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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

O MEU AVÔ NO ASSASSINATO DE SIDÓNIO PAIS

 Noite cálida numa pequena aldeia da Beira Baixa. Alcafozes. Um logradouro fundado por romanos, mais ou menos no século I, onde se pastoreavam vacas, cabras e ovelhas. Era comum nas férias grandes passar horas à conversa com o meu avô Joaquim. Sentados no solar da porta, nas tradicionais cadeiras de verga, ouvia as suas palavras, bebia os seus conhecimentos e registava as suas memórias. Até aos meus 18 anos, altura em que o meu avô faleceu, foi ele quem moldou o meu carácter para sempre. Espinha direita, verticalidade e desassombro foram os dogmas que me transmitiu. Impunha-se pela sua figura imponente e carismática, não necessitando sequer de botar palavra para todos à volta se submeterem a uma postura de reverência quase religiosa. Era como um alcaide no seu castelo. Sentia-me seguro perto dele. Ali ninguém me incomodava física ou psicologicamente. Um olhar dele bastava para afastar qualquer veleidade de disputa.

Nessas longas horas em que se esperava pelo refrescar do astro nocturno naquela rua de pedra granítica, soube, entre muitas outras narrativa, de como ocorrera a ascensão e morte do quarto presidente da República Portuguesa, Sidónio Pais.
14 de Dezembro de 1918.
A notícia do assassinato a tiro na Estação do Rossio, caiu repentinamente no quartel de Lanceiros 2, na Calçada da Ajuda, onde o meu avô prestava serviço militar. Os soldados do esquadrão aparelharam os cavalos num ápice e carregaram as armas. Saíram a galope pela Avenida 24 de Julho, atravessaram o Cais do Sodré e subiram ao lLargo do Carmo. A multidão já enchia as ruas e gente pacífica misturava-se com desordeiros oportunistas para tomarem conta da situação. Na descida íngreme da Calçada do Carmo para a Estação do Rossio os cascos dos cavalos escorregavam nas pedras do estreito arruamento. Havia quem quisesse derrubar a tropa das selas e o caminho foi aberto a golpes de sabre. Lisboa era uma caos na zona dos Restauradores.
Sidónio Pais, major de Artilharia, mas fundamentalmente um brilhante professor de Matemática, distinguia-se como professor de Cálculo Diferencial e Integral na Universidade de Coimbra, exalava o último suspiro no Hospital de São José. O funeral do presidente que acabara com as perseguições assassinas dos republicanos à Igreja Católica e que decidira o sufrágio directo e universal para eleger o Presidente da República foi tumultuoso e reuniu uma multidão impressionante para a época.
O meu avô e os camaradas de armas de Lanceiros 2 tentavam restaurar a ordem, atemorizando os mais excitados com os cavalos cobertos de suor. Seguiram-se dias de revoltas populares das milícias armadas e levantamentos em unidades militares. Dada a situações caótica em que o país mergulhou houve necessidade de cavalgar de noite de Lisboa para o quartel de cavalaria de Santarém, onde, aliás, o meu avô assentara praça dois anos antes. A desordem em Portugal evitou que ele integrasse o Corpo Expedicionário na I Guerra Mundial.
Entre tiroteios e escaramuças, ora em Lisboa, ora noutros pontos do país, ele esteve presente na maioria deles, nesses tempos turbulentos para a jovem República. Na última fase da sua carreira militar, foi transferido para Elvas, numa altura em que se suspeitava que os espanhóis estariam prestes a intervir (invadir)em Portugal, uma intenção que o rei castelhano Afonso XIII não escondia nos meios diplomáticos.

A invasão não se processou e o meu avô passou à disponibilidade no Batalhão de Caçadores 8, aboletado em Elvas, uma unidade onde eu acabei por prestar serviço, desde o final de Março até 12 de Junho de 1975.
Livre de todas as incidências e obrigações castrenses, numa altura em que estradas e transportes se limitavam a desaguar em Lisboa ou no Porto, o meu avô fez a pé a caminhada entre Elvas e Castelo Branco e daí mais 50 quilómetros até à aldeia de Alcafozes, onde ele me contava a sua odisseia, levando às costas um precioso par de botas de cavalaria e comendo figos, bolotas, ameixas, pêras, maçãs e amoras pelos caminhos agrestes desbravados pelos passos firmes e vigorosos através dos campos cobertos de restolho.
Obrigado, avô Joaquim, por essas noites inesquecíveis.

