Noite cálida numa pequena aldeia da Beira Baixa. Alcafozes. Um logradouro fundado por romanos, mais ou menos no século I, onde se pastoreavam vacas, cabras e ovelhas. Era comum nas férias grandes passar horas à conversa com o meu avô Joaquim. Sentados no solar da porta, nas tradicionais cadeiras de verga, ouvia as suas palavras, bebia os seus conhecimentos e registava as suas memórias. Até aos meus 18 anos, altura em que o meu avô faleceu, foi ele quem moldou o meu carácter para sempre. Espinha direita, verticalidade e desassombro foram os dogmas que me transmitiu. Impunha-se pela sua figura imponente e carismática, não necessitando sequer de botar palavra para todos à volta se submeterem a uma postura de reverência quase religiosa. Era como um alcaide no seu castelo. Sentia-me seguro perto dele. Ali ninguém me incomodava física ou psicologicamente. Um olhar dele bastava para afastar qualquer veleidade de disputa.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025
O MEU AVÔ NO ASSASSINATO DE SIDÓNIO PAIS
domingo, 9 de fevereiro de 2025
O DECLÍNIO DE ALCAFOZES: "TERRA DE AZEITE E GADO"
Em menos de um século, Alcafozes viu diminuir a sua massa humana nada menos que dez vezes. De 1600 almas nos anos 30 e 40 para os actuais 160. Pode.se afirmar por estes números que a aldeia está a definhar em todas as vertentes e deixou-se envolver num abraço que poderá ser fatal por Idanha-a-Nova, vila com a qual reparte agora uma União de Freguesias. Neste resumo histórico de Alcafozes, recordem.se os tempos áureos de Alcafozes, naquela viagem épica de 12 horas que se iniciava às 07h25, na Estação de Santa Apolónia e terminava numa velha e ronceira camionate da carreira, uma Ford Bus de 1940, da empresa Martins-Évora, às 19h30, na aldeia.
Alcafozes sobrevive, hoje em dia, envolta nos quatro dias da Festa de Nossa Senhora do Loreto, no final de Agosto, e pouco mais. Ouvem-se uns artistas mais ou menos em voga na altura, compram-se umas senhas na quermesse, acompanha-se a procissão e olha-se para o ar a ver passar os aviões F-16 da FAP. Finda a cerimónia, a povoação regressa a um dia-a-dia monótono para a sua centena e meia de gente.
Longe vão os tempos da euforia (quase) geral da implantação da República, em 5 de Outubro de 1910, à qual a população de Alcafozes aderiu com todo o povo à volta da nova bandeira empunhada por um republicano dos sete costados, Benjamim Nunes Leitão. Enquanto uns rejubilavam com o hastear do estandarte, outros perseguiram Joaquim Franco, fervoroso monárquico, que se refugiou em Espanha. Uma história curiosa e hilariante é a do Senhor "Conde" (de quê?) que armou a criadagem ao ser serviço com bacamartes e espingardas de carregar pela boca e foi entricheirar-se em Monsanto. Ao aproximar de uma força com duas bocas de fogo pela estrada de Medelim, o fervor da resistência foi por água abaixo e cada um fugiu para seu lado.
Apesar do temor que impunha a Casa Franca, contava-se, entre outros casos, que a melhor galinha, entre outros haveres, era oferecida às "senhoras", uma aitude reverencial que, por exemplo, não afectou uma mulher de armas que, enfrentou e irrompeu o cerco dos empregados dos donos do terreno da fonte do Chafariz Novo, e de caldeiro em punho avanlou e emcheu-o de água. O resto do povo, empolgado com o seu exemplo, tomou a fonte e esta nunca mais seria propriedade só para dar água aos senhores feudais de Alcafozes. O respeito era de tal modo imposto pelos proprietários e aceite pela esmagadora maioria dos habitantes, que o latifundiário Marrcos, de Idanha-a-Velha, impunha a estes e também aos de Alcafozes que tirassem o chapéu quando ele passasse no seu automóvel num geste revenrencial.
Numa terra dominada por um caciquismo comum a todo o território nacional, de louceiros sem louça, lavradores sem terras, azeitoneiros sem oliveiras, de boletreiros sem azinheiras, os "esturrêdos, como eram conhecidos os carvoeiros de Alcafozes que vendiam o carvão que vendiam pela vizinhança, nomeadamente aos "alarves" (de onde esta alcunha?) de Idanha-a-Nova, ainda alargaram os limites da aldeia quando os Franco venderam o "Cabeço" de pastagem para o gado em lotes, surgindo o Bairro de Nossa Senhora do Loreto, desenhado com traça pombalina, de ruas paralelas e travessa perpendiculares como a Baixa de Lisboa. Terá sido esse o auge populacional e económico de Alcafozes através de recursos própriios. Mas com o progresso também se desfigorou a terra, Não seria inevitável se houvesse quem enxergasse. mais longe e pensasse mais além.
A primeira machadada na estrutura de Alcafozes foi asfixiar a Igreja Matriz de São Sebastião com construções tão próximas à sua frente, algo que é um "pecado" paisagistico neste afunilamento sem sentido, constário às normas destas construções da fé que devem possuir amplos adros à sua frente.
