sábado, 16 de agosto de 2025

O "LEQUE" nos anos 60

 

Já assisti, por várias vezes, gente mais nova de Alcafozes perorar sobre como seria o "Leque" em tempos que já lá vão. Há poucas fotografias desse tempo, mas existe algo que o tempo não apaga: a memória da juventude. Como não se chegava a uma conclusão, fui rebuscar no meu "arquivo" cerebral, como era esse cruzamento tão bem arrumado, como um "hall" de entrada ou uma sala de estar da aldeia.
Esse belo espaço de antanho está agora reduzido a uma inestética e imperceptível rotunda, construída ou autorizada não sei porque entidade. A verdade é que foi varrido para debaixomdo tapete da história os resíduos de mais um crime contra o património da terra.
Como não vou lá há muitos anos, desconheço essas decisões e por isso vou concentrar-me em descrever o "Leque" dos anos 60, onde passei belos finais de tarde, depois de a canícula deixar de fritar o corpo e a alma.
Recorri a uma das minha paixões, a pintura "sem mestre", e fazer reviver o passado. O "Leque" éra (é) um cruzamento da Estrada Nacional 332, na altura da Granja de São Pedro para Medelim e a via de Alcafozes para Idanha-a-Nova. A cruz era arquitectada no chão por quantro canteiros formatados com um ângulo recto e dois ângulos agudos. No seu interior, além do restolho do estio, estavam plantadas duas árvores em cada um dos triângulos e ainda uma placa em com mais ou menos 1,80 de altura, apoiada em dois pilares e a indicação, para a esquerda de quem sai de Alcafozes, Granja de S. Pedro 9kms e para a direita as distâncias para Medelim - 13 kms, Covilhã - 56 kms (é a minha única dúvida) e Guarda - 90 kms. A bordejar esse espaço existiam os muros das propriedades privadas e a estrada para Idanha-a-Nova ainda era um caminho de terra, por alcatroar, onde, duas vezes por dia, às 06h30 da manhã e às 19h00, arrastava-se a camioneta da carreira, uma Ford Bus de 1940, da empresa Martins-Évora, amarela e vermelha, com o tecto lá em cima, carregadinha de malas, sacos, cestos e que mais fosse.
Nas jogatanas com o meu primo, a baliza era a placa indicativa de Medelim-Covilhã-Guarda. Quando avançávamos estrada fora era certo e sabido que encontrávamos o Palagão, cantoneiro, pessoa faladora e simpática, da família da minha madrinha Madalena.
Por ali também passavam, além de um veículo automóvel uma vez por festa, a carroça de bois do ti Comua, com uma carregamento de feno ou um rebanho do ti Jerónimo ou outro dos imensos pastores existentes na aldeia.
Voltando aos dias de hoje, consta-me, ou melhor, vi um projecto de construir uma rotunda, simbolizando a terra do pão e carvão. Não sei como vão resolver este quebra-cabeças. Na História de Alcafozes desde os tempos dos romanos -- foram eles e não os árabes -- que fundaram Villae Confossis -- aquelas terras eram ricas em ouro, nos rios e ribeiros -- incluindo a de Alcafozes que nasce, por acaso no Monte das Vinhas e desagua perto da Senhora da Graça, no Rio Pônsul -- vinho, azeite e gado. Não é por acaso que no brasão de Alcafozes constam dois ramos de oliveira, a Cruz dos Templários e uma espada, tipo cimitarra árabe ou catana dos povos indígenas.
O pão toda a gente o fazia, há 60 anos, e fui muitas vezes ao forno, aquele perto do ti Manel Albardeiro. O carvão foi um modo de deserrascar uma região sem minas do mesmo. Também o meu avô ti Estroina o fez durante um curto período de tempo, até porque a vizinhança de outras aldeias se queixavam da (agora chamada) poluição. E talvez ainda hoje Alcafozes sofra de discriminação da malta farrusca que ninguém queria por perto.
A factualidade da História de 2000 anos da aldeia é a permanente abudância de azeite e gado, esses sim, o símbolo da aldeia. Tudo isto a propósito de um paradisíaco "Leque" arrasado, de uma rotunda mal-amanhada e do putativo projecto para deturpar as milenares razões de ser da aldeia. Mas nunca subverterão aquelas imagens da minha juventude numa terra inesquecível!


