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sábado, 1 de fevereiro de 2025

A "SENHORA DO AR" RECONHECIDA COMO PADROEIRA

 A 24 de Março de 1920, na festa do Arcanjo S. Gabriel – o mensageiro de Nazaré -, o Papa Bento XV, acedendo ao desejo do Clero, declarou a Santíssima Virgem do Loreto, Padroeira Universal da Aviação. Em 12 de Setembro desse mesmo ano, os aviadores reuniram-se em massa na Basílica de Loreto e fizeram, oficialmente, a consagração da sua Padroeira. No ano seguinte, a imagem foi destruída por um incêndio e, em 1922, o Papa Pio XII benzeu a nova imagem da Virgem do Loreto, não muito diferente da anterior. Em Portugal, os contactos com gentes de Itália realizavam-se desde a fundação da nacionalidade, inclusive o primeiro Rei de Portugal, D.Afonso Henriques, casou com D. Mafalda de Sabóia, e, ao longo dos séculos, as relações foram constantes. No século XV, mercê da decadência do comércio entre as repúblicas italianas e o Oriente, devido à presença muçulmana na Palestina, começam a surgir na Península Ibérica, nomeadamente em Portugal, comunidades de italianos, não só navegadores e especialistas na arte de marear, mas também comerciantes e outros. D. Dinis contratou o genovês Emanuele Pessagno para almirante em 1317, as famílias Perestrelo e Spínola de origem genovesa, assim como Cristóvão Colombo, e todos se estabeleceram em Portugal. Lisboa enche-se de ricos comerciantes e a comunidade dos italianos teve permissão real para construir, em 1518, o primeiro templo de invocação a Nossa Senhora do Loreto, templo esse totalmente reconstruído no século e, novamente, depois do Terramoto de 1755, tendo resistido as paredes-mestras e a sacristia. O culto foi-se espalhando por algumas povoações. 

Com o advento da aviação após a Primeira Guerra Mundial, e por acção do Clero e de aviadores sensibilizados com o milagre da «Casa Voadora», a 25 de Março de 1920, na festa do Arcanjo São Gabriel, o Papa Bento XV proclamou «A Santíssima Virgem do Loreto, Padroeira Universal da Aviação». A 12 de Setembro desse mesmo ano, os aviadores reuniram-se em missa na ano seguinte, a imagem foi destruída por um incêndio e, em 1922, o Papa Pio XII benzeu a nova imagem da Virgem do Loreto, não muito diferente da anterior, e ela foi acompanhada por aviadores no percurso entre a Capela Sistina e a Basílica de Loreto, onde chegou a 8 de Setembro. Foi no dia 14 de Agosto de 1926 que se iniciou oficialmente o culto a Nossa Senhora do Ar, como pradoreira da aviação em Portugal, com uma celebração eucarística na Capela da Granja do Marquês, onde a imagem foi colocada no trono do altar principal. 

A 19 de Dezembro de 1959, o Governo de Salazar, com especial recomendação de D. Manuel Gonçalves Cerejeira, Cardeal Patriarca de Lisboa e Ordinário Castrense, determinou que todas as capelas da Força Aérea de Portugal são dedicadas a Nossa Senhora, onde é venerada uma sua imagem que representa a sua gloriosa assunção. Os aviadores  chamam-lhe ‘Nossa Senhora do Ar e uma delegação desloca-se à Santa-Sé a rogar a graça da declaração de “Nossa Senhora do Ar” como Padroeira Nacional da Força Aérea Portuguesa.Quando a aviação comercial começa a despontar, a Força Aérea está a evoluir e há um grupo de alcafozenses – do qual se destacou, pelo seu dinamismo, o Sr. Joaquim Marques – que depois de muitas démarches consegue não só obter terreno em volta da capela, para ser realizada uma procissão campal com o apoio do p.ároco António Costa, como, e mais importante, que a cerimónia religiosa campal fosse sobrevoada por aviões da Força Aérea. Importa destacar o papel do então comandante da Base Aérea de Alverca, coronel Mira Delgado e o do tenente-coronel Kaulza de Arriaga, subsecretário de Estado da Aeronáutica que, em 1959, inaugurou os melhoramentos do altar-mor juntamente com o general Carlos Costa Macedo. Autoriza-se que em 1957 a procissão seja sobrevoada por diversos aviões da Força Aérea. 



quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

A CASA DA SAGRADA FAMÍLIA DA VIRGEM DE LORETO

 Antes de chegar a Alcafozes, a imagem de Nossa Senhora do Loreto passou por Lisboa. Há duas hipóteses de a aldeia da Beira Baixa  ver no seu território a santa que não foi santas, mas antes a Casa da Sagrada Família. Ou partiu da capital numa época em que havia muitos "italianos" (a Itália só se unificou no século IXX) ou entrou pela fronteira de Espanha, já que a aldeia de Alcafozes se encontra apenas a uns poucos quilómetros dos nossos vizinhos. É possível que um tal Capello, de origem "italiana" tenha sido o autor dessa veneração à Virgem da Casa Voadora, uma vez que há registos dessa família em Alcafozes desde o século XVII, onde desempenharam cargos de importância laica e religiosa. 
Por essa altura, o orago de Alcafozes era São Sebastião. Este santo era um soldado do exército romano por volta de 283 D.C. com a única intenção de afirmar o coração dos cristãos, enfraquecido diante das torturas. Era querido dos imperadores Diocleciano e Maximiano, que o queriam sempre próximo, ignorando tratar-se de um cristão. Designaram-no capitão da sua guarda pessoal, a Guarda Pretoriana. Por volta de 286, a sua conduta branda para com os prisioneiros cristãos levou o imperador a julgá-lo sumariamente como traidor, tendo ordenado a sua execução por meio de flechas, que se tornaram o símbolo da sua iconografia. . Foi dado como morto e atirado para um rio. Mas Sebastião não falecera.
Encontrado e socorrido por Irene, depois Santa Irene,
 apresentou-se novamente diante de Diocleciano, que ordenou então que ele fosse espancado até a morte. O seu corpo foi atirado para o esgoto público de Roma e e Luciana, mais tarde Santa Luciana, cujo dia é comemorado a 30 de Junho, resgatou o seu corpo, limpou-o, e sepultou-o nas catacumbas. 

