explodir a torre da igreja onde guardavam a pólvora numa atalaia encostada a ela.
A vingança espanhola aconteceu na Beira (agora) Baixa pela força militarizada da Compañia de Montados de la Zarza, composta por 130 cavaleiros. As suas ordens eram claras e incisivas: matar, saquear e incendiar toda a zona portuguesa que pudessem. Era a vingança da derrota em Espanha.
A aldeia de Alcafozes foi incendiada, depois de se apoderarem dos haveres e dos rebanhos. A igreja de São Sebastião incendiada. O mesmo aconteceu nas povoações mais próximas. Zebreira, Penha Garcia, Monsanto, Penamacor, Idanha-a-Nova e Rosmaninhal, entre outras, tiveram o mesmo fim. Fogo e devastação. Os portugueses ripostaram e 700 soldados abateram 17 milícias da Zarza. Os confrontos sucediam-se diariamente.
Os habitantes da comarca de Castelo Branco enviaram uma missiva ao rei João IV, comunicando-lhe que já lhe havia sido roubados 60 mil ovelhas e cabras, 8 mil vacas, burros, mulas e cavalos, 800 pessoas tinham morrido de fome, além de homens e mulheres feitos prisioneiros. O povo reclamava por vingança.
Assim aconteceu, em 23 de Março de 1650, em Ventas del Caballo, uma companhia de soldados portugueses massacrou mais de uma centena de militares espanhóis, recebendo ordens para lhes cortar as orelhas.
A igreja de São Sebastião, em Alcafozes, depois dos danos sofridos, recomeçou os registos de nascimento, casamento, baptizados e óbitos, em 1694, pelo vigário Gregório. A aldeia, entretanto, foi praticamente reconstruída dos incêndios provocados pelas milícias de Zarza la Mayor. Até chegarem os franceses...

Bandos de salteadores da Companhia de La Zarza

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Tratado de Alcanizes e Alcafozes portuguesa

 A Ordem do Templo foi fundada em 1118 ou 1119 e extinta em 1312. Na sexta-feira, dia 13 de outubro de 1307, centenas de cavaleiros Templários por toda a França foram presos simultaneamente por agentes de Filipe o Belo e sujeitos a tortura para confessarem a heresia da própria ordem religiosa, facto que provavelmente esteve na origem da superstição de as sextas-feiras dia 13 serem considerada dias de azar. Os Templários conjugavam o ideal do monge com o exercício da guerra. Após o seu reconhecimento no Concílio de Troyes, em 1128-9, os freires dedicaram-se à proteção dos peregrinos ao longo dos caminhos até aos lugares santos e tiveram um papel crucial na Reconquista Cristã.

A Reconquista Cristã ter-se-á iniciado em 1064, mas a entrada da ordem religioso-militar no Condado Portucalense é anterior. A milícia ter-se-á apresentado aquando a sua fundação, pela primavera de 1128, ano em que a Ordem foi estabelecida.Em Portugal, e no contexto da Reconquista, procurou-se restaurar as antigas dioceses dos reinos suevo e visigodo. Braga assume em 1071 um papel político e eclesiástico no Condado, evidenciado pela sua entrega ao arcebispo em 1112, por parte do Conde D. Henrique, que escolheu a catedral para sua sepultura. A diocese do Porto foi restaurada em 1112-13.

Gualdim Pais, o Mestre da Ordem, doou ao Templo  Idanha-a-Velha, Monsanto e provavelmente Segura, o que terá ocorrido em 1165 e ali edificaram os castelos. A documentação relativa à presença da milícia em Castelo Branco remonta àquele ano. Dois anos depois, Geraldo Sem Pavor conquistar Monsanto. Em 1169, D. Afonso Henriques doou a terça parte das terras que conseguissem conquistar a sul do rio Tejo, algumas com importância militar, a fim de se prosseguir com a Reconquista. Em 1169, o rei doou os castelos de Cardiga e do Zêzere e suas propriedades.O Mestre Gualdim Pais  restaurou os castelos de Almourol e Cardiga (1171) e realizou obra nas fortalezas de Monsanto e Idanha, através das quais acautelou a defesa do vale do Tejo. Esta linha de defesa assumiu um papel determinante no século XII face aos almóadas, aquando o cerco de seis dias ao castelo de Tomar pelos almóadas, em 1190. 

