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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

LOBISOMENS, BRUXAS e MÁ-HORA ao SERÃO

 Noite de Verão. Está escuro como é próprio da falta de luar. Ainda não chegou a luz eléctrica à aldeia recôndita da Beira Baixa. O bafo do calor diurno não se diluiu ainda. Só atenuará um pouco quando chegar a madrugada. Dentro da casa de dois andares, uma luz mortiça de uma candeia bruxeleia e confere ao ambiente uma soturna dança de sombras, idênticas às que serpenteiam através dos biombos chineses. São enormes, ameaçadoras, intimidantes.

Terminadas as tarefas domésticas com a lavagem da loiça do jantar com a água dos cântaros transportadas das fontes à cabeça das mulheres ou acondicionados aos pares sobre a albarda dos burros, é tempo para se juntar a família e um ou outro vizinho em frente à casa.
Os elementos do conclave sentam-se em cadeiras de assento de verga e estrutura de madeira, produto típico da região, ou tomam assento nos tropeços, uns bancos rústicos sem pernas, feitos de cortiça, idênticos na sua estrutura e utilidade aos actuais pufes, ou puffs, como entenderem escrever.
Tenho os meus cinco ou seis anos e estou a familiarizar-me com o contraste da cidade iluminada por lâmpadas mortiças de 25 velas em contraste com a aldeia das candeias de azeite ou candeeiros a petróleo. Sem rádio nem televisão, são as conversas que escoram a comunidade. Terra de gente do campo, urdida na agrura da terra e nos elementos do tempo que regem as tarefas de sobrevivência individual e colectiva. Vindas de longe, Frente a outras casas ouvem-se na noite outras famílias a dissertarem sobre os temais mais ou menos cadentes das suas vidas.
Tento romper o manto de escuridão com o olhar desconfiado de puto da cidade. Nada. Ao invés, as estrelas brilham como nunca as vi assim tão cintilantes. A negritude do lugar acentua todo aquele esplendor celeste. O tema da conversa, banal, entretanto, mas a passagem do tempo trouxe à assembleia familiar outras histórias mais obscuras que passam de geração em geração.
Apurei o ouvido e à medida que a narrativa esmiuçava pormenores sobrenaturais ocorridos por ali, através dos anos, sentia um frio na barriga. Os segredos temerosos da noite, os maus olhados, as bruxarias tomavam conta do argumento da plateia. Há reacções opostas. Os mais velhos, os relatadores dos episódios, ironizavam nas palavras, a geração anterior à minha soltava brados de espanto "ai credo", eu e sentia arrepios na espinha. O relógio da igreja bateu com energia metálica as 11 badaladas das 23 horas.
A matriarca da família deu o aviso: recolher a casa antes de passar a Má-Hora. Olhei para um lado e para o outro como se quisesse vislumbrar semelhante figura, que eu não fazia a mínima ideia do que se tratava. Então a decana daquela mesa redonda sem mesa, afirmava, peremptoriamente, que antes da meia-noite aparecia um animal preto de qualquer género, para avisar quem se atravesse a sair àquela hora que poderiam acontecer-lhe acontecimentos de má memória, terríveis, imprevistos, danosos. Mau. Vinha aí a Má-Hora.
Os meus cabelos eriçavam-se. Só serenava um pouco quando via a figura de quem se sentava ao meu lado, o chefe da nossa tribo, o qual enrolava, tranquilo, o tabaco das onças Duque numa mortalha Touro. Evidenciava uma tamanha calma existencial como se tudo o que ouvia não o apoquentasse. Era religioso e bastava-lhe a fé para se sentir seguro nos caminhos, umas vezes com o burro e outras, a caminho da Terra Fria, com uma carroça puxada por machos. Mas como não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe, afinal a Má-Hora, professorava a matriarca, era seguida, creio que 60 minutos depois, pela Boa-Hora. Esta aparição, em forma de um qualquer animal branco, acabava com qualquer veleidade sombria da sua predecessora negra. Por essa altura eu já sentia a boca seca como uma casca de árvore ao sol. Lembrava-me do azado com água fresca da fonte, lá em cima no primeiro andar, mas não me atrevia sequer a mexer um pé.