Alcafofozes do século XVII era também devoto ao Espírito Santo e a Santo António quando comeou, não se sabe como,a devoção a Nossa Senhora do Loreto. Antes disso, em Lisboa, A igreja, também chamada Igreja dos Italianos foi elevada por D. João V em 1518 para acolher os muitos italianos, principalmente venezianos e genoveses, comerciantes em Lisboa. A igreja depende directamente da Santa Sé e é sufragânea da arquibasílica de São João de Latrão. Voltando aos Capello e a Alcafozes, uma das referências mais substantivas é a de um tal Agostinho Capello, um juiz-desembargador no Rio de Janeiro, que esteve ligado à expulsão dos jesuítas do Brasil e quando regressou a Portugal integrou a Ordem de Cristo, tendo falecido em Alcafozes em 1767, sendo sepultado na igreja de São Sebastião. 
A Capela de Nossa Senhora do Loreto foi construída, segundo algumas fontes, em 1775, muito antes da família Capello se miscegenar com outras famílias poderosas da região, como os Franco Frazão, da Capinha, os Marrocos, de Idanha-a-Velha e os Manzarra, de Idanha-a-Nova. Por essa altura, no entanto, já se realizavam festas em honra de Nossa Senhora do Loreto, existindo duas datas espaçadas no tempo, para este evento, 1828 e 1888. É muito possível que ambas estejam certas, diferenciando-se apenas pelo modo como eram feitas e organizadas pelo povo. 
O culto por Nossa Senhora do Loreto foi evoluindo para patamares mais marianos e ao mesmo tempo mais profanos e festivos para o povo, deixando, a pouco e pouco, esmorecer as festas em honra do Espírito Santo e do Santo António. A Casa da Sagrada Família, representada pela Virgem de Loreto, expandiria a sua devoção e peregrinação, ao ponto de se sagrar como a data mais importante da aldeia de Alcafozes.


Pintura de Tosaco da Capela da Senhora do Loreto


terça-feira, 28 de janeiro de 2025

A MISÉRIA DEPOIS DAS INVASÕES

 Alguns bispados, como o de Coimbra, mandou logo após aviso Régio de 25 de Março de 1811, ainda os Franceses estavam na região da Guarda, fazer o levantamento do rasto da destruição que os Franceses deixaram atrás de si. Sucederam-se as epidemias, a fome e os assassínios, acompanhando as vagas de órfãos e de desalojados. Quando regressavam às casas, as populações viam a destruição e os campos incultos, sem sementes sequer para renovar as culturas. Os párocos não incluem os mortos em combate do exército regular, nem da guerrilha e muito menos dos Franceses. Só registam os civis das suas paróquias, acometidos pelos Invasores. Nem sempre referem todos os mortos que sofreram maus tratos, ou mortos causados pela epidemia. Há um número do Bispado de Coimbra, que nos dá uma ideia fria do sucedido: na Figueira da Foz, onde não houve crimes porque os Invasores não passaram pela cidade, morreram 4.135 indivíduos por doença, entre naturais e refugiados.

Não se sabe ao certo quantos óbitos causaram as forças francesas na população de Alcafozes. Na altura da I Invasão, a aldeia tinha cerca de 700 habitantes e estava em franco progresso depois das pestes e da Guerra dos Sete Anos. Mas com os saques do esfomeado exército de Junot, primeiro em 1807, e de Massena, em 1810, muitos aldeões deixaram Alcafozes e pela calada da noite refugiaram-se em Idanha-a-Velha, por esses tempos uma povoação em declínio e sem nada que pudesse alimentar as esfomeadas tropas naoleónicas após uma terrível e esgotante passagem por Espanha. É curioso, no entanto, que no intervalo que mediou entre a I e a III Invasão haja registo de um casamento em Alcafozes, de Joáo Esteves Barbado com Remedia, ambos naturais da terra, no dia 1 de Novembro de 1808. Por essa altura os combates desenrolavam-se no Norte do país e essa pequena trégua permitiu uma ligeira retoma na vida normal aos seus habitantes. 

No entanto, as carências eram demasiado severas em Alcafozes na sequência dos saques. O gado foi quase totalmente roubado pelos exércitos napoleónicos e até os grãos faltavam para as sementeiras porque os soldados necessitavam deles para fazer o seu próprio pão. Os bens sacros da Igreja de São Sebastião foram levados, assim como os das capelas da Misericórdia e do Espírito Santo, enquanto a capela de Santo António foi incendiada pelo tropa francesa em retirada, depois de um confronto com os cavalaieros portugueses do Regimento de Cavalaria 1 e das milícias que se formavam por todas as povoações, sedentas de sangue e de vingança. Esta crise social era agravada, como se fosse possível ser ainda pior, pela táctica da "terra queimada" imposta pelos exércitos ingleses e portugueses para os inimigos franceses não poderem encontrar qualquer espécie de comida. Caso para dizer que uma desgraça nunca vem só.

