No círculo da vida em Alcafozes, o primeiro trabalho do ano é a sementeira, pois sem ela não há sustento. Este mê de Outubro é duro, trabalha.se de dia e noite, sob vigilância apertada dos patrões na figura dos capatazes. A remuneração. se assim se lhe pode chamar, são 80 litros de trigo em grão, 10 litros de feijão, 3 litros de azeite e 400$00 em dinheiro. Isqueto num ano bom. Como não há tempo para descanso o trabalho não pára e de Novembro a Fevereiro trabalha-se afincadaemnte na apanha da azeitona, com pagamento à jorna. Ao dia, para os mais novos entenderem, Sem férias, que a vida não dá para isso, de Fevereiro a fins de Abrilé preciso levrar as terras pela primeira vez, a chamada decrua. No mês seguinte em Maio, após uma bervíssima pausa para as Festas do Espírito Santo, segue-se o período da ceifa, quando se apanha o quinto.
Todos os quinteiros vão receber as comédias, que consiste em 80 litros de trigo, um queijo, um litro de azeite e um litro de vinagre. Coisa pouca que com parcimónia sustenta uma família de homem, mulher e quase sempre mais de três gaiatos. A ceifa prolonga-se até ao fim de Junho d pode ir até meados de Julho de o quinto (terreno da propriedade) for mais extenso. Em Agosto, quando o calor inclemente aperta nos cabeços com pedrgulhos de granito a fazer ferver ainda mais o corpo e a alma é preciso debulhar à mão ou com máquina, consoante a quantidade da colheita. A fechar o ciclo, em Setembro, aliaviado por uns dias de festa em honra de Nossa Senhora do Loreto. os homens sáo contratados para fazer as moitas. Antes de Setembro regressam os "ratinhos" do Alentejo, onde foram fazer uma "comissão de serviço". Alguns sucumbem ao esforço e reanimam com um púcaro de água que os aguenta até ao tardão, quando chega o burro ou a mula para o jantar. A assada é distribuída pelos alguidares, de onde um punhado de homens e mulheres vão retirando a comida para a boca. Com o inclemente sol a pinto é hora (uma hora mesmo) de sesta. Ao pôr-do-sol merenda-se o gaspacho: pão, azeite e água. Não alimenta para compensar todo aquele esforço mas refresca.
Desde o tempo dos romanos, ou até antes, a arte de fazer louça era uma indústria mais ou menos rústica dos povos. Por ali, em Alcafozes, era também natural que isso acontecesse, embora até determinada altura, à excepçáo da oligarquia da aldeia, o padre, homens das artes, ferreiros, albardeiros, etc, e, claro, o senhor da terra, a Casa Franca, reunissem a família em redor de um alguidar e dali casa um que se servisso melhor que podia, sendo que a melhor e maior parte era concedida ao homem da casa. Se por lá em Alcafozes se fizesse uma louça muito rústica, sem valor comercial para vendar onde quer que fosse, houve quem apostasse em levar um carro puxado por burros por caminhos de pedras enterradas na lama ou no pó até Idanha-a-Nova, onde essa indústria estava uma pouco mais desenvolvida e de melhor qualidade. AInda conheci homens de Alcafozes que me contaram que chegavam à Idanha e saíam de lá com 500 peças de louça, que ia vender após uma longa caminha até à Covilhã e mais a norte, a Viseu e à Guarda, de onde, feito o negócio, traziam, além de dinheiro, obviamente, batatas e cabolas, especialmente estas. Eram os chmados "louceiros", que intervalavam as suas actividades agrícolas com este pequeno negócio particular que requeriam uma longa caminhada. A qualidade da louça foi-se refinando com o tempo e, aí pelos anos 50 e 60, a loiça era pintada com motivos muito bem desenhados, normalmente em azul, constituindo verdadeiras peças de arte, juntamente com canecos, tachos e tabuleiros.
O rigor do clima exigia que se aquecesse a lareira para aquecer casas ainda sem forro e com as telhas à vista do interior, por onde, frequentemente, voava um pardal para o ninho ou apenas para se abrigar das borrascas. Nas camas de ferro ou nas tarimbas de madeira não havia mantas que chegassem para aquecer o corpo gelado sob quilos de roupa. A lenha era colhida e armazenada antes das chuvas e trovoadas de meados de Setembro, quando o tempo mudava a partir da terceira semana. Surgiram nos anos 40 e 50, tempo de carências na sequência da Guerra Civil Espanhola, da II Guerra Mundial e da reconstruçáo de uma Europa destruída, os carvoeiros de Alcafozes. Não eram muito os que fizeram vida nessa actividade que pouco durou. Quando a Casa Franca andou a arrancar sobreiros e azinheiras perto do Rio Pônsul para se erigir a Barragem de Idanha-a-Nova, nomeadamente na Granla do Cabeço dos Mouros, aproveitou-se a oportunidade de fazer o carvão das raíses dessas árvores abatidas para dar lugar a uma construção de que poderia transformar a zona de sequeiro em terras de regadio, o que nunca chegou a acontcer por questões de interesses não coincidentes. As raízes de tamanho consderável eram arrancadas à força de picareta. Escolhia-se as , madeiras de espécies duras, que produzem um carvão de melhor qualidade. Os cortes deviam ser de pedaços de tamanho uniforme para se obter uma carbonização homogénea e depois da matéria vegetal estar ben seca. Tradicionalmente, a carbonização é realizada em fornos simples ou "carvões", que limitam o fluxo de oxigênio ou outros mais complexos como um forno de argila. A madeira é empilhada em forma de pirâmide ou cilindro, coberta com solo ou folhas para minimizar a entrada de ar.A madeira é aquecida a temperaturas entre 300 °C a 700 °C. O calor causa a decomposição térmica da madeira, liberando gases, vapor de água e compostos voláteis, e resultando, enfim, na formação de carvão. Após o término da carbonização, o carvão deve ser resfriado antes de ser exposto ao ar para evitar que se incendeie.
Feito o trabalho, os homens carregavam as suas carroças para irem vender o produto pelas terras em redor de Alcafozes. Trabalho sujo merecia uma lavagem num curso de águas mais próximo, aproveitando umas plantas como sabão, como as giestas, mas o aspecto não melhoravam por aí além. E daí chamarem-lhes os "pretos de Alcafozes" quandose aproximavam das terras para vender o produto do seu trabalho. Mascarrados, roupa escurecida pelos fumos, mãos ásperas e com o cheiro característicos das lenhas, os carvoeiros entravam depressa das povoações e siam rapidamente por motivos óbvios. Esta actividade. no entanto, despertou muitos movimentos contrários à sua execução devido à poluícão nos campos e terras e ao aumento consoderável de doenças respiratórias. Várias aldeias fizeram chegar protestos à comarca de Castelo Brancp, denunciado doenças provocadas pela feitura do carvão. Por estas e por outras, aquela tirada de "Alcafozes terra do pão e do carvão" está completamente errada. O carvão por ali se fez em 20 e poucos anos nos mais de 2000 anos de abundância de azeite e gado. O pão, por seu lado, era para consumo próprio e quem não o sabia fazer, embora os três ou quatro fornos fossem geridos por "especialistas" de aquecer e manter uma temperatura normal. "Alcafozes terra de azeite e gado" por mais de 2000 mil anos destrói a numenclatura de um brevíssimo período de carvão. E quanto ao pão estamos conversados...
A fazedura de carvão em Alcafozes causou reclamações