O "LEQUE" DE ALCAFOZES NOS ANOS 60


sexta-feira, 8 de agosto de 2025

UM MUSEU PARA ALCAFOZES

 

Lavrar sob a fornalha do Estio era só possível aos mais fortes

Alcafozes, uma aldeia rica em história e cultura, merece um espaço dedicado à eternização da sua ancestralidade. Desde os tempos pré-históricos, a região tem sido palco de vestígios de vida humana, notáveis tanto na Granja de São Pedro quanto em Medelim. Essas evidências não são meros fragmentos do passado; elas representam uma continuidade histórica que deve ser preservada e celebrada através de instalações museológicas, que poderiam servir como um verdadeiro tributo à resiliência de seus habitantes. A presença romana em Alcafozes é um factor relevante que não p ode ser desconsiderado. Os marcos miliares encontrados na região, como aquele localizado na esquina de um prédio da Rua Joaquim Franco, servem como testemunhos físicos da ocupação e da influência romana. Outros marcos, curiosamente, estão situados em localidades próximas, como Idanha-a-Nova e Idanha-a-Velha. Esses vestígios são provas tangíveis de que a história da aldeia remonta a séculos atrás, quando a grande rota que ligava Mérida a Braga atravessava as terras da região. É pertinente lembrar que o desenvolvimento da civilização romana no território de Alcafozes foi impulsionado não apenas pela presença dos rios Pônsul, Erges e Ocreza, mas também pela localização estratégica de um ponto de vigia no monte onde atualmente se ergue a capela de Nossa Senhora do Loreto. Esse local tinha uma importância vital, facilitando a comunicação entre diversas áreas da região, do sítio da Senhora do Almurtão a Idanha-a-Velha, e assegurando um monitoramento eficaz das atividades ao redor. Registros históricos, que datam de mais de mil anos, corroboram essa rica narrativa.


Além das influências romanas, é fundamental ressaltar que Alcafozes possui uma história que se estende séculos aquém da chegada dos árabes e da formação da Taifa de Badajoz. A designação inicial, Villae Confossis, é uma demonstração clara de que a etimologia nem sempre está vinculada à influência árabe, contrariando a crença popular de que todas as palavras iniciadas com "Al" têm essa origem. Portanto, a aldeia não deve ser reduzida a uma simples herança muçulmana, mas sim reconhecida como uma entidade cultural multifacetada, que carrega consigo diversas camadas históricas. Alcafozes era, por esses tempos, o "bairro" mais a Sul da Egitânea (Idanha-a-Velha), daí também não se compreender, a não ser por malfadadas questões políticas, a desunião dessas freguesias gémeas, indo parar a Idanha-a-Nova, terra com a qual não existe quaquer afinidade. Adiante.