Soldados de Alcafozes no assassinato do presidente Sidónio Pais.

domingo, 26 de janeiro de 2025

ALCAFOZES SAQUEADA por FRANCESES E ALIADOS

 A primeira vez que Alcafozes se via envolvida na Guerra Peninsular foi durante a I Invasão Francesa, em Outubro de 1807, quando o exército de Junot, composto por gauleses, espanhóis, alemães das legiões de Hannover, Baviera e Prússia, polacos da Legião do Vístula, italianos de Nápoles, suíços e irlandeses, entrou pela fronteira de Segura, seguiu por Salvaterra do Extremo, Idanha-a-Nova e Castelo Branco. Como era comum nessa época, um exército não marchava numa coluna única. À frente seguiam os batedores, depois o corpo principal de infantaria, a artilharia e, por fim, a intendência. Isto enquanto a Cavalaria protegia os flancos e dedicava-se à pilhagem.

Exaustos e famintos pela longa caminhada através dos mais de 650 quilómetros de uma áspera e rude Meseta Ibérica, os soldados pilharam as colheitas e o gado de toda a Beira Baixa e Alcafozes não escapou ao saque dos grupos de tropa vindos pelas Termas de Monfortinho. A aldeia ficou sem gado, sem pão, sem carne da matança do porco e quem resistiu foi abatido, muitas mulheres violadas e a Igreja de São Sebastiáo profanada, santos quebrados, livros de registos de óbitos, casamentos e baptizados queimados e as preciosas peças de arte sacra roubadas.
O bispo de Castelo Branco, D. Vicente Ferrer da Rocha, acedeu, obedecendo a ordens do rei exilado no Brasil, a oferecer alimentos a Junot e aos seus oficiais, além de fornecer cabeças de gado, pão vinho e tudo o que foi pedido. Mas, ao mesmo tempo, já os franceses roubavam conventos, igrejas e casas particulares. Os primeiros actos de revolta não tardaram a manifestar-se. No dia 20 de Novembro em Idanha-a-Nova, o exército deixou muitos doentes no Hospital. O povo, logo que a coluna principal inimiga deixou a vila, atacou o hospital, trazendo um grande número de franceses para a rua e lançou-os do alto da serra sobre o rio Pônsul. Há relatos de ataques aos soldados mais atrasados das colunas, ataques sem piedade conduzidos por guerrilheiros emboscados nos montes e nos matos. Aliás, segundo historiadores franceses, as guerrilhas formaram-se mais cedo em Portugal do que as "guerrillas" em Espanha
A chegada de novos soldados implicava sempre a recolha de mais alimentos, para homens e cavalos, roupas e calçado para as tropas, para além dos animais confiscados. Os homens fugidos atacavam os soldados que se atrasavam ou se perdiam das colunas. Toda a Beira Baixa viveu o inferno durante os meses das I e III Invasões Francesas e Alcafozes também não escapou aos roubos. O Fundão foi saqueado durante meses, a população de Alpedrinha quase toda massacrada. O juiz e o padre do Fundão formaram uma milícia e reagiram com ataques furtivos aos grupos de soldados isolados.
Quando o general inglês Beresford reorganizou o exército nacional, após este ter sido desmantelado por Junot e dez mil homens terem formado a Legião Portuguesa do Marquês de Alorna e apenas 100 deles sobreviverem à campanha da Rússia, veio buscar voluntários região de Castelo Branco. Na inversa, muitos desertores ou soldados franceses doentes acolheram-se em Portugal. Aqueles que não foram mortos pelas inúmeras milícias populares assentaram e fizeram família em múltiplas povoações portuguesas, mas também muitos prisioneiros portugueses foram obrigados a trabalhos forçados em França ou a secar pântanos na Holanda.