Mas logo na entrada, o progresso deu um rombo naquilo que a povoação tinha de mais interessante. O Leque, com quatro triângulos em forma de trevo de quatro folhas, arborizado e com quatro belas placas rectangulares com duas "pernas", indicando um deles Idanha-a-Nova 13 kms; outro Granja de São Pedro 6 kms, outro Medelim 13 kms, Covilhã (?) e Guarda 90 kms e o último, obviamente, Alcafozes. Este lugar de estética imaculada foi arrasado para uma chamada rotunda, deserta, vazia, quase invisível, como as cabeças que a idealizaram. Parece que se pretende colocar nesse espaço um monmento a representar uma saca de carvão e um pão, erradamente considerados símbolos máximos, o "ex-libris" de Alcafozes, sendo que o que consta na sua bandeira e brasão é uma oliveira, que há dois mil anos, tal como o gado, representam a história milenar da aldeia. "Alcafozes terra de azeite egado, sim", de "Pão e carvão" não tem sustentação. O pão (bem saboroso, diga-se de passagem) era para consumo pessoal e o carvão, de raíz de azinheira ou de chamiços, é uma actividade que nem um século regista. Isto não é uma questão de gosto, é uma questão de história.
É um bocado estranho a colocação de passadeiras para peões, espelhos nas esquipas para o trânsito e lombas para abrandar a velocidade, registo o desinteresse geral de não mandar para o pretenso centro cultural os marcos miliários romanos referentes a Alcafozes, um na esquina de um prédio na aldeia, outro no museu de Idanha-a-Velha e um terceiro no museu de Idanha-a-Nova. E Alcafozes não merece o que é seu exposto na terra? São imensos os artefactos que poderiam dar úm conteúdo muito ineteressante ao tal putativo Centro Cultural. Dizem que não gente para ir ver. Isso é a teoria do deixa andar. Há terras na Beira Alta, menores e mais escondidas que Alcafozes, que, além de manterem a traça original exterior das casas e caminhos muito mais sinuosos para lá se chegar exploram restaurantes de luxo com uma clientela de estrato médio-alto. E outras com discotecas bem isoladas mas repletas de clientes. Aliás, e para terminar, uma referência à alteração da traça original das casas do seu tradicional exterior em xisto, tradicional na zona, e granito, para aquelas despersonalizadas pinturas brancas que nada condizem com a região. Não custava manter e até reparar o exterior, mas deixá-lo como foi arquitectado e no seu interior fazer uma remodelação total para modernizae a habitação e torná-la mais confortável. E como se não bastassem todos estes transtornos, ainda veio a negociata dos eucaliptos defigurar ainda mais a outrora misteriosa beleza de Alcafozes.
Até quando sobreviverá Alcafozes?
Uma casa de Alcafozes ainda não exteriormente desfigurada
quarta-feira, 8 de janeiro de 2025
Alcafozes protegida pelos Templários
A independência de Portugal foi reconhecida pelo rei Afonso VII, de Leão, no Tratado de Zamora, em 1143. Só anos mais tarde, em 1179, o reino português foi confirmado no seu estatuto de estado independente pelo Papa Alexandre III. Por esta altura do aval papal já se iniciara a conquista de terras aos mouros para a configuração de Portugal. O objectivo principal de D.Afonso Heenriques era Lisboa e também Badajiz, náo só para estender o reino para Sul e alargar o mais possível o rectângulo em que se transformaria o país. A primeira tentativa de conquistar Lisboa falhou devido ao desentendimento dos cruzados. Posteriormente, após um longo cerco que durou de 1 de Julho até 25 de Outubro de 1147, Lisboa caiu, finalmente, nas mão de D. Afonso Henriques e com ela Sintra, Almada, Palmela e também Sesimbra. Se Lisboa foi um êxito, Badajoz constituiu um desastre. As milícias de Geral Sem Pavor foram cercadas na cidade, D. Afonso Henriques acorreu para ajudar o seu "general", mas partiu uma perna na saída da cidade e, segundo consta, num mais entrou em batalhas, a partir desse ano de 1169.
A cidade da Guarda, como o próprio nome indica, foi-lhe atribuído como uma vigia da fronteira ba Reconquista cristá. Antes disso, por lá estiveram povos latinizados, como os romanos, que bebiam vinho e depois do germanos, que se deliciavam com cerveja de bolota. Além da religião eram estes os dois factores mais evidentes que os diferenciavam, Em 1166 a cidade de Cáceres, paredes-meias com a Beira Baixa foi conquistada por Geraldes Sem Pavor. Finalmente os portugueses passavam a Leste da Serra da Estrela, Covilhã, Fundão, Castelo Branco e, obviamente, Alcafozes fazia finalmente parte de Portugal. Um dos grandes conquistadores de terras aos Mouros, Gonçalo Mendes da Maia, morreu em conbate 3m 1177, na tomada de Beja, aos 91 anos.