O serão, no entanto, para mim iria correr de mal a pior. Relatam-se episódios ocorridos com lobisomens e calmões. Voltava o aperto à barriga, mas não dava parte de fraco. A calma do ancião ao meu lado, com o cigarro ao canto da boca e o chapéu empurrado para a nunca, dá-me o ânimo de não fugir dali não sei para onde. Um lobisomem sabia mais ou menos o que era, falavam-me deles nos filmes. Os calmões, esses, não faziam ideia de que animal ou pessoa seriam eles. Talvez, quem sabe, fossem umas criaturas da família dos gnomos das histórias irlandesas. Esses seres temíveis e temidos faziam das suas ao cruzar-se com os habitantes da aldeia e foram vários os casos, segundo a irmã mais nova da matriarca, de mulheres que apareceram despidas, nas encruzilhadas de quatro caminhos, com a roupa esfarrapada, atiradas, sem dó nem piedade, para os espinhos dos silvados. Havia marcas de arranhadelas, dizia ela, convicta.
Segundo constava pela aldeia, um homem noivo de uma mulher local, foi recebido por uma turba de gente que não o queria na aldeia por ser familiar de lobisomem, garantiam, um sétimo filho de uma sétima geração. Pois bem, fosse como fosse, o intruso era determinado e valente. Encheu as mangas do casaco de pedras, deu um nó nas pontas e foi com essa arma improvisada que desbaratou a massa de gente que o queria expulsar dali para fora,. O final não foi o que esperava. Ele casou com quem queria, a sua bela amada, mas enfrentando sempre a desconfiança da sogra. No entanto, ali viveram felizes até que a morte os separou, no espaço de pouco meses, já estavam ambos na casa dos 70 anos.
O ambiente, para mim, piorava a cada momento que se abria um novo capítulo. Agora era tema de conversa um indivíduo que se transformava nas noites de lua cheia. Ciente do que iria acontecer, a mulher colocava na rua um balde cheio de água e recolhia logo ao lar. Pela noite adentro ouviam-se os cascos deles nas correrias desvairadas pelas ruas e o seu guinchar histriónico. Horas depois, antes do amanhecer, ele regressava a casa, desfigurado, mas já em forma de gente. A matriarca da família confessou-nos que a seguir a uma dessas noites aterradoras, ela passou junto a ele no local onde exercia o seu mister e ao cumprimentá-la sorriu, e entre os dentes ela viu que ele ainda tinha fios de roupa que rasgara com a boca nessa cavalgada que terminava sempre com ele a beber toda a água do balde que a mulher lhe colocava na rua. Dias depois, ao passarmos junto a um muro, a contadora da história apontou para uma marca na parede em forma de ferradura e comentou: "Foi ele".
As narrativas de assombrações eram intermináveis. Dou a conhecer apenas mais uma, ocorrido com a própria matriarca. No caminho para casa, mais tarde do que habitual e vinda dos seus labores do campo, ouviu atrás de si uns ruídos e umas risadas. Era próximo da meia-noite, tempo da Má-Hora. Olhou para trás e estava a ser perseguida por um coelho que tentava atirar-se a ela, sempre com aqueles sons intimidantes de risadas diabólicas e um palavreado que não era entendível. O animal seguiu-a sempre a incomodá-la com aquela ladainha, puxou-lhe a bainha da saia com os dentes, até que deu uma forte gargalhada, seguindo-se um valente estoiro e desapareceu. Assim, como e nunca tivesse existido. Por sinal, isso aconteceu no preciso momento em que um gato branco apareceu e atravessou o caminho. Era a Boa-Hora. Ao chegar a casa reparou que as pontas da saia comprida tinham sido roídas pelo estranho ser.
A terminar o serão, ouvi os testemunhos sobre a "daibólica", que não entendi bem o que era, e ainda aves e animais empalados nos ramos das árvores. Suspirei de alívio quando começámos a recolher a casa, apesar do calor que ainda abafava o corpo. Nessa altura, o chefe da nossa tribo, colocou-me a mão em cima do ombro e aconselhou-me algo que ainda hoje arquivei nos ouvidos. "Quando ouvires um barulho quando andares nos campos à noite nunca olhes para trás". Registei!
Os grilos e as cigarras continuavam o seu concerto à desgarrada e o fiel gato da casa levantou-se, espreguiçou-se e esgueirou-se na noite. Era preto e branco. Não havia azar...

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