As invasões francesas saqueram Alcafozes e trouxeram a morte e a fome

sábado, 25 de janeiro de 2025

EM BUSCA DA BATALHA DE ALCAFOZES

Era um final de tarde fria de Inverno e a instrução da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, tinha sido dura no célebre terreno de lama que era a "terraplanagem". Corriam os anos 70 iniciais do século passado. Juntamente com uns vinte e tal camaradas (na tropa era assim a designação de companheirismo) do1º Esquadrão de Instrução tínhamos recebido a notícia de que integraríamos a especialidade numa das forças especiais e, como tal, formávamos e treinávamos à parte. Era verdade. Após as festas de Natal e do Ano Novo, recebi a guia de marcha para os "Rangers", em Lamego, das mãos do tenente Santos Silva.
No entanto, voltando à tal tarde de Inverno na para Chaimite da EPC, fui olhando, enquanto fumava um cigarro, para os painéis que assinalavam as datas e os locais dos combates travados por aquela unidade. Qual não foi o meu espanto ao descobrir, como todas as letras, a palavra Alcafozes. Ou era uma coincidência descomunal ou tratava-se da aldeia da minha família materna, conhecida na terra pela gente do Ti Estroina, o meu avô, e meu inspirador na arte de ser Homem. Ele bem me tinha contado os seus momentos de tropa em cenários rocambolescos, especialmente em Lisboa, quando foi assassinado o presidente Sidónio Pais, em 1919, na gare da estação do Rossio, e do caos que se espalhou pelo país, quando avançou pela Calçada do Carmo, com os cavalos do Regimento de Lanceiros 2 a escorregarem no íngreme empedrado para impor a ordem à espadeirada após a morte presidencial.
A vida dá muitas voltas, o serviço militar apanhou-me no olho do furacão da História de Portugal, antes e pós-PREC, circulei por dez unidades e, nesse tempo, na única vez em que estive para ir até Alcafozes e ao casamento da minha prima Luísa em Penha Garcia, um avião Noratlas, da Força Aérea Portuguesa, explodiu ao sair da Base de Tancos, morreram uma dezena de oficiais, em Setembro de 1975, e o meu Batalhão de Caçadores 4513 entrou de prevenção e já não pude seguir para a Beira Baixa.
Os anos passaram, a minha vida profissional ocupava-me o tempo por inteiro, passava boa parte dele a viajar por Portugal e para fora e Alcafozes foi caindo no esquecimento físico, não mental, até que, no final da minha carreira de jornalista, dediquei-me, entre outras actividades a escrever livros, um deles com referências às invasões francesas e à Beira Baixa, em especial, e Alcafozes, em particular.
Como, apesar de tudo, nunca esqueço a "terra", mandei, através do meu pai, 50 exemplares do livro "Amantes da Lua Negra" para ser sorteados nas rifas da quermesse das festas de Nossa Senhora do Loreto.
A partir de 2021 dediquei-me a investigar o caso da Batalha de Alcafozes. Não sou historiador, mas as minhas dezenas de anos como jornalistas apuraram-me o faro e deram-me a teimosia para chegar onde pretendo. A tarefa não estava a ser nada fácil. Fiz dezenas de contactos para câmaras municipais, juntas de freguesia, instituições militares, arquivos e nada sobre a Batalha de Alcafozes. Nem uma letrinha sequer. Sabendo que os portugueses nunca foram muito dados à escrita, era tadição nas tropas desse tempo, e mesmo antes, só o sargento de uma companhia ter o dom de ler e escrever, passei para a internet francesas, onde, após muitas horas, dias, semanas, meses, encontrei a palavra Alcafozes nas Guerras Napoleónicas. Era o segundo fio da meada, depois daquele na EPC. Dos sites franceses migrei para os ingleses. Mais horas, dias e uma infinidade de meses de buscas. Aportei, por fim, ao Regimento de Cavalaria 1, formado em Alcântara, em 1808. 




Alcafozes nas Invasões Francesas

O "LEQUE" nos anos 60

  Já assisti, por várias vezes, gente mais nova de Alcafozes perorar sobre como seria o "Leque" em tempos que já lá vão. Há poucas...