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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

A VIAGEM LISBOA-ALCAFOZES nos anos 50

A primeira recordação de uma longa viagem com ela aconteceu na visita anual à Beira Baixa, província de onde é natural a minha família. Teria eu uns 4 ou 5 anos. O despertar para essa verdadeira epopeia iniciava-se muito cedo. Às 2h30 ou 03h00 da madrugava já os meus pais me chamavam para levantar da cama. Ainda ensonado, mas muito excitado pelo acontecimento que me aguardava, seguia-se a lavagem o pequeno-almoço quando ainda os galos não cantavam, os últimos acertos e retoques da bagagem e, finalmente, a ida para a estação de Santa Apolónia. O comboio para a Beira Baixa partia da Linha 2 às 07h35. Naquele tempo, finais dos anos 50, as composições eram uma longa fila de carruagens de I, II e III classe. Eu ficava fascinado com aqueles "monstros" sobre carris e o cheiro que deles emanava. O meu Pai, nessa altura, só tinha 15 dias de férias e seguia mais tarde de carro, a tempo de convivermos todos nas festas anuais de Nossa Senhora do Loreto. Portanto, este trajecto obrigatório de inícios de Setembro fazia-se sem ele, mas com a minha Mãe, as minhas tias e o meu primo. Mal o comboio se punha em movimento eu queria era ir pendurado à janela. Não havia ainda aquelas modernices do ar condicionado e sentir o vento na cara, ouvir o roncar da locomotiva diesel e observar aquela longa extensão de carruagens nas curvas deixavam-me extasiado. A minha Mãe estava sempre a puxar-me para dentro, não só por questões de segurança, mas também para não ficar todo mascarrado com as partículas de fumo ejectadas pela locomotiva. E logo ela que queria sempre tudo muito limpo, fosse em que circunstâncias fosse.

Passadas as estações de Vila Franca de Xira, Santarém, Abrantes, já quando o comboio seguia paralelo ao rio Tejo e se vislumbrava o majestoso castelo de Almourol era hora da abrir o saco da merenda. E como sabiam bem as sandes de carne assada, os pastéis e as pataniscas de bacalhau ou os carapaus fritos.
De quando em vez lá ia a minha Mãe buscar-me por uma orelha à varanda da carruagem, muito parecida com aquelas que se vêm nos filmes do Far-West. Quer dizer que chegava a Castelo Branco com as minhas pobres orelhas em brasa...
Na capital da Beira Baixa, o calor já apertava bastante às 12h30. Aí, uma camioneta de passageiros levava-nos para a garagem central da empresa de transportes de passageiros Martins-Évora. Havia que esperar pela ligação rodoviária entre Castelo Branco e Idanha-a-Nova. Eu ficava esbaforido com o calor e lembro-me da senhora que vendia bananas e comia uma ou duas.
Mas ainda havia que fazer o percurso de Idanha-a-Nova para Alcafozes, numa relíquia das estradas que era a vetusta Ford, apenas com uma porta ao meio, a arrastar-se e a fumegar do radiador pelo caminho de terra e saibro até chegarmos, já quase ao pôr-do-sol, a Alcafozes, o nosso destino.
À entrada da aldeia estava sempre a minha avó à nossa espera, às vezes com um jerico pela rédea para ajudar a levar as malas e bagagens até à casa construída pelo meu avô Joaquim.
Ainda nem sequer tinha entrado em casa e já andava a correr atrás das galinhas e, obviamente, a minha Mãe, mais uma vez, a puxar-me as orelhas e a enfiar-me numa bacia de água para me lavar no final daquela longa maratona.
Uffff!

Eu, à direita, já crescidinho. E o bigode também...

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

O BURRO "SÓCIO" DO MEU AVÔ "ESTROINA"

 O "Sócio" foi o último burro do meu avô Joaquim Matos Rolo. Mas a conotação humana de burro não se aplica, de modo algum, ao "Sócio", o dito. Esperto e discreto, nada burro o solípede. O "Sócio" era o jipe 4x4 do meu avô Joaquim Matos Rolo. Um burro ruço, mas não soviético e muito menos pertencente à ortodoxia com a sua capital em Moscovo, no Kremelin, apenas um questão de coloração do pêlo.