Perante tal tesouro histórico, questiona-se: quem já teve a iniciativa de investigar a muralha que antes ligava Alcafozes a Idanha-a-Velha? Este monumento milenar, que protegeu a população local durante épocas de massacres e pilhagens, especialmente durante as Invasões Francesas, permanece envolto em mistério. As escavações arqueológicas têm sido escassas, e, até o momento, os esforços para revelar a verdadeira história e trajetória dessa estrutura monumental permanecem negligenciados.
Seja por meio de artefatos ou narrativas, Alcafozes possui uma profundidade cultural que clama por reconhecimento. O exemplo da cópia da famosa pintura de Van Gogh, "A Cadeira", que gerou significativo alvoroço em um centro cultural, poderia ser um catalisador para uma maior valorização do patrimônio local. Porque não criar um espaço que abrangesse trajes típicos, ferramentas utilizadas ao longo das gerações, arados, cântaros, caldeiros, bilhas e outros objetos que contam a história da aldeia? Artefatos como cangas, cantareiras, arcas, enxovais, noivos, louças, ferragens, pedras de moinhos e rodas de lagares, carroças, laargadas de touros, etc., são todos elementos que compõem o rico espólio da vivência alcafozense.
A presença da enigmática pedra da Capela da Misericórdia, cuja foto publiquei num texto anterior, ao lado de tantos outros objetos de valor histórico, poderia transformar um museu local num verdadeiro ponto de encontro entre passado e presente. Um espaço onde a história de Alcafozes seria não apenas lembrada, mas revitalizada, criando um elo entre as novas gerações e suas raízes ancestrais.
Assim, a criação de um museu em Alcafozes não deve ser vista apenas como um desejo, mas como uma necessidade premente. A história não deve se limitar a ser uma memória distante que vê aviões passar anualmente no final de Agosto. É hora de unir esforços e garantir que a rica herança cultural de Alcafozes seja adequadamente preservada e perpetuada. Mãos à obra! Que esta seja uma convocação a todos os cidadãos, historiadores, arqueólogos e amantes da cultura a colaborar na construção desse legado que representa não somente o passado, mas também o futuro da aldeia. É através da valorização do seu patrimônio que Alcafozes poderá, finalmente, reclamar seus valores materiais e sua dignidade histórica no contexto mais amplo da civilização.
Venha o Museu de Alcafozes, além do material iconográfico, também recheado de fotos, pinturas (comprometo-me a oferecer algumas), videos e, obviamente, inteligência Artificial. 

sábado, 8 de março de 2025

A ROTUNDA DE ALCAFOZES com PASTOR, GADO e OLIVEIRA

 Apesar de constar nas vias romanas de há 2 mil anos, conforme o atestam os marcos miliares encontrados da aldeia e,  actualemente, espalhados por museus da Idanha-a-Velha e Idanha-a-Nova e um onde na esquina de um prédio na Rua Joaquim Franco, Alcafozes encontra-se desde há muito afastado de uma via principal e está há muitas décadas a centenas de metros da estrada nacional nº 332, partindo da povoação uma outra estrada para Idanha-a-Nova, a nacional 354. Quando era miúdo costumava ir jojar à bola para o Leque com o meu primo João. Nessa altura, o Leque era formado por duas estradas perpendiculares, com quatro triângulos arborizados e outras tantas placas de identificação dos destinos. Essas placas eram altas, com duas "pernas" a segurar um quadro branco em pedra ou tijolo, um indicando a entrada de Alcafozes e o do lado oposto apontando para Idanha-a-Nova (13 kms), outro para a Granja de São Pedro (9 kms) e o da direcção oposto (Medelim 13 kms, Covilhã (?) e Guarda (90 kms). 
Não sei quando, já não vou `"terra" à décadas, a Junta Autónoma das Estradas, sabe-se lá porquê, arrassou aquele belo espaço, onde passava um carro uma vez por festas e construiu um aborto de algo que se parece com uma rotunda, uma rodela despida de nada, sem qualquer significado e ainda por cima inclinada, embora ligeiramente de Alcafozes para Idanha-a-Nova. Já é mania... 
Soube há tempos que existe um movimento para "povoar" essa espécie de rotunda com algo que seja um ícone da terra. O motivo ornamental, segundo logrei descortinar, estaria de acordo com algumas produções da terra, pintadas em letras de "caixa alta" num muro perto do tal anel no tal alcatrão da  confluència da 332 com a 354: "terra de pão e carvão". 

É um facto que existe produção de pão em Alcafozes desde tempos pré-românicos e o carvão foi uma necessidade dos anos 40, 50 e 60, actividade que levantou celeuma devido a problemas de sáúde, mas qualquer destas actividades contribuiu como mais-valia para a comunidade, mas praticamente para consumo individual. O meu avô fez carvão durante um curto espaço de tempo e a minha avó era especialista na feitura de pão para a família, amassando-o em casa e finalizando a conzedura num dos fornos da aldeia, onde fui bastas vezes com ela. Após estudar mais ou menos dois mil anos da História de Alcafozes, conseguindo pormenores aqui e ali e ligando-os numa sequência lógica, não deixa de ser um exagero e uma imprecisão essa tirada do "pão e do carvão". O  que constatei ao longo deste longo período é existência consistente de uma grande actividade de pastorícia de gado e a exploração intensiva de azeite, como o provam alguns dos lagares dispersos pela zona de Alcafozes. 