Gualdim Pais era agora o Mestre dos Templários em Portugal. O Castelo de Penha Garcia foi construído pela Ordem do Templo no início do século XIV, sobre um outro mais antigo. Local estratégico na defesa da fronteira leste de Portugal, faz parte da linha de defesa do médio Tejo. O castelo mantinha contacto visual com os castelos de Salvaterra do Extremo, Idanha-a-Nova, Castelo Branco, Monsanto e Bemposta, todos da Ordem do Templo. Alcafozes, num lugar baixo e relatuvamente resguardado, comunicava com caminhos já degradados do tempo dos romanos para Idanha.a.Nova, Senhora do Almortão, Zebrreira, Idanha-a-Velha, Monsanto e Medelim. Era uma época relativamente tranquila, controlada pelos Templários e é praticamente certo que a sua população cresceu em relação à ocupação muçulmana. Até é muito possível que alguns cavaleiros nórdicos tenham por ali assentado arraiais nas abundantes terras de azeite e gado e por ali começacem a aparecer outras profissões como albardeiros, ferreiros e curtidores de peles, entre outros. A aldeia de Alcafozes voltava a prosperar depois dos tempos aureos de Idanha-a-Velha, agora caída na desertificação. Em 1229 foi atribuído o foral a Idanha-a-Nova.
Alcafozes, uma terra discreta abraçada por oliveiras
sábado, 4 de janeiro de 2025
A Al Confossis moura
A invasão muçulmana transformou a romana-visigoda Stagni Confossis ou Villae Confossis em Al Confossis, a designação árabe que chegaria ao nome da actual Alcafozes. Apesar da fuga de muitos habitantes da zona para norte e evitar, assim, os conquistadores vindos do Norte de África, aqueles que ficaram continuaram as suas actividades de pastorícia, azeite e vinho, mas o néctar dos deuses seria gradualmente abolido de Alcafozes (e não só) por a sua religião não permitir a ingerência de bebidas álcoolicas. Na turbulência da transição suevo-visigótica para para os mouros, a igreja de Idanha-a-Velha foi reconvertida em mesquita, embora os novos conquistadores permitissem o cristianismo e o judaísmo mas sem manifestações externas das suas opções religiosas.
Esta invasão moura de Portugal ocorreu em 711, quando um exército muçulmano liderado por Tariq ibn Ziyad atravessou o Estreito de Gibraltar. Durante séculos, os Mouros governaram Portugal, deixando uma marca duradoura na paisagem do país. A sua presença durou mais de quatro séculos e revolucionou a agricultura portuguesa, bem como as realizações intelectuais e artísticas. Introduziram novas culturas como arroz, frutas cítricas, romãs e até cana-de-açúcar. Fixaram-se em diferentes regiões, nomeadamente Lisboa (a que chamavam "Lashbuna"), Santarém, Mértola e pouco a pouco todo o território que hoje forma Portugal. Os mouros começaram como conquistadores, mas rapidamente se tornaram arquitectos, cientistas e músicos.
Quem observa a formação do território português costuma associá-la apenas ao Condado Portucalense e à figura de D. Afonso Henriques. No entanto, antes disso, existiu na Península Ibérica um mosaico de reinos muçulmanos, conhecidos por taifas, que floresceram após a fragmentação do Califado de Córdova. Entre eles, destacou-se o Reino ou Taifa de Badajoz, cuja autoridade chegou a estender-se por cerca de metade do que hoje corresponde a Portugal. A sua capital era a cidade de Badajoz, fundada em 875 pelo rebelde Ibne Maruane, que a ergueu num local estratégico junto ao rio Guadiana.Formado por volta de 1009 ou 1013, o Reino de Badajoz surgiu numa época de instabilidade política e de dissolução do poder central islâmico. O primeiro governante foi Sabur, antigo escravo eslavo do califa Aláqueme II, que aproveitou a crise do Califado de Córdova para proclamar a independência.Quando Sabur morreu, em 1022, o seu vizir Abedalá ibne Alaftas assumiu o comando, fundando a dinastia Aftácida. Gradualmente, o reino consolidou-se e expandiu-se, integrando boa parte da antiga Lusitânia romana, incluindo Mérida e Lisboa, prolongando-se até às proximidades do Douro a norte e abrangendo extensas zonas do Alentejo e toda a Beira Baixa actual, incluindo, obviamente a aldeia de Alcafozes.
Alcafozes e a Beira Baixa integrados na Taifa de Badajoz na ocupação moura
O "LEQUE" nos anos 60
Já assisti, por várias vezes, gente mais nova de Alcafozes perorar sobre como seria o "Leque" em tempos que já lá vão. Há poucas...
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Apesar de constar nas vias romanas de há 2 mil anos, conforme o atestam os marcos miliares encontrados da aldeia e, actualemente, espalhad...
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À primeira vista as caganitas das cabras e os cagalhões das pessoas nada têm em comum. Contudo, com um bocadinho de jeito a merda é a mesma....
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A primeira recordação de uma longa viagem com ela aconteceu na visita anual à Beira Baixa, província de onde é natural a minha família. Teri...



