Em menos de um século, Alcafozes viu diminuir a sua massa humana nada menos que dez vezes. De 1600 almas nos anos 30 e 40 para os actuais 160. Pode.se afirmar por estes números que a aldeia está a definhar em todas as vertentes e deixou-se envolver num abraço que poderá ser fatal por Idanha-a-Nova, vila com a qual reparte agora uma União de Freguesias. Neste resumo histórico de Alcafozes, recordem.se os tempos áureos de Alcafozes, naquela viagem épica de 12 horas que se iniciava às 07h25, na Estação de Santa Apolónia e terminava numa velha e ronceira camionate da carreira, uma Ford Bus de 1940, da empresa Martins-Évora, às 19h30, na aldeia.
Alcafozes sobrevive, hoje em dia, envolta nos quatro dias da Festa de Nossa Senhora do Loreto, no final de Agosto, e pouco mais. Ouvem-se uns artistas mais ou menos em voga na altura, compram-se umas senhas na quermesse, acompanha-se a procissão e olha-se para o ar a ver passar os aviões F-16 da FAP. Finda a cerimónia, a povoação regressa a um dia-a-dia monótono para a sua centena e meia de gente.
Longe vão os tempos da euforia (quase) geral da implantação da República, em 5 de Outubro de 1910, à qual a população de Alcafozes aderiu com todo o povo à volta da nova bandeira empunhada por um republicano dos sete costados, Benjamim Nunes Leitão. Enquanto uns rejubilavam com o hastear do estandarte, outros perseguiram Joaquim Franco, fervoroso monárquico, que se refugiou em Espanha. Uma história curiosa e hilariante é a do Senhor "Conde" (de quê?) que armou a criadagem ao ser serviço com bacamartes e espingardas de carregar pela boca e foi entricheirar-se em Monsanto. Ao aproximar de uma força com duas bocas de fogo pela estrada de Medelim, o fervor da resistência foi por água abaixo e cada um fugiu para seu lado.
Apesar do temor que impunha a Casa Franca, contava-se, entre outros casos, que a melhor galinha, entre outros haveres, era oferecida às "senhoras", uma aitude reverencial que, por exemplo, não afectou uma mulher de armas que, enfrentou e irrompeu o cerco dos empregados dos donos do terreno da fonte do Chafariz Novo, e de caldeiro em punho avanlou e emcheu-o de água. O resto do povo, empolgado com o seu exemplo, tomou a fonte e esta nunca mais seria propriedade só para dar água aos senhores feudais de Alcafozes. O respeito era de tal modo imposto pelos proprietários e aceite pela esmagadora maioria dos habitantes, que o latifundiário Marrcos, de Idanha-a-Velha, impunha a estes e também aos de Alcafozes que tirassem o chapéu quando ele passasse no seu automóvel num geste revenrencial.
Numa terra dominada por um caciquismo comum a todo o território nacional, de louceiros sem louça, lavradores sem terras, azeitoneiros sem oliveiras, de boletreiros sem azinheiras, os "esturrêdos, como eram conhecidos os carvoeiros de Alcafozes que vendiam o carvão que vendiam pela vizinhança, nomeadamente aos "alarves" (de onde esta alcunha?) de Idanha-a-Nova, ainda alargaram os limites da aldeia quando os Franco venderam o "Cabeço" de pastagem para o gado em lotes, surgindo o Bairro de Nossa Senhora do Loreto, desenhado com traça pombalina, de ruas paralelas e travessa perpendiculares como a Baixa de Lisboa. Terá sido esse o auge populacional e económico de Alcafozes através de recursos própriios. Mas com o progresso também se desfigorou a terra, Não seria inevitável se houvesse quem enxergasse. mais longe e pensasse mais além.
A primeira machadada na estrutura de Alcafozes foi asfixiar a Igreja Matriz de São Sebastião com construções tão próximas à sua frente, algo que é um "pecado" paisagistico neste afunilamento sem sentido, constário às normas destas construções da fé que devem possuir amplos adros à sua frente.
Mas logo na entrada, o progresso deu um rombo naquilo que a povoação tinha de mais interessante. O Leque, com quatro triângulos em forma de trevo de quatro folhas, arborizado e com quatro belas placas rectangulares com duas "pernas", indicando um deles Idanha-a-Nova 13 kms; outro Granja de São Pedro 6 kms, outro Medelim 13 kms, Covilhã (?) e Guarda 90 kms e o último, obviamente, Alcafozes. Este lugar de estética imaculada foi arrasado para uma chamada rotunda, deserta, vazia, quase invisível, como as cabeças que a idealizaram. Parece que se pretende colocar nesse espaço um monmento a representar uma saca de carvão e um pão, erradamente considerados símbolos máximos, o "ex-libris" de Alcafozes, sendo que o que consta na sua bandeira e brasão é uma oliveira, que há dois mil anos, tal como o gado, representam a história milenar da aldeia. "Alcafozes terra de azeite egado, sim", de "Pão e carvão" não tem sustentação. O pão (bem saboroso, diga-se de passagem) era para consumo pessoal e o carvão, de raíz de azinheira ou de chamiços, é uma actividade que nem um século regista. Isto não é uma questão de gosto, é uma questão de história.
É um bocado estranho a colocação de passadeiras para peões, espelhos nas esquipas para o trânsito e lombas para abrandar a velocidade, registo o desinteresse geral de não mandar para o pretenso centro cultural os marcos miliários romanos referentes a Alcafozes, um na esquina de um prédio na aldeia, outro no museu de Idanha-a-Velha e um terceiro no museu de Idanha-a-Nova. E Alcafozes não merece o que é seu exposto na terra? São imensos os artefactos que poderiam dar úm conteúdo muito ineteressante ao tal putativo Centro Cultural. Dizem que não gente para ir ver. Isso é a teoria do deixa andar. Há terras na Beira Alta, menores e mais escondidas que Alcafozes, que, além de manterem a traça original exterior das casas e caminhos muito mais sinuosos para lá se chegar exploram restaurantes de luxo com uma clientela de estrato médio-alto. E outras com discotecas bem isoladas mas repletas de clientes. Aliás, e para terminar, uma referência à alteração da traça original das casas do seu tradicional exterior em xisto, tradicional na zona, e granito, para aquelas despersonalizadas pinturas brancas que nada condizem com a região. Não custava manter e até reparar o exterior, mas deixá-lo como foi arquitectado e no seu interior fazer uma remodelação total para modernizae a habitação e torná-la mais confortável. E como se não bastassem todos estes transtornos, ainda veio a negociata dos eucaliptos defigurar ainda mais a outrora misteriosa beleza de Alcafozes.
Até quando sobreviverá Alcafozes?
Uma casa de Alcafozes ainda não exteriormente desfigurada







