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terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

TRIGO E GADO ALIMENTAM ALCAFOZES

 Apesar da sua reduzida dimensão e população existem na história de Alcafozes casos bastante curiosos. Um deles, que me chamou mais a atenção e só agora descobri, existiu uma confraria na povoação, da qual não se sabe da existência de qualquer registo. Esta suspeita alicerçou-se quando se efectuaram obras em algumas obras na aldeia, mais propriamente em três habitações com passagem interior entre si. Os donos dessas habitações, João Páscoa, o proprietário da venda antecessora das actuais "lojas dos chineses", onde se negociava de tudo, desde alfinetes até charruas, enxadas e picaretas, além de ser ali o único telefone durante muitos anos, com "franchising" da Singer  e correspondente do jornal "O Século". As outras duas casas da persumível confraria pertenciam ao Ti Faia, o dono de uma concorrida tasca, e a outra do Ti Bernardo, o barbeiro, enfermeiro e ainda sacristão. No celeiro junto a estas três casas descobriu-se uma cisterna, que fornecia água aos frades e freiras. Tudo isto perdeu-se, infelizmente, perdeu-se na memória do tempo. 
A implatação da República, em 5 de Outubro de 1910, fez estremecer as estruturas da terra. Houve uma divisão entre republicanos e monárquicos e a própria família Franco, a latifundiária dominante buscou refúgio em Espanha. Aconteceram as inevitáveis discussões mas não se entrou em confronto físico. A vida rude não permitia deixar que o dia-a-dia acentuasse a pobreza de 99,9% da aldeia. Em meados do século XIX cerca de metade do trigo era importado dos Estados Unidos, situação que agravava a balança de comércio de Portugal com outros países. A partir de 1820 houve um incremento da produção nacional e em redor de Alcafozes um número incalculável de azinheiras e outras espécies foram derrubadas para as juntas de bois e a lâmina das charruas rasgassem os terrenos para sementeiras de maior dimensão. Era a chamada Lei da Fome, de 1889, a tentar que o país fosse suficiente e m cereais. Neste início do século XX, moinhos e azenhas eram as "máquinas" das quais se retiravam preciosidades como a farinha e o azeite, Os sobreiros proporcionaram a recolha de milhares de tonelasas de cortiça e a lã das ovelhas tosquiadas também atingiam quantidades apreciáveis. A produção de linho também se revelava produtiva. 

Até à implantação da República , o Cabeço das Taipinhas, onde se encontra a Capela da Senhora do Loreto, e outros terrenos em redor eram de uso público para o gado pastar livremente. A I Guerra Mundial levou para as trincheiras de França muitos homens de Alcafozes, cujos nomes merecem ser recordados: Joaquim Braga, António Nunes, Joaquim Morgado, José Pedro, Joaquim Garnacho, João Brito, José Videira e Nuno Robalo, o célebre Perra da concertina, que regressou sem um braço. Todos os outros voltaram sãos e salvos.O sino da torre da aldeia, colocado quando foi construída a torre, em 1883, mais de um sécuço depois da igreja, saudou-os quando voltaram da Flandres. Apesar das carências devido ao conflito mundial, a agricultura em Alcafozes manteve-se a um nível sustentável dentro das dificuldades existentes de miúdos descalços a correr pelas ruas a fazer recados à família ou a ajudar os mais velhos no pastoreio, apanhar lenha e outras tarefas. O ferreiro da povoação, com a fornalha vermelha como o inferno empenhava-se em dar à luz ferramentas para os mais diversos labores e utensílios agrícolas.
Em 1914, os republicanos "absolveram" os monárquicos refugiados em Espamha, França, Bélgica, Brasil, Inglaterra e permitiu-lhes o regresso a Portugal. Assim, a família da Casa Franca voltou às rédeas dos seus latifúndios em Alcafozes. A necessidade de maior facilidade de transporte trouxe um serviço de táxi, propriedade de José Esteves Remédios, e uma singular bomba de gasolina. Também começou a fazer-se por camioneta da carreira, entre Alcafozes e Idanha-a-Nova pelos 13 kms de uma estarada de terra e pedras, que levantava uma poeirada imensa quando o veículo da empresa Martins-Évora fazia o trajecto. Quando a aviação comercial começa a despontar, a Força Aérea está em evolução e já conhece a veneração pela "Senhora do Ar"  um grupo de alcafozenses liderado pelo Sr. Joaquim Marques  conseguiu tomar conta do terreno em volta da igreja, em nome de Nossa Senhora do Loreto, cujas festas com o sobrevoo de aeronaves Corsair da FPF, aconteceriam a partir de 1957.
 