Em 1813, afastada a ameaça da Guerra Peninsular para território espanhol. o padre João António Tavares, vigário da Igreja de São Sebastião começa a colher o dinheiro da côngrua, a dádiva essencial para manter a paróquia, em 6 de Setembro deste mesmo ano. Mas o que recolher depois de tanta miséria se ter abatido sobre uma aldeia com fome, ainda assustada, pilhada, com casas em ruínas, salvando-se aquelas em que os soldados se aboletavam. Os naturais da aldeia regressavam a pouco e pouco dos seus esconderijos inalcancáveis pelo d inimigo externo e deitavam mão à recuperação de Alcafozes, onde a esperança de vida, com tanto infortúnio, não atingia os 40 anos e muitas mulheres morriam ao dar à luz e metade das crianças não atingirem os 5 anos de idade. O socorro dos vizinhos de Medelim, Zebreira, Rosmaninhal e outros lugares não se podiam contar com ele porque também essas poviações se encontravam devastadas. 
Era preciso recomeçar uma nova existência... 


Reprodução da autoria de Tosaco do incêndico da Capela de Santo António

sábado, 25 de janeiro de 2025

EM BUSCA DA BATALHA DE ALCAFOZES

Era um final de tarde fria de Inverno e a instrução da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, tinha sido dura no célebre terreno de lama que era a "terraplanagem". Corriam os anos 70 iniciais do século passado. Juntamente com uns vinte e tal camaradas (na tropa era assim a designação de companheirismo) do1º Esquadrão de Instrução tínhamos recebido a notícia de que integraríamos a especialidade numa das forças especiais e, como tal, formávamos e treinávamos à parte. Era verdade. Após as festas de Natal e do Ano Novo, recebi a guia de marcha para os "Rangers", em Lamego, das mãos do tenente Santos Silva.
No entanto, voltando à tal tarde de Inverno na para Chaimite da EPC, fui olhando, enquanto fumava um cigarro, para os painéis que assinalavam as datas e os locais dos combates travados por aquela unidade. Qual não foi o meu espanto ao descobrir, como todas as letras, a palavra Alcafozes. Ou era uma coincidência descomunal ou tratava-se da aldeia da minha família materna, conhecida na terra pela gente do Ti Estroina, o meu avô, e meu inspirador na arte de ser Homem. Ele bem me tinha contado os seus momentos de tropa em cenários rocambolescos, especialmente em Lisboa, quando foi assassinado o presidente Sidónio Pais, em 1919, na gare da estação do Rossio, e do caos que se espalhou pelo país, quando avançou pela Calçada do Carmo, com os cavalos do Regimento de Lanceiros 2 a escorregarem no íngreme empedrado para impor a ordem à espadeirada após a morte presidencial.
A vida dá muitas voltas, o serviço militar apanhou-me no olho do furacão da História de Portugal, antes e pós-PREC, circulei por dez unidades e, nesse tempo, na única vez em que estive para ir até Alcafozes e ao casamento da minha prima Luísa em Penha Garcia, um avião Noratlas, da Força Aérea Portuguesa, explodiu ao sair da Base de Tancos, morreram uma dezena de oficiais, em Setembro de 1975, e o meu Batalhão de Caçadores 4513 entrou de prevenção e já não pude seguir para a Beira Baixa.
Os anos passaram, a minha vida profissional ocupava-me o tempo por inteiro, passava boa parte dele a viajar por Portugal e para fora e Alcafozes foi caindo no esquecimento físico, não mental, até que, no final da minha carreira de jornalista, dediquei-me, entre outras actividades a escrever livros, um deles com referências às invasões francesas e à Beira Baixa, em especial, e Alcafozes, em particular.
Como, apesar de tudo, nunca esqueço a "terra", mandei, através do meu pai, 50 exemplares do livro "Amantes da Lua Negra" para ser sorteados nas rifas da quermesse das festas de Nossa Senhora do Loreto.
A partir de 2021 dediquei-me a investigar o caso da Batalha de Alcafozes. Não sou historiador, mas as minhas dezenas de anos como jornalistas apuraram-me o faro e deram-me a teimosia para chegar onde pretendo. A tarefa não estava a ser nada fácil. Fiz dezenas de contactos para câmaras municipais, juntas de freguesia, instituições militares, arquivos e nada sobre a Batalha de Alcafozes. Nem uma letrinha sequer. Sabendo que os portugueses nunca foram muito dados à escrita, era tadição nas tropas desse tempo, e mesmo antes, só o sargento de uma companhia ter o dom de ler e escrever, passei para a internet francesas, onde, após muitas horas, dias, semanas, meses, encontrei a palavra Alcafozes nas Guerras Napoleónicas. Era o segundo fio da meada, depois daquele na EPC. Dos sites franceses migrei para os ingleses. Mais horas, dias e uma infinidade de meses de buscas. Aportei, por fim, ao Regimento de Cavalaria 1, formado em Alcântara, em 1808. 




Alcafozes nas Invasões Francesas

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

O PROGRESSO DE ALCAFOZES e o FUTURO SOMBRIO

 Após o terramoto de 1755, que destruiu grande parte de Lisboa e fez estragos de monta no Algarve, a região da Beira Baixa, como em praticamente todo o pais e outras cidades da Europa, náo foi muito afectada pela tragédia que mudou a relação do modo de viver com a natureza do povo com a religião. 
Alcafozes não seria, por isso mesmo, grandemente afectada pelo desastre sísmico, como, aliás, a zona do interior beirão. O documento mais importante  referente à aldeia é o inquérito que o Marquês de Pombal manda fazer a todas as paróquias do reino, ao qual, no caso de Alcafozes, o Vigário Vicente, da Ordem de Cristo, responde, em 1759, que Alcafozes possuía 115 fogos e 354 habitantes e que era termo da vila de Idanha-a-Velha, outrora cidade romana e visigótica. O vigário descreve a igreja como sendo a actual iggreja matriz e em que terão existido intervenções que demoraram anos até à sua configuração definitiva, entre 1796 e 1801 O seu orago é São Sebastião e pertencia ao bispado da Guarda, depois deste sair de Idanha-a-Velha. Por essa altura erguia-se a parte urbanística da urbanização do morro de São Marcos, embora coexistindo com palheiros, e a capela do Espírito Santo, datada de 1594, um ano depois da funcaçáo da Irmandade da Misericórdia de  Alcafozes. As primeiras festas mais ou menos oficiais dedicadas ao Espírito Santo datam de 1713. depois da Quaresma e da Páscoa.Os festejos na Capela de Santo António teriam surgidi antes, mas sem data definida, e a Nossa Senhora do Loreto inaugurou a sua capela em 1775 e o início dos festejos anuais, no final do Verão, em 1828. . Curiosamente, as capelas situavam- -se em locais estratégicos: a do Espírito Santo, na saída da aldeia para Idanha-a-Velha; a de Santo António, no sentido do Santuário de Nossa Senhora do Almortão e portanto de Idanha-a-Nova; e a do Loreto na direcção da Granja de São Pedro, que fora outrora local de peregrinação, 