Assim sendo, e revendo a historiografia de Alcafozes, os responsáveis que se propõem a requalificar aquela espécie de rotundas com sacos de carvão e pães, deveriam concentrar-se na riqueza que alimentou Alcafozes, e não só, durante milhares de anos, desde os tempos remotos em que pastores tomavam conta de milhares de  cabeças de gado e dos milhões de litros de azeite que sairam dali para outras paragens, enriquecendo os latifundiários locais. Voltando, portanto, à rotunda que está nas congitações dos responsáveis. este esboço que apresento na foto, com o pastor, o gado e a secular e produtiva oliveira deveriam ser os icones de Alcafozes no "hall" de entrada para a aldeia. Pelo menos estaria salvaguardada a verdade histórica desta aldeia milenar. 

O pastor, o gado e a oliveira numa futura rotunda de Alcafozes


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

AS CAGANITAS das CABRAS e os CAGALHÕES em FAMÍLIA

À primeira vista as caganitas das cabras e os cagalhões das pessoas nada têm em comum. Contudo, com um bocadinho de jeito a merda é a mesma. Nos mesees de Novembro, Dezembro, Janeiro e, por vezes, até Fevereiro procedia-se à apanha da azeitona, uma prática milenar que pouco ou nada mudou com o rolar dos séculos, a náo sera substituição de homens e mulheres por máquinas infernais que desbastam uma oliveira num abrir e fechar de olhos, decepam ramos e esmagam ninhos de aves, a sua casa e o seu abrigo. Os ranchos de homens e mulheres da aldeia pertencem à história e, por isso, convém recordá-la. Aí pelos anos 50 do século passado ainda se juntavam mais ou menos de três grupos de 20 ou trinta almas cada um, com a particularidade de a paridade de sexo ser aí bastante rigorosa, com homens e mulheres em igualdade numérica, uns casados, outros solteiros e mais uma minoria assim-assim. 

Era um trabalho árduo e madrugador. Ainda a luminosidade do dia vinha longe, aí por volta das 5 da madrugada, já os galos cantavam. Por essa hora, o "comandante" do grupo acendia o lume, comia uma espécie de pequeno almoço de feijões e calcorreava as ruas escuras como breu, sem iluminação artificial, soprando um búzio (de onde viria tal "instrumento"?) para acordar os compoonentes do rancho, que partiam para o olival ainda noite cerrada. No campo, a hora era de encher sacas que dessem 15 escudos por dias ou um nota (100 escudos) por semana. Trabalhava-se por equipas que se vigiavam umas às outras para nenhuma delas asquirir uma vantagem de peso significativa. O Inverno inclemente, temperado de frio, cchuva e neve não reduzia o labor. As sacas protegiam da chuvam desde que não despejassem cântaros de água do céu. Havia que aguentar a  apanha de milhares de quilos de azeitonas por dias e levar para casa uma mísera meias dúzia de quilos do fruto das oliveiras. O frio, esse, gelava as mãos e o tacto dos dedos desaparecia, inca+az de destrinçar uma azeitona de uma caganita de cabra e, tufa!, para dentro do saco. Secos ou molhados, eram assim passados os meses da apanha da azeitona transportadas em carros de bois para a casa senhorial a quem pertencia o olivais, um fonte de receita anual que dava ânimo para as culturas que se seguiam, 