Afinal, o nome condizia com a relação do meu avô com o solípede. Eram sócios. Vida em comum em longas viagens pelas províncias beirãs. Havia que tratar da existencialidade de cada um. As jornas do meu avô Joaquim Matos Rolo eram, não raras vezes, longe de casa uma semana. Da madrugada de domimgo para segunda até ao sábado seguinte. Às 2 da manhã já o "Sócio" estava despperto para sair com o seu sócio.
O "Sócio" andava junto à veredas dos caminhos. Os passos das 4 patas ferradas eram curtas mas rápidas. O meu avô, Joaquim Matos Rolo tanto acompanhava o "Sócio" a pé, como subia para o dorso, instalando-se na albarda para dar uma trégua às pernas vigorosas. Nessas malas Vitton para burros, mulas e cavalos, os tecidos não vinham de Milão ou das Amoreiras ou de qualquer outra loja das vaidadades. Os alforges eram urdidos de roupa velha, trapos já gastos e em desuso. Neles, além de ferramentas para o trabalho que o esperava de sol a sol, transportava-se merenda para uma semana. Pão de trigo amassado pela minha avó Rola e cozido no forno comunitário da aldeia, chouriço, toucinho e o que mais fornecia o porco criado ao longo do ano na furda, queijo, azeitonas e a cabaça do vinho da loja do ti Periquito.
O "Sócio", como toda a família de muares, são frugais. Carapetos, restolho, erva, praticamente todo o vegetal o alimenta, recebendo também alguns mimos pelo caminho, pêras, maçãs e ainda mais uns punhados de aveia, que o energizava como aquela gasolina com aditivos para dar potência ao motor. Um verdadeiro Mc Ervas sem Donald ou JeneSaisCus de emproados e pindéricas.
Sentado no "Sócio", o meu avô Joaquim Matos Rolo enrolava o tabaco de onça Duque na mortalha Touro. Passe a publicidade. Nessas viagens nocturnas brilhava apenas o borrão da pirisca entre os lábios do meu avô Joaquim Matos Rolo. O "Sócio", esse, tinha uns faróis mais potentes que os ledes dos burros mecânicos mais recentes, eléctricos, plug-in ou fósseis. Ao nascer do sol era preciso entrar ao serviço da natureza. O astro-rei era o relógio de ponto para os funcionários campestres, mais certeiro que os seus primos suíços. O "Sócio", com a tranquilidade típica de um asno 4x4, ia mordiscando aqui e ali enquanto o seu sócio naquela vida não dava por terminada a sua empreitada. Ceifa, apanha da azeitona, pedra. Já não conheci o meu avô Joaquim Matos Rolo a fazer carvão ou a vender loiça, mas assisti á compra do "Sócio". O negócio aconteceu na travessa entre a casa do meu avô e casa do tio de um primo meu. Não foi num stand de carros de luxo ou num stand manhoso. O vendedor era um cigano que exaltava as boas, excelentes, qualidades do "Sõcio". O meu avô Joaquim Matos Rolo examinou minusiosamente a suspensão, o chassis e a carroceria do "Sócios". Apalpou-o à procura de um corte no pêlo que avivasse o animal quando se toca nessa ferida camuflada, como na cidade se tenta descobrir massa na chapa coberta de tinta na carroceria de um automóvel em segunda mão, impimgido por um vendedor de banha da cobra. O exame final ao "Sócio", antes de se concretizar o contrato, centrou-se ne dentadura bem visível e melhor conservada do monocasco que abanava a cauda para sacudir as moscas na tarde quente de Setembro. Neegócio fechado. O cigano levou o velho e acabado ex-sócio do meu avô Joaquim Matos Rolo e mais 9 notas (900 escudos em dialecto local) e levou o novo sócio, o "Sócio" para a sua residência, um chalet de um piso, com sala de jantar na manjedoura, sala de estar e casa de banho na espessa camada de palha que aconhegava o solípede.