A justiça, apesar do controlo dos latifundiários, rendeiros e capatazes era aplicada por um juiz de fora que residia três meses em Alcafozes, três meses em Idanha- -a-Nova e três meses em Proença-a-Velha. Surgem em documentos ofiiciais o nome de  Agostinho Felis dos Santos Capelo, juiz desembargador no Rio de Janeiro. Agostinho Capelo, cuja família era abastada e lhe permitiu tirar o curso de Direito em Coimbra, foi juiz em várias comarcas, nomeadamente no Porto e em Salvador, no Brasil. O Marquês de Pombal incumbiu-o, juntamente com outros, de fundar no Rio de Janeiro o primeiro Tribunal da Relação do Brasil. Agostinho Capelo esteve ligado à expulsão dos jesuítas do Brasil, assim como ao arresto dos seus bens; casou no Brasil, regressou a Portugal e integrou a Ordem de Cristo, tendo falecido em Alcafozes em 1767 e sido sepultado na igreja. Agostinho Capelo é apenas um exemplo desta família abastada com várias outras personagens Capelo que são formados em Direito ou têm cargos militares ou religiosos que se miscegenaram com outras famílias poderosas de Alcafozes e povoaçóes em redor, vindo alguns dos novos habitante da vizinha Espanha. 
Mas dias sombrios de aproximavam... 


Igreja Matriz de São Sebastião.
 



quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

GUERRA DOS SETE ANOS em ALCAFOZES 17 DE AGOSTO 1762

 A 17 de Agosto de 1672, a Beira Baixa encontrava-se a ferro e fogo devido à segunda tentativa dos espanhóis invadirem Portugal no decorrer da Guerra dos Sete Anos. Nesta data, o exército inimigo em retirarada depois de ocupar Castelo Branco, viu-se atacado na zona de Alcafozes, tanto pela tropa portuguesa, como pelos aldeões que se organizaram em pequenos grupos paa atacar em forma de guerrilha as formações do invasor. Travaram-se recontros sangrentos e sem piedade e os alcafozenses, como os nativos de outras aldeias da regiáo, queimavam os plantações e  searas para não satisfarem a fome de que sofria o inimigo. Nesta segunda invasão espanhola durante a Guerra dos Sete Anos, as urbes de Almeida, Castelo Bom e Castelo Branco foram perdidas pelos portugueses. 

Em resposta, formou-se um exército anglo-português, com cerca 14 a 15 000 homens, sob o comando do Conde de Lippe, que se posicionou para defender Lisboa nas colinas a nordeste de Abrantes, onde foram construídas várias obras de defesa. O exército aliado e camponeses da Beira Baixa puseram em prática uma muito eficaz táctica de terra queimada e foram levadas a cabo ações de guerrilha na retaguarda dos invasores, que viram a sua linha de comunicações com Espanha praticamente cortada.O conde de Lippe, apercebendo-se da situação desesperada do inimigo, completou-a com um movimento audacioso que decidiu a guerra: enviou uma força de soldados portugueses comandada por George Townshend deslocar-se num movimento de cerco em direção à retaguarda do diminuto e desmoralizado exército Espanhol. Este retirou logo para mais perto da fronteira, especialmente para a cidade de Castelo Branco. 

Os invasores foram assim derrotados e perseguidos até Espanha, sofrendo perdas terríveis, cerca de 25 000 homens, provocadas quer pelas tropas regulares quer pelos camponeses, fome, deserção e doenças. O quartel-general franco-espanhol em Castelo  Branco, cheio de feridos e doentes abandonados durante a fuga do exército espanhol, foi conquistado, bem como todas as praças anteriormente ocupadas pelos pelos apoiantes da casa real de Bourbon, com as únicas excepções de Chaves e Almeida. Alcafozes, como outras terras da zona, demoraram anos a recuperar da destruição desta campanha militar. 


A Guerra dos Sete Anos devastou a Europa e a América e passou por Alcafozes

domingo, 19 de janeiro de 2025

AS FESTAS DO ESPÍRITO SANTO PARA DESANUVIAR DO DIA-A-DIA

 Após um declínio de vários séculos, especialmente após a invasão muçulmana, Idanha-a-Velha foi integrada na freguesia de Alcafozes, irmandade que durou até ao ano de 1932, por iniciativa de António Pádua e Silva Leitão Marroco. Desde há muitos anos, séculos XVII e XVIII que as famílias Franco, Manzarra e Marrocos se instalaram na zona de Alcafozes, Idanha-a-Nova e Idanha-a-Velha e muitas outras terras limítrofes. Senhores de uma pseudo nobreza de privilégios os casamnetos entre os seus membros originou que preticamente a totalidade daquela vasta área ficasse sob o seu domínio. 
A invasão franco-espanhola desta zona da Beira na sequência da Guerra dos Sete Anos mobilizou uns quantos homens de Alcafozes para o Terço de Infantaria Auxiliar de Castelo Branco e o desenvolvimento que vinha conhecendo a aldeia estagnou durante uns tempos até a paz restabelecer de novo a actividades de artesões, camponenses e agricultores.  