As noites em Alcafozes eram escuras como breu, a não ser que houvesse luar. Dentro das casas, as candeias ou os candeeiros a petróleo davam uma luz precária que agitavam sombras gigantescas. No Verão, nomeadamente em Setembro quando o calendário escolar era diferente,  que ia de férias até à aldeia tinha de se sujeitar às condições básicas existentes. As casas de banho eram uma recordação que tinha ficado na cidade e cadaum desencarrasca-se como podia para fazer as suas necessidades. Não era raro encontrar à beira dos caminhos uns tarolos intestinais já pretrificados, muito raramente com um pedaço de papel simples ou de jornal já amarelado por perto. Num dos locais mais altos  de Alcafozes, o Cabeço, existia uma pedreira que distava uns 300 metros das casas, perto de um cancelão que era porta de  entrada ou de saída de uma tapada. Acabado o jantar, lavada a loiça, antes das conversas perto das soleiras das portas sentados em cadeiras de vime ou tropeços de cortiça, havia sempre quem tivesse de ir despejar a tripa, O WC, obviamente que era a pedreira. Quatro, cinco, seis, sete pessoas, dependia das vontades orgânicas, caminhavam pela negritudeda noite para expelir os tais cagalhões comunais. Como ninguém se via, baixavam-se as calças e as saias e lá vai disto, enquanto se conversava sobre o dia-a-dia, os preparativos do dia seguinte ou, claro, a vida dos outros. Às apalpadelas, lá se encontrava um "renova" de pedra, sempre com o cuidado de não ser mordido por um lacrau e passar a noite a ganir, Cabras e pessoas, no final tudo vai dar so mesmo... 

O início trabalhoso antes de chegar à mesa. 


domingo, 23 de fevereiro de 2025

A ODISSEIA DE UMA VIAGEM FÚNEBRE PARA ALCAFOZES

 Era um domingo de sol quente de Outono. Fui ao Estádio da Luz ver o jogo entre o Benfica e o Sporting. O meu clube ganhou esse encontro por 4-1, com 4 golos do fenomenal Eusébio. Fui radiante para casa, como é evidente. Não estava ninguém. Os meus pais tinham ido dar o passeio domingueiro. Quando ia comer pão com manteiga, aquele pão escuro tão saboroso daquela época, tocou o telefone. Estranhei. Ainda me lembro do número: 362862. Atendi.