Tapada de Alcafozes com vista para Monsanto

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

CRUZEIRO - A FONTEIRA DE ALCAFOZES EM 1631

  A saída da maiorida dos habitantes da decadente Idanha-a-Velha e a sua migração para a nova Idanha nos altos rochedos perto do Ponsul deixaram Alcafozes isolada num buraco cavado pela natureza entre os vários cabeços que dominam a paisagem, onde sobressaem as oliveiras e umas azinheheiras e umas minúsculas seaaras que asseguram uma subsistència pobre a gente dedicada, como sempre, ao gado, nomeadamente aos numerosos rebanhos de ovelhas e cabras, mais uns quantos suínos que vagueavam em buca do seu alimento favorito, a bolota. A vida, como já referi, era rústica e pautada pelas ordens das natureza, as sementeiras, as colheitas, as horas de iniciar a jorna ou o tempo de cear. A maioria das casas, embora com alguns palheiros erigidos a seguir ao Monte de São Marcos, onde nasceria a Misericórdia em 1740, eram partilhadas por pessoas e animais. A chamada "loja" no rés-do-chão para os burros e outra bicharada doméstica e ao lado ou no andar de cima a zona familiar, reunidada normalmente em redor de uma lareira onde cozinhavam, tomavam a ceia da noite e trocavam umas palavras acerca da numerosa prole, dos animais e haveres e umas novidades sobre a ti Fulana ou o ti Beltrano. 

As riquezas dos Descobrimentos e a união forçada com a Espanha, desde 1580, trouxeram algumas melhorias ao "modus vivendi" dos aldeões, embora nada comparável aos progressos das cidades principais do litoral ou das mais importantes do interior do país. Uma maior desaceleração da pobreza medieval proporcionou o crescimento de Alcafozes, desde a Rua Velha até ao limite do povoado, que se situava prescisamnte no cruzeiro de 1631. 
Embora continue sem dados específicos sobre alguma igreja ou capela nos séculos XVI e XVII, assim como de uma taberna, como lugar de convívio, sabe.se que o Vigário Gregório ia de Idanha-a.Velha a Alcafozes tratar das almas, mas não se sabe propriamente onde. Aliás, o referido Vigário estava dependente da Igreja de Idanha-a-Velha, então já absorvida pelo bispado da Guarda. No entanto, na história oral dos mais velhos de Alcafozes, ouvi, muitas vezes, há mais de 50 anos, que as tradições de festas, romarias, procissões e "corridas de touros" se perdiam na memória dos tempos. Portanto, algo teve de existir na "terra" muito antes das datas oficiais estarem registadas nos compèndios oficisais, 
Desconhece-se se além da Ordem de Cristo e, posteriormente, com a seculorização das zona houve por ali senhores que imposessem um regime orpressivo aos nativos de Alcafozes, embora quer a Rodem de Cristo quer a Coroa cobrassem os seus impostos. 
Anos após o foral concedido por D. Manuel a Alcafozes, em 1510, instalaram-se na zona alguns marinheiros "reformados" sobreviventes das campanhas das Descobertas [uma grande percentagem das tripulações eram beirões por serem homens de rija cepa] e, fosse qual fosse a ordem, começaram a instalar-se na zona uma família de origem italiana, os Capello, a família Franco Frazáo na Capinha, a família Marrocos em Idanha-a-Velha e a família Manzarra em Idanha-a-Nova, além de outras fora de uma vasta zona de Alcafozes. E aí outros tempos vieram, talvez mais repressivos por um lado e mais lucrativos e menos miseráveis por outro. Veremos.
  


Cruzeiro, o limite da aldeia em 1631, aqui com o madeiro de Natal a arder

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

A romanização da Lusitânia e a morte de Viriato

 A derrota dos cartaginesas pelo exército romano em 202 A.C. foi rapidamente seguida pela eliminação das colónias e entrepostos comerciais que tinham estabelecido nas costas oeste e sul da Península Ibérica. A falange de legiões que avançava de leste para oeste encontrou pouca resistência e conquistou uma faixa de território que se estendia de 50 a 100 km para o interior. Naquela época, o Algarve e o Baixo Alentejo eram habitados pelas tribos dos Cónios (Cynetes) e também forneciam quartéis de inverno para os remanescentes do exército cartaginês em Portus Hannibalis (perto de Portimão). A resistência militar foi insignificante e o exército dispersou-se enquanto os Cónios, que não tinham desfrutado dos anos de domínio cartaginês, saudaram a chegada dos romanos. Nos anos seguintes assimilaram o modo de vida romano e, juntamente com os seus vizinhos, os Turduli, forneceram milícias e auxiliares aos novos ocupantes.