Alcafozes na "concha" que acaba por ser o seu ex-líbris

A aristocracia daqueles vastos domínios da Beira Baixa viu entrar no seu seio uma filha de Alcafozes, D. Joana Lopes Leitão, em Alcafozes, no dia 24 de Abril de 1758, na recém-construída Igraja de São Sebastiao, com Manuel Fernandes Ferreira, natural de Medelim, que deram à luz um rapaz.
Por esta altura a relativa evolução de Alcafozes, desde que os seus limites deixaram de ser a Rua Velha e o Cruzeiro de 1631, ao lado da igreja de Sâo Sebastião desde a sua construção, baseava-se na agricultura controlada pelos rendeiros dos comendadores Marrocos, Manzarra e Franco, no azeite e os cereais, nomeadamente o trigo começara, a adquirir uma razoável dimensão, com os arados já mais eficazes pela perícia dos ferreiros. a feitura de cadeira, arcas e cantoneiras rústicas e as inevitáveis carroças para transportes de todo o tipo de carga, desde palha para aforrar até pedra para construção. Os cortejos fúnebres eram na sua maioria acompanhados pela Irmandade da Misericóridia, cuja existencia ascendia a uns anos antes da construção da capela, em 1594, no Monte de São Marcos. As festas mais populares da aldeia eram dedicadas ao Espírito Santo e há relatos que se realizaram com efectiva exuberancia desde 1713, com cerimónias religiosas e diversões mais profanas, como as largadas de touros ou vacas, cedidos pelos senhores da terra, e corridas à "vara larga". Por umas horas, um dia ou dois o povo esquecia as agruras do dia-a-dia. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

OS NOVOS "SENHORES" DE ALCAFOZES

 O país e, consequentemente, Alcafozes passaram por uma metamorfose social e política com a secularização da Ordem de Cristo pela bula do Papa Julio III. Os terrenos, até então às ordens religiosas passaram para a coroa portuguesa com o rei D. João III. Até então, a população prestava contas e ofertava alimentos e gado ao Mestre da Ordem à qual estavam ligados territorialmente. Depois desta reforma, a terra passou para a administração de comendadores que as alugavam a rendeiros, os quais rapidamente amealhavam consideravam proventos de monta.  
Com esta modificação estrutural o modo de vida dos aldeões transformou-se com os novos senhores mais exigentes na exploração das propriedades. O século XVI viu, assim, uma nova espécie de feudalismo de face caridosa, em que os donos e senhores das terras toleravam os habitantes sob sua jurisdição como mão-de-obra para sustentar as "casas senhoriais".

A caridade em Portugal no século XVI no panorama europeu demonstrava uma especificidade muito própria. A acção régia na normalização das instituições de caridade nos seus territórios fez evoluir os hospitais, independente da escalada das Misericórdias em termos numéricos e funcionais. Assim, a caridade de cariz  meramente pessoal e as misericórdias  fundem-se  a partir do Conselho de Trento, que se possibilita a convergência de dois processos evolutivos inicialmente autónomos.  Essa cultura retirava das obras de misericórdia o termo caridade e baseava-se na apologia da esmola entendida como uma forma de libertar a alma da sua prisão.

Grande parte da população medieva vivia no limiar da pobreza. Bastava um mau ano agrícola, a passagem de um grupo armado destruindo culturas, roubando gados, aprisionando homens, uma qualquer epidemia e logo engrossava o rol dos pobres e carenciados. A Idade Média foi, também, por toda a cristandade, uma época de intensa caridade, baseada e impulsionada pelos preceitos evangélicos. Movimento caritativo e assistencial, estimulado pelo ideal de caridade e pobreza, aliado à sentida necessidade de garantir a salvação e enfrentar o dia do Juízo. No território que hoje é Portugal, especialmente nas zonas de maior densidade demográfica, mosteiros, igrejas, grandes senhores e particulares, fundaram diversas instituições para albergar e cuidar de pobres, enfermos, crianças abandonadas, viajantes e peregrinos. O movimento caritativo e assistencial acompanhou os primeiros povoadores da Beira Interior. Enquanto arroteavam campos, construíam casas e igrejas, estes fundaram e organizaram algumas instituições de caridade e assistência de que os documentos nos dão um pálido eco.
Na região em redor de Alcafozes chegaram famílias que se assenhorearam de vastos terrenos. Os Capello, os Franco Frazão (oriundos da Capinha), os Marrocos (estabelecidos em Idanha-a-Velha) e os Manzarra (assentados em Idanha-a-Nova). A grande maioria das gentes de Idanha-a-Velha e de Alcafozes laboravam para os Marrocos, cujos marcos indentificadores das propriedades ainda se podem ver em alguns locais. A estas alterações da intervenção na vida da aldeia, não deixa de ser curioso que o período de mais desenvolvimento urbano de Alcafozes tenha coincidido com a união de Portugal e Espanha sob a mesma coroa de Filipe III, entre 1580 e 1640. 