Uma voz rouca do outro lado do fio e uns ruídos tão característico ao tempo deu-me a pior notícia que poderia imaginar, embora o meu avô sofresse há uns meses de uma doença grave.
Lá, da longínqua aldeia de Alcafozes, distrito de Castelo Branco e concellho de Idanha-a-Nova, uma voz roufenha informou a morte do meu avô materno, Joaquim Matos Rolo ou Joaquim Brito -- por mais estranho que possa parecer nos dias de hoje ele tinha dois nomes registados -- figura conhecida na terra por 'ti Estroina.
Mal desliguei o telefone o meu pai e a minha mãe entraram e fui obrigado a comunicar-lhes a triste, mas esperada, ocorrência. Rapidamente os meus tios foram informados do falecimento e horas depois todos estavam a caminho da aldeia, no automóvel do meu pai, ficando de fora eu e o meu primo João, por já não cabermos na viatura, uma carrinha Fiat 124 amarela.
Deixei rolar umas lágrimas â janela e custou-me a "desatar" o nó que me apertava a garganta. O meu avô Joaquim era uma figura que influenciara profundamente a minha formação, era a pessoa da família que eu mais adorava e via-o como uma espécie de herói ao vivo e não os de capa e espada dos livros aos quadradinhos. Ainda hoje, passados todos estes anos, sigo na íntegra os seus princípios morais e dogmas sociais, o que me deixa à vontade para andar de cabeça levantada por onde quer que passe.
Aquelas nossas conversas noite fora nas cálidas noites de Verão, nas cadeiras de palha à porta da casa que ele construiu com as suas próprias mãos, moldaram-me o carácter e orientaram-me a vivência.
Eu e o meu primo João apanhámos o comboio da 00h05, na Estação de Santa Apolónia, para a Beira Baixa. Tudo correu bem até à estação do Entroncamento. Aí tudo se complicou. Saímos da composição para irmos comprar sandes e cerveja numa das cervejarias da rua em frente à entrada das bilheteiras. Subimos para os degraus da última carruagem com a merenda na mão. Ficámos com cara de parvos quando o comboio começou a andar e a nossa carruagem, mais as duas da frente, não se mexia.
Como dois patetas, ainda ficámos na esperança de que se tratasse de alguma manobra. Nada disso. Um empregado das bagagens disse-nos que as carruagens da frente seguiam para a Beira Baixa e aquela onde estávamos tinha como destino a Linha do Leste (Elvas e Badajoz).
O funeral estava marcado para o final da manhã e o próximo comboio para Castelo Branco saía de Lisboa às 07h35, o que significava que não chegaríamos a tempo de nos despedimos do nosso avô Joaquim. Mas não desistimos.
Como nos servia seguir até Abrantes aproveitando a Linha do Leste entrámos na carruagem e partimos uma meia hora depois. Às 3 da madrugada chegámos ao Rossio ao Sul do Tejo. Estava nevoeiro e não se via vivalma. Procurámos um táxi e nem um. Ainda fomos a casa de um dos motoristas de táxi, por indicação do chefe da estação, e ele recusou fazer a viagem que pretendíamos. Deve ter pensado que eramos dois meliantes que o assaltariam no trajecto.
Tentámos uma boleia na ponte que atravessa o Rio Tejo. Nada de nada. Nem um cão ou um gato se moviam naquele nevoeiro tão sebastiânico. Subitamente ouvimos o silvo agudo de uma máquina de comboio. Corremos para a estação. Desilusão. Era um comboio de mercadorias.
Entabulamos conversa com o maquinista. Aquela composição era designada por "Frateleiro" e não fazia serviço de passageiros, a não ser os que trabalhavam na construção da barragem do Fratel. Contámos a nossa adversidade e pedimos uma "boleia" até Castelo Branco num dos vagões. O homem teve pena de nós e anuiu, com a condição de assumirmos a nossa responsabilidade em caso de se verificar um acidente.
O "Frateleiro" parava em todas as estações e apeadeiros. Ajudámos a tirar colchões, bicicletas e cabras dos vagões. Já passava da uma da tarde quando chegámos a Castelo Branco. Desanimados, já sabíamos que o funeral estava perdido. A esta hora a família devia estar a pensar por onde andaríamos ou se nos tinha acontecido alguma coisa. A era dos telemóveis ainda estava nos horizontes do tempo.
Para nos complicar ainda mais a vida, a camioneta de passageiro para Idanha-a-Nova avariou na Ponte de S. Gens. Tivemos de esperar por outra. Depois de Idanha-a-Nova para Alcafozes eram mais 13 kmslá fomos estrada fora numa ronceira camiota da carreira, que "dormia" no adro da igreja de Alcafozes, e quando chegámos, por volta das 6 da tarde, fomos directos ao cemitério. "Boa tarde", saudámos o coveiro. O homem apanhou um susto dentro da cova que estava a abrir. "Ó almas do diabo, que quereis daqui...", praguejou.
A boa notícia é que o funeral ainda não se efectuara. Que alívio. Corremos para casa e a família recebeu-nos com alívio. Dissemos o que se passara naquela odisseia azarada. Adiaram o funeral à nossa espera e também porque andava à nossa procura. Já era noite.
O corpo do meu avô Joaquim estava dentro do caixão, no meio da sala, apoiado em quatro cadeiras. Reparei que a gatinha da casa estava aninhada no espaço por baixo da urna. A minha avó disse-me que a bichana não saíra dali nem por um minuto.
Fechou-se o caixão e saiu o funeral à luz de velas dos homens da Irmandade da Misericórdia, à qual o meu avô também pertencia. Usavam umas capas roxas e uns capuzes em forma de bico. O burro zurrou quando o corpo do dono saiu de casa. Fiz questão de puxar o armão de duas rodas juntamente com o meu primo João até ao cemitério.
E aí jaz o meu saudoso avô Joaquim!