Quando os romanos voltaram a sua atenção para o norte, encontraram uma resistência tribal muito mais robusta por parte dos Lusitanos, que era o nome coletivo de uma federação de migrantes celta que já se tinham  miscigenado com os autóctones das planícies centrais entre o Douro e o Tejo. Os Lusitanos provaram ser guerreiros temíveis e destemidos, embora descritos por alguns como bandidos, que se aliaram aos Celtas, Vetões e CeltiIberos para formar grupos de ataque que saquearam as tribos do sul e derrotaram os militares romanos numa série de emboscadas. A campanha foi tão séria que Roma foi forçada a enviar alguns dos seus melhores generais e reforços da cavalaria e da infantaria italianas para combater as incursões, mas as batalhas de 194 a 155 A.C. causaram pesadas perdas. No ano 154, o pretor Manius Manillius derrotou os Lusitanos, mas foi atraído para uma emboscada e foi derrotado, perdendo 9.000 homens. No ano seguinte, os Lusitanos atacaram os Cónios e depois cruzaram o Estreito de Gibraltar para sitiar a cidade de Ocilis. No entanto, foram perseguidos por Manillius, que matou 15.000 dos seus guerreiros.Mesmo assim, os Lusitanos e os seus aliados persistiram na resistência e no ano 150 o pretor Sérvio Sulpício Galba foi nomeado para acabar com o desastre e, com a ajuda de Lúcio Lúculo, derrotou os aliados divididos. saquearam as suas terras e massacraram um grande número de cidadãos desarmados. Quatro anos depois, quando uma população desmoralizada estava prestes a render-se finalmente, apareceu em cena um personagem desconhecido mas um guerreiro implacável chamado Viriato. O herói Lusitano foi descrito por Tito Lívio como um asceta pastor celta da região de Herminius Mons (Serra da Estrela), que se tornou guerreiro e lutou pela honra e glória do seu povo. O historiador Siculos conta-nos que foi um soldado valente, de estatura impressionante, com uma mente astuta e prudente, muito querido pelos seus seguidores.

Viriato já havia escapado do massacre do ano 150 e depis elaborou um plano pelo qual a maior parte da força lusitana conseguiu escapar à noite e  reagrupar-se. Viriato empregou tácticas de guerrilha, enviando grupos de ataque para as profundezas do território ocupado pelos romanos. Uma dessas incursões ocupou o reduto celta de Ronda e resultou na morte de 4.000 legionários enviados na sua perseguição. Isto marcou o início de uma série de expedições ousadas que perseguiram os romanos a tal ponto que o Senado de Roma enviou uma delegação para negociar os termos de uma trégua que reconheceria o governo de Viriato, a quem seria concedido o título de “amicus populi Romani” – um aliado do povo romano. Mas o acordo era frágil e permitiu aos romanos iniciar uma campanha de subterfúgios que procurou persuadir a deserção e divisão dos aliados e resultou na retirada das forças lusitanas para a sua terra natal, o centro de Portugal. A traição culminou no ano 139, quando três dos tenentes de maior confiança de Viriato, Audax, Ditalco e Minuro foram sequestrados para assassiná-lo, cortando-lhe a garganta enquanto dormia.

Sem a liderança de Viriato, todo o aspecto da resistência mudou e em 137 o seu sucessor, Táutulo, foi forçado a aceitar os novos termos do Procônsul Décimo Júnio Bruto. Estes forçaram a rendição e a deslocalização do povo lusitano para que Roma ganhasse o controlo militar completo de todo o território desde o Algarve até ao rio Douro. No ano seguinte, Brutus liderou uma força expedicionária através dos rios Lima e Minho para reprimir os galegos nos seus redutos montanhosos e assim completar a conquista de todo o território hoje conhecido como Portugal.

A Lusitânia englobava, entre outras regiões, a actual Beira Baixa e, como é é óbvio o terreno onde hoje se situação Alcafozes, que terá sido uma povoação arrabalde de Civitas Igaeditanorum, Idanha-a-Velha, que depois seria baptizada como Igeditânia, nome que surge em documentos do século VI e na forma visigótica de Egitânia e, mais tarde, a Idania árabe. Veremos, depois, como nasceu Alcafozes propriamente dita. 


A Lusitânia englobava os territórios actuais da Beira Baixa e Alcafozes 

O "LEQUE" nos anos 60

  Já assisti, por várias vezes, gente mais nova de Alcafozes perorar sobre como seria o "Leque" em tempos que já lá vão. Há poucas...