Casa senhorial em Alcafozes


quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

ALCAFOZES INCENDIADA EM 1644

 A coroa portuguesa e castelhana estiveram unidas desde 1580 até 1640. Durante esse período a paz e a tranquilidade reinaram na fronteira entre os dois estados. Formalmente a designação é esta porque não houve propriamente uma anexação mas sim dois reinos governados pelo mesmo monarca, Filipe II de Espanha, I de Portugal. Na região das Beiras e da Zarza la Mayor o clima de segurança foi abalado pela Restauração de Portugal, em 1 de Dezembro de 1640. A partir desta data, os dois países começaram a reforçar as suas fronteiras e iniciar-se-ia a Guerra da Restauração, que culminaria com o Tratado de Lisboa, assinado em 1668 pelos reis Afonso VI de Portugal e Carlos II de Espanha. Durante este período houve guerra, saques e muitas mortes na região do que é hoje a Beira Baixa. O início dos conflitos começou com aquilo que se poderá considerar um exército privado, o da Companhia da Zarza la Mayor, financiado por gente de posses da Extremadura espanhola e grupos de assaltantes apoiado também pelas autoridades locais. O mais famoso, Pilante Celanes Castellano entrou pelo Rio Erges, passou os picos agrestes da Serra da Gata e saqueou Penha Garcia e arreadores. Apesar de haver uma instauração de fronteiras com práticas mais ou menos aduaneiras, contrabandistas de ambos os lados foram os desestabilizadores iniciais da linha divisória entre as duas nação, até que os exércitos se organizassem para se enfrentarem. Depois desses incidentes iniciais chegaram três companhias espanholas a Zarza la Mayor. Porém, rapidamente os seus soldados se tornaram saqueadores, não só para roubarem bens, mas também para levar animais para se alimentarem.

A tropa portuguesa, comandada pelo general Fernão Teles de Meneses chegou à zona fronteiriça para controlar uma situação dramática para os povos das aldeias. Também numa acção de surpresa, o comandante das nossas tropas, com um exército de 2550 homens de infantaria e 800 de cavalaria entrou na Zarza e fez 230 vítimas entre os espanhóis, que ainda viram explodir a torre da igreja onde guardavam a pólvora numa atalaia encostada a ela.
A vingança espanhola aconteceu na Beira (agora) Baixa pela força militarizada da Compañia de Montados de la Zarza, composta por 130 cavaleiros. As suas ordens eram claras e incisivas: matar, saquear e incendiar toda a zona portuguesa que pudessem. Era a vingança da derrota em Espanha.
A aldeia de Alcafozes foi incendiada, depois de se apoderarem dos haveres e dos rebanhos. A igreja de São Sebastião incendiada. O mesmo aconteceu nas povoações mais próximas. Zebreira, Penha Garcia, Monsanto, Penamacor, Idanha-a-Nova e Rosmaninhal, entre outras, tiveram o mesmo fim. Fogo e devastação. Os portugueses ripostaram e 700 soldados abateram 17 milícias da Zarza. Os confrontos sucediam-se diariamente.
Os habitantes da comarca de Castelo Branco enviaram uma missiva ao rei João IV, comunicando-lhe que já lhe havia sido roubados 60 mil ovelhas e cabras, 8 mil vacas, burros, mulas e cavalos, 800 pessoas tinham morrido de fome, além de homens e mulheres feitos prisioneiros. O povo reclamava por vingança.
Assim aconteceu, em 23 de Março de 1650, em Ventas del Caballo, uma companhia de soldados portugueses massacrou mais de uma centena de militares espanhóis, recebendo ordens para lhes cortar as orelhas.
A igreja de São Sebastião, em Alcafozes, depois dos danos sofridos, recomeçou os registos de nascimento, casamento, baptizados e óbitos, em 1694, pelo vigário Gregório. A aldeia, entretanto, foi praticamente reconstruída dos incêndios provocados pelas milícias de Zarza la Mayor. Até chegarem os franceses...

Bandos de salteadores da Companhia de La Zarza

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

CRUZEIRO - A FONTEIRA DE ALCAFOZES EM 1631

  A saída da maiorida dos habitantes da decadente Idanha-a-Velha e a sua migração para a nova Idanha nos altos rochedos perto do Ponsul deixaram Alcafozes isolada num buraco cavado pela natureza entre os vários cabeços que dominam a paisagem, onde sobressaem as oliveiras e umas azinheheiras e umas minúsculas seaaras que asseguram uma subsistència pobre a gente dedicada, como sempre, ao gado, nomeadamente aos numerosos rebanhos de ovelhas e cabras, mais uns quantos suínos que vagueavam em buca do seu alimento favorito, a bolota. A vida, como já referi, era rústica e pautada pelas ordens das natureza, as sementeiras, as colheitas, as horas de iniciar a jorna ou o tempo de cear. A maioria das casas, embora com alguns palheiros erigidos a seguir ao Monte de São Marcos, onde nasceria a Misericórdia em 1740, eram partilhadas por pessoas e animais. A chamada "loja" no rés-do-chão para os burros e outra bicharada doméstica e ao lado ou no andar de cima a zona familiar, reunidada normalmente em redor de uma lareira onde cozinhavam, tomavam a ceia da noite e trocavam umas palavras acerca da numerosa prole, dos animais e haveres e umas novidades sobre a ti Fulana ou o ti Beltrano. 