Também seria difícil alguém enganar o meu avô Joaquim Matos Rolo neste negócio. Na sua juventude, este meu inesquecível e douto antepassado cumpriu o serviço militar na arma de Cavalaria, tendo sido colocado no Regiimento de Lanceiros 2, em Lisboa, Regimento de Cavalaria 1, em Santarém, e Regimento de Cavalaria de Elvas. Aconteceu no clima em polvorosa da I República e foi interveniente, entre outros, nos graves distúrbios após a morte a tiro do presidente Sidónio Pais, na estação ferroviário do Rossia, em 14 de Dezembro de 1918. Ainda o "Sócio" não era nascido.
A I Guerra Mundial cessara no mês anterior, no dia 11 âs 11 da manhã, o que evitou a mobilização do meu avô Joaquim Matos Rolo para os campos de combate mortíferos da Flandres. Sem o "Sócio".
Naquela época conturbada da vida portuguesa, o meu avô acabou, finalmente, o serviço militar. Passou à disponibilidade em Elvas e, à falta de transportes entre aquela cidade e a sua aldeia, palmilhou durante alguns dias os mais de 100 kms a pé, com as botas do espólio da tropa ao ombro para não as gastar na longa caminhada.
Em 1900 e 20 e tal, enamorou-se da que seria minha avó, Maria Rola, apesar de a minha bisavó, que ainda chegou aa andar comigo ao colo, não aceitar de bom grado o enlace. "Ai de ti se não tratas bem a minha Rolinha", ameaçava a matriarca da família. Cumpriu.
Não apanhei, como disse, a fase em que o meu avô Joaquim Matos Rolo esteve envolvido no trabalho numa herdade, a Espadaneira, e também na fase em que andou no carvão e a vender louça. Por essa altura era a minha Tia Luísa, a sua segunda filha, quem ia com ele até aos confins da Terra Fria das Beiras. Ainda sem o "Sócio".
Em 1947, o meu avô Joaquim Matos Rolo construiu a sua casa à força de braços. Suou a partir xisto para as paredes. Depois de concluído após meses de trabalho e uma intervenção importante do meu Tio António, as pessoas vivenciavam no primeiro andar e no piso térreo o espaço era destinado aos seus sócios ferrados,, os companheiros de trabalho, que ainda não o nosso "Sócio" desta história. Carimbou a edificação na pedra com as suas iniciais JMR - 1947, as quais ainda hoje se podem observar para recordar aos menos memoriados quem ali habitou como dono e senhor até...
Nada é eterno.
O meu avô, Joaquim Matos Rolo, adoeceu e faleceu no dia 8 de Outubro de 1972. Recebi a triste chamada telefónica em casa dos meus pais, quando acabava de chegar de um jogo de futebol em que o Benfica venceu o Sporting por 4-2. A família partiu logo de seguida para a Beira Baixa no carro do meu pai. Eu fui de combóio com o meu primo João Rolo e tivemos uma série de aventuras e desventuras pelo caminho, de modo que o funeral só se realizou à noite, com candeias e velas a ilumiar o caminho até à sua última morada, féretro acompanhado pelos Irmãos da Misericórdia. O "Sócio", nas suas aconchegadas instalações por trás da casa, sentiu o momento em que nunca mais veria o seu sócio, Joaquim Matos Rolo. Quebrara-se o elo e a sociedade entre dois dedicados sócios inseparáveis durante tantos anos. Desta vez a voz de burro chegou ao céu. De forma nítida. Um zurrar pungente. De dor.
Eu e o meu primo João substituímos o "Sócio" ao puxar o armão com o caixão até ao cemitério. Os dois netos machos mais velhos fizeram o que lhes competia na última homenagem ao prezado avô Joaquim Matos Rolo. Levaram-no até à sua eterna morada. O "Sócio", esse companheiro de tantos anos, acabou os seus dias na paz e sossego na quinta da minha tia Emília, a filha mais velha do meu avô Joaquim Matos Rolo.
Aconteceu em Alcafozes, Beira Baixa, com o Ti Estroina e o "Sócio".


Não é o "Sócio" mas é parecido...

O "LEQUE" nos anos 60

  Já assisti, por várias vezes, gente mais nova de Alcafozes perorar sobre como seria o "Leque" em tempos que já lá vão. Há poucas...