No reinado seguinte, D. Sancho I confirmou a doação a Idanha-a-Velha em 1197 por constituir uma área difícil de manter, mas Mogadouro e Penas Róias voltaram à coroa. Em 1198, os Templários receberam Nisa-a-Velha e no ano seguinte, Ródão. No entanto, o Alentejo não estava destinado ao Templo, mas sim a outras ordens religioso-militares. Em 1203, é doada Idanha-a-Nova e em 1206, Dornes. A construção da Torre de Dornes terá sido encomendada por Gualdim Pais na segunda metade do século XII. Castelo Novo é mencionado em testamento do seu alcaide em 1208 como sendo possessão da Ordem à data. Por D. Afonso II, os Templários receberam a terra de Cardosa, em Castelo Branco. Em 1215, é doado o Castelo de Coruche, assim como vinha e casas em Évora. Em 1218, Alcácer do Sal foi conquistado e o foral concedido a Proença-a-Velha, ambos pela Ordem. Nos anos seguintes foram sendo atribuídas as cartas a Vila de Touro, Ega, Idanha-a-Velha, mas em 1244, D. Sancho II volta a doar ao Templo os direitos de Idanha e de Salvaterra do Extremo, junto à fronteira. O castelo de Rosmaninhal terá sido construído depois de 1237, após o povoamento da vila pelos Templários. 
O tratado de Alcanzes, assinado em 1297, pelo rei D. Dinis, definiu as fronteiras entre as Beiras e a Extremadura castelhana, as quais ainda hoje se mantêm, sendo consideradas as mais antigas da Europa. Alcafizes é definitivamente portuguesa. 


Gualdim Pais e os Templários, os primeiros donos da Alcafozes portuguesa


sábado, 4 de janeiro de 2025

A Al Confossis moura

 A invasão muçulmana transformou a romana-visigoda Stagni Confossis ou Villae Confossis em Al Confossis, a designação árabe que chegaria ao nome da actual Alcafozes. Apesar da fuga de muitos habitantes da zona para norte e evitar, assim, os conquistadores vindos do Norte de África, aqueles que ficaram continuaram as suas actividades de pastorícia, azeite e vinho, mas o néctar dos deuses seria gradualmente abolido de Alcafozes (e não só) por a sua religião não permitir a ingerência de bebidas álcoolicas. Na turbulência da transição suevo-visigótica para para os mouros, a igreja de Idanha-a-Velha foi reconvertida em mesquita, embora os novos conquistadores permitissem o cristianismo e o judaísmo mas sem manifestações externas das suas opções religiosas

Esta invasão moura de Portugal ocorreu em 711, quando um exército muçulmano liderado por Tariq ibn Ziyad atravessou o Estreito de Gibraltar. Durante séculos, os Mouros governaram Portugal, deixando uma marca duradoura na paisagem do país. A sua presença durou mais de quatro séculos e revolucionou a agricultura portuguesa, bem como as realizações intelectuais e artísticas. Introduziram novas culturas como arroz, frutas cítricas, romãs e até cana-de-açúcar. Fixaram-se em diferentes regiões, nomeadamente Lisboa (a que chamavam "Lashbuna"), Santarém, Mértola e pouco a pouco todo o território que hoje forma Portugal.  Os mouros começaram como conquistadores, mas rapidamente se tornaram arquitectos, cientistas e músicos.

Quem observa a formação do território português costuma associá-la apenas ao Condado Portucalense e à figura de D. Afonso Henriques. No entanto, antes disso, existiu na Península Ibérica um mosaico de reinos muçulmanos, conhecidos por taifas, que floresceram após a fragmentação do Califado de Córdova. Entre eles, destacou-se o Reino ou Taifa de Badajoz, cuja autoridade chegou a estender-se por cerca de metade do que hoje corresponde a Portugal. A  sua capital era a cidade de Badajoz, fundada em 875 pelo rebelde Ibne Maruane, que a ergueu num local estratégico junto ao rio Guadiana.Formado por volta de 1009 ou 1013, o Reino de Badajoz surgiu numa época de instabilidade política e de dissolução do poder central islâmico. O primeiro governante foi Sabur, antigo escravo eslavo do califa Aláqueme II, que aproveitou a crise do Califado de Córdova para proclamar a independência.Quando Sabur morreu, em 1022, o seu vizir Abedalá ibne Alaftas assumiu o comando, fundando a dinastia Aftácida. Gradualmente, o reino consolidou-se e expandiu-se, integrando boa parte da antiga Lusitânia romana, incluindo Mérida e Lisboa, prolongando-se até às proximidades do Douro a norte e abrangendo extensas zonas do Alentejo e toda a Beira Baixa actual, incluindo, obviamente a aldeia de Alcafozes. 