As riquezas dos Descobrimentos e a união forçada com a Espanha, desde 1580, trouxeram algumas melhorias ao "modus vivendi" dos aldeões, embora nada comparável aos progressos das cidades principais do litoral ou das mais importantes do interior do país. Uma maior desaceleração da pobreza medieval proporcionou o crescimento de Alcafozes, desde a Rua Velha até ao limite do povoado, que se situava prescisamnte no cruzeiro de 1631. 
Embora continue sem dados específicos sobre alguma igreja ou capela nos séculos XVI e XVII, assim como de uma taberna, como lugar de convívio, sabe.se que o Vigário Gregório ia de Idanha-a.Velha a Alcafozes tratar das almas, mas não se sabe propriamente onde. Aliás, o referido Vigário estava dependente da Igreja de Idanha-a-Velha, então já absorvida pelo bispado da Guarda. No entanto, na história oral dos mais velhos de Alcafozes, ouvi, muitas vezes, há mais de 50 anos, que as tradições de festas, romarias, procissões e "corridas de touros" se perdiam na memória dos tempos. Portanto, algo teve de existir na "terra" muito antes das datas oficiais estarem registadas nos compèndios oficisais, 
Desconhece-se se além da Ordem de Cristo e, posteriormente, com a seculorização das zona houve por ali senhores que imposessem um regime orpressivo aos nativos de Alcafozes, embora quer a Rodem de Cristo quer a Coroa cobrassem os seus impostos. 
Anos após o foral concedido por D. Manuel a Alcafozes, em 1510, instalaram-se na zona alguns marinheiros "reformados" sobreviventes das campanhas das Descobertas [uma grande percentagem das tripulações eram beirões por serem homens de rija cepa] e, fosse qual fosse a ordem, começaram a instalar-se na zona uma família de origem italiana, os Capello, a família Franco Frazáo na Capinha, a família Marrocos em Idanha-a-Velha e a família Manzarra em Idanha-a-Nova, além de outras fora de uma vasta zona de Alcafozes. E aí outros tempos vieram, talvez mais repressivos por um lado e mais lucrativos e menos miseráveis por outro. Veremos.
  


Cruzeiro, o limite da aldeia em 1631, aqui com o madeiro de Natal a arder

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

O DIA A DIA MEDIEVAL SEM MISERICÓRDIA

Apesar de ter encontrado um documento oficial relativo a Idanha-a-Velha e Alcafozes datado de 1496, exsite um hiato de deois séculos entre a retoma de dados sobre a terra. Sendo o povoafo de mais ou menos 100 fogos e talvez 600 habitantes, não é crível que não tenha havido um único templo antes de 1740, quando foi erigida a Igreja de São Sebastião, o orago do povoamento, e a Capaela da Misericórdia. A História não o regista. Também a fundação da Misericórdia de Alcafozes não deixa de ser estranha pelo seu atraso em relação a outras de zonas próximas. Monsanto (1500), Proença-a-Velha (1500), Proença-a-Nova (1513), Castelo Branco (1514), Fundão (1516), Sertã (1530), Covilhã (1577), Ladoeiro (1581),  Vila de Rei (1581), Alpedrinha (1588), Álvaro (1597), São Vicente da Beira (1577), Oleiros (1578), Salvaterra do Extremo (1586), Sarzedas (1590), outras nos anos de 1600 e Alcafozes apenas em 1741. Já o cruzeiro nas imediações do adro da Igreja de São Sebastião foi plantada ali ainda antes, em 1631, época em que a coroa espanhola e portuguesas estavam unidas sob a coroa de Filipe III de Espanha. Não se entende que sendo o povo de então profundamente católico e veberando solenemente a Páscoa, mais do que o Natal, tenham surgido tão tarde as casas de Deus na aldeia. 
Uma das razões para este espaço espiritual parece à primeira vista em branco poderá ter a ver com uma segunda vaga virulenta de Peste Negra, por volta de 1500, que, mais uma vez se espanhou ela Europa, deixando um rasto de morte pelas cidades, vilas e aldeias, nomeadamente nos aglomerados mais numerosos e compactos. Em Paris, só para se ter uma ideia da tragédia, pereceram 60 mil almas. Mas Lisboa, e consequentemente Portugal, também viram uma percentagem de cerca de 1/4 da população atingida com elevado grau de mortalidade pela Peste Negra, Na capital portuguesa morreram 600 pessoas por dia e calcula-se que até ao seu final a espidemia deixou sem vida 60 mil pessoas. 
A Peste Negra terá feito as suas vítimas em Alcafozes, muitos sobreviventes terão ido para outros ares e daí este período de relativa estagnação no desenvolvimento da aldeia. No entanto, constinuo à procura de alguma casa santa que tivesse existido por esses anos em Alcafozes, a não ser que o povo rumasse em oração a Idanha-a.Velha, o que não é muito viável pela decadència da outrora grande cidade romana e visigótica, onde ainda se via imponente a catedral do Rei Wamba, o senhor da Beira Baixa. 

A alimentação em Alcafozes, na Idade Média, era pobre, aliás como em todo o país, excepto nos palácios nobres ou senhoriais, o que não era o caso desta terra. A média de vida era metdade da que hoje se verifica e aos 40 anos um homem era considerado velho. As exepções eram muito raras. As refeições eram rudimentares e perderam-se as receitas romanas requintadas, mesmo para a classe popular, obviamente sem banqueres de arromba. Pão, azeitonas, queijo, açordas ou migas, umas folhas de couve ba sopa, grão ou feijão com alguma gordura e umas lascas de queijo ou ovos da galinhas eram o "pão nosso de cada dia". O vinho não podia faltar aos homens e a miudagem contentava-se com uma malgas de leite de cabra com bocados de pão. Obviamente que nas casas da classe alta e nobre não faltava caça, corsos e faisões, mais o trivial, vaca, porco, carneiro, cabrito, galinhas patos, gansos, pombos, rolas e coelhos. Outras iguarias como as batatas, açúcar, especiarias, batatas e outras só chegariam após os Descobrimentos. Até lá, as bolotas alimentavam tanto os suinos como a populaçáo. 

Antes do raiar do sol inicivam-se os trabalhos agrícolas ou dos artesãos e também as lidas da casa. Pão e um raspa de queijo e um punhado de azeitonas e vinho para o almoço às 11horas, depois a merenda por volta das 16 horas e a ceia à noite, Sendo que a dormida não era contínua. Com a noite cerrada às 17 ou às 21 horas, consoante a estação do ano, o primeiro sono era dormido até por volta da meia-.noite, quando as mulheres faziam as limpezas do dia e os homens preparavam os seus parcos instrumentos de trabalho para a próxima jorna. Depois deitavam-se de novo e antes de raiar a aurora, ao cantar do galo estavam prontos para a sua rústica existência. E ainda havia que tratar dos animais. Um mata-bicho para um homem revilatizar para um dia de trabalho era um "shot" de aguardente que foi substituída nos dias de foje pela "bica", 
Os dias, os meses e os anos rolaavam nesta rotina em Alcafozes e em milhares de outras aldeias. Falta-me saber onde se reuniam os fiéis nos dias santos e as tabernas para as tardes dos dias santos...

Uma representação de uma procissão medieval 

domingo, 12 de janeiro de 2025

O cobrador de sisas de Idanha-a-velha e Alcafozes

O primeiro documento que encontrei sobre Alcafozes destrói pela base a versão oficial de que a aldeia foi fundada por muçulmanos, após 711. Existe, datado de 19 de Maio de 1496 uma ordem para João Miguel, morador em Alcafozes, termo da vila de Idanha-a-Velha, nomeado escrivão do efeito da sisas
da cidade de Idanha-a-Velha e seu termo (Alcafozes) tal como ele até aqui foi por odem de D. Joáo II. 
Alcafozes foi sempre, desde a ocupação romana um termo (limite) de Idanha-a-Velha e a designação de Stanis Confossis ou Al Confossis (nem todas as palavras iniciadas por Al, seja por artigo ou por ortografia provenientes da língua árabe. Idanha-a-Velha e Alcafozes estiveram sempre ligadas por um cordão umbilical, como urbanização central e bairro dos arrabaldes, de vastos pastos vitalizados pela Ribeira de Alcafozes. As gaiolas mouriscas poderia ser apenas uma designaçao árabc do Confossis do tempo romanos. Portanto, em 1496, cnfirma-se que Alcafozes fazia parte de Idanha-a-Velha, numa época em que os habitantes das região ascendiam a muitos milhares de indivíduos. 

Em Alcafozes questão da datação exacta dos tempos ainda não é uma verdade absoluta. Alcafozes. É muito possível que no século XV, com a inclusao de famílias de outro estrato social tenham, muito provavelmente  provavelmente contribuído para um um mais locais de culto que entretanto foram sunstituídos por outros ou, numa segunda hipóteses menos considerada, a deslocação ao templo de uma Idanha-a-Velha em decadência ou ao santuári que existia na Granja de São Pedro, dedicaca a S.Francisco e entretanto destruída, possivelmente por umas das muitas inavões estrangeiras que por ali se deslocavam a caminho dos seus conflitos guerreiros  ou à Ermida de Nossa Senhora da Granja, da não muito distante Proença-a.Velha.
Alcafozes  estava inserida em território pertencente à Ordem de Cristo, que teve como administrador o rei D. Manuel I. A ordem foi secularizada em 1510 e, em 1551, pela bula de Júlio III, e no tempo de D. João III, os bens passaram para a Coroa. Foram criadas novas comendas, em que muitas vezes os comendadores arrendavam as propriedades e, nesse sentido, foi sendo frequente a existência de rendeiros, que eram grandes proprietários. Uma dessas famílias poderá ter sido a família Capello, cuja existência em Alcafozes é assinalada em lugares de relevo público

A obra das Misericórdias nasceu em 1498, no ano em que Vasco da Gama descobriu o caminho marítimo para a Índia. Mas até essa data as instituições de beneficência eram rudimentares e encontravam-se dispersas e sem estatuto. Desde a fundação da nação portuguesa, inspiradas pelo espírito de caridade cristã, foram sendo criadas ordens religiosas e militares pelos reis, municípios, bispos, confrarias e particulares. Estas induziam os homens de todas as classes sociais a socorrerem os pobres e necessitados na ausência de qualquer sistema de segurança social organizado.É neste contexto histórico que o cruzamento de duas figuras dará origem à futura rede de Misericórdias: Frei Miguel Contreiras e a rainha D. Leonor.

Frei Miguel Contreiras era um admirável pregador e amparo dos mais desfavorecidos. Pelo que se dizia, percorria as ruas de Lisboa com um anão que recolhera para sua protecção e um jumento no qual carregava as esmolas, para "acordar a caridade" e acudir os pobres e indefesos. A sua fama chegou aos ouvidos da rainha D. Leonor, que o nomeou seu confessor e mestre espiritual. Em 1484, D. Leonor fundou o Hospital das Caldas, dedicado aos pobres, na igreja onde instituiu uma confraria de caridade, sendo este um prenúncio da Misericórdia. Em conjunto com Frei Miguel Contreiras, desenvolveu uma série de obras significativas de ajuda aos necessitados.

A vida rude na Idade Média


Foi então em finais do século XV que, um grupo de "bons e fiéis cristãos", como reza a História, liderados por Frei Miguel Contreiras, na presença da rainha D. Leonor e das mais altas personalidades religiosas e civis, assumiu o compromisso de se dedicar à prática das 14 Obras de Misericórdia quanto fosse possível. 
Gozando D. Leonor de grande prestígio junto da corte e do rei, é neste momento que surge a Irmandade da N.ª Sr.ª da Misericórdia de Lisboa com a aprovação do rei D, Manuel, a génese de todas as que lhe seguiram até aos nossos dias. O monarca tomou-a sob a sua protecção em 1498.Em Castelo Branco a Misericordia  foi fundada em 1510 e, pela ordem natural das distâncias das época, talvez em Alcafozes tenha surgido 5 ou 10 anos depois, apoiada com uma nova classe social que entretanto chegava à aldeia devido à seecularização das terras antes da Ordem de Cristo. 





 

O "LEQUE" nos anos 60

  Já assisti, por várias vezes, gente mais nova de Alcafozes perorar sobre como seria o "Leque" em tempos que já lá vão. Há poucas...