Alcafozes e a Beira Baixa integrados na Taifa de Badajoz na ocupação moura


domingo, 29 de dezembro de 2024

Terra pré-romana de vinho e azeite dos Vetões

A actual Beira Baixa, anterior Beira Interior, foi, como todo o território que corresponde ao Portugal de 1143, aculturado pelos povos Celtas provenientes da Escócia, País de Gales, Irlanda, Irlanda do Norte e Cornualha,  transportando consigo a música, os instrumentos musicais, a língua, usos e costumes. Os povos pré-romanos no território agora nacional foram os gregos, fenícios, cartagineses, berberes e celtas que viviam rel  ativamente em paz, sobretudo em função da misceginação gerada antes da chegada dos romanos. Os Celtas viviam nos montes e castros da Península Ibérica. Os lusitanos tiveram uma aliança com os vetões durante 200 anos do qual combateram os romanos. Roma ao conquistar a Península Ibérica obrigou os povos Celtas a deixarem os montes e castros e a viverem na planície, como forma de controlo e forma de cobrarem impostos. O cavalo era um símbolo Celta de grande importância que aparece na festa de São João Batista em Monforte da Beira, em território de Espanha e no Rosmaninhal. A prata muito cobiçada pelos romanos era minerada na Península Ibérica, como, por exemplo as grandes minas de ferro, prata e ouro de Monforte da Beira. as minas da Recheira, perto do Fundáo, as minas de cobre das Talhadas, na zona de Vila Velha de Ródão, as Minas da Panasqueira, nos arredores da Covilhã e muitas outras por toda a Beira Baixa ancestral. 

Introduzido pelos Fenícios e Castagineses, a Beira Baixa metamorfeseou-se num "mar" de oliveiras e vinhas, sendo as primeiras ainda abundantes em Alcafozes, enquanto as vinhas deixaram nesta aldeia apenas como resquício o Monte da Vinha, onde nasce a Ribeira de Alcafozes. Por essa altura, Alcafozes estava inserida no território dos Vetões, que abrangia o espaço entre Castelo Branco e Salamanca ou, segundo outras fontes, pelas terras junto ao Rio Douro e o Rio Tejo. Ainda se desconhece a origem deste povo, mas, de qualquer modo, teria de correr algum sangue Celta nas suas veias. Ou seria um daqueles povos misteriosos que migraram do longínquo Caucaso para a Peninsula Ibérica. Ha indicios de um dicionário celta Celta e também  símbolos Celtas encontrado em Proença-a-Velha, Idanha-a-Velha e Alcains, o Trisquel, que representavam as três estações do ano do qual o Celtas acreditavam. É praticamente assente que o famoso general cartaginês Aníbal Barca era filho de Amílcar e de uma mulher que nasceu na actual Lisboa. Os Vetões deixaram como seu maior vestígio a Porca de Murça e as lides com touros em espaços semelhantes aos de hoje. Como curiosidade, o quartel-general das forças militares organizadas celtas situava-se no lugar onde está a cidade de Castelo Branco. 

Lugar de Alcafozes inserido na terra dos Vetões

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

A História oficial de Alcafozes

A igreja de Alcafozes nos anos 40 ou 50 da época passada
 

Presume-se que a aldeia de Alcafozes, no concelho de Idanha-a-Nova, tenha sido fundada, no ano de 715, pelos Árabes, quando ali resolveram construir abrigos para os rebanhos, numa época (século VIII) em que este povo detinha o domínio sobre quase toda a Espanha.

Mas, sabe-se, que anteriormente tanto os Lusitanos como os Romanos passaram por estas terras.

O facto é que esses tempos, embora remotos, tiveram um papel determinante na construção identitária de Alcafozes. Hoje como ontem, esta pacata aldeia, com Misericórdia muita dinâmica e povoada por gente briosa, dedica-se, sobretudo, à agricultura e à pastorícia.

Atualmente, a riqueza dos seus campos alimenta regressos à terra, em atividades que vão da agropecuária sofisticada ao turismo rural, com destaque para a invulgar generosidade micológica da aldeia, celebrada no primaveril Festival dos Espargos, Criadilhas e Tortulhos.

É nos arredores de Alcafozes, no mais puro paraíso campal, que se localiza o enigmático Santuário de Nossa Senhora do Loreto, a Padroeira Universal da Aviação. Povo e Igreja desconhecem a origem do aparecimento da imagem nesta zona, mas a Santa é venerada numa festa popular anual, cujas cerimónias religiosas são o ponto de encontro para a aviação civil e militar portuguesas. 
Mas terá sido mesmo assim? Regressemoss a um passado ainda mais distante. 

O "LEQUE" nos anos 60

  Já assisti, por várias vezes, gente mais nova de Alcafozes perorar sobre como seria o "Leque" em tempos que já lá vão. Há poucas...