O avô Joaquim, o ti Estroina de Alcafozes, Eu e o meu primo João levámo-lo até à última morada.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

CAPELA DE NOSSA SENHORA DAS DORES

A capela foi construída no século XVIII, refletindo as características arquitetônicas da época barroca. Apresenta uma fachada simples, mas elegante, com elementos típicos do barroco português, como altares decorados e azulejos. Nossa Senhora das Dores é venerada como a padroeira dos aflitos, e a capela se tornou um local de peregrinação para os fiéis da região.

Era a capela onde as grávidas iam rezar, para que tivessem um parto normal e com menos DORES possíveis. No seu interior, só tem um pequeno altar com a imagem da Sª das Dores. Está sempre fechada, e só é aberta uma vez por ano no período da Quaresma, para arejar e limpar.

A capela de Nossa Senhora das Dores (Foto e investigação de João Rolo)

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

O MEU AVÔ NO ASSASSINATO DE SIDÓNIO PAIS

 Noite cálida numa pequena aldeia da Beira Baixa. Alcafozes. Um logradouro fundado por romanos, mais ou menos no século I, onde se pastoreavam vacas, cabras e ovelhas. Era comum nas férias grandes passar horas à conversa com o meu avô Joaquim. Sentados no solar da porta, nas tradicionais cadeiras de verga, ouvia as suas palavras, bebia os seus conhecimentos e registava as suas memórias. Até aos meus 18 anos, altura em que o meu avô faleceu, foi ele quem moldou o meu carácter para sempre. Espinha direita, verticalidade e desassombro foram os dogmas que me transmitiu. Impunha-se pela sua figura imponente e carismática, não necessitando sequer de botar palavra para todos à volta se submeterem a uma postura de reverência quase religiosa. Era como um alcaide no seu castelo. Sentia-me seguro perto dele. Ali ninguém me incomodava física ou psicologicamente. Um olhar dele bastava para afastar qualquer veleidade de disputa.

Nessas longas horas em que se esperava pelo refrescar do astro nocturno naquela rua de pedra granítica, soube, entre muitas outras narrativa, de como ocorrera a ascensão e morte do quarto presidente da República Portuguesa, Sidónio Pais.
14 de Dezembro de 1918.
A notícia do assassinato a tiro na Estação do Rossio, caiu repentinamente no quartel de Lanceiros 2, na Calçada da Ajuda, onde o meu avô prestava serviço militar. Os soldados do esquadrão aparelharam os cavalos num ápice e carregaram as armas. Saíram a galope pela Avenida 24 de Julho, atravessaram o Cais do Sodré e subiram ao lLargo do Carmo. A multidão já enchia as ruas e gente pacífica misturava-se com desordeiros oportunistas para tomarem conta da situação. Na descida íngreme da Calçada do Carmo para a Estação do Rossio os cascos dos cavalos escorregavam nas pedras do estreito arruamento. Havia quem quisesse derrubar a tropa das selas e o caminho foi aberto a golpes de sabre. Lisboa era uma caos na zona dos Restauradores.
Sidónio Pais, major de Artilharia, mas fundamentalmente um brilhante professor de Matemática, distinguia-se como professor de Cálculo Diferencial e Integral na Universidade de Coimbra, exalava o último suspiro no Hospital de São José. O funeral do presidente que acabara com as perseguições assassinas dos republicanos à Igreja Católica e que decidira o sufrágio directo e universal para eleger o Presidente da República foi tumultuoso e reuniu uma multidão impressionante para a época.
O meu avô e os camaradas de armas de Lanceiros 2 tentavam restaurar a ordem, atemorizando os mais excitados com os cavalos cobertos de suor. Seguiram-se dias de revoltas populares das milícias armadas e levantamentos em unidades militares. Dada a situações caótica em que o país mergulhou houve necessidade de cavalgar de noite de Lisboa para o quartel de cavalaria de Santarém, onde, aliás, o meu avô assentara praça dois anos antes. A desordem em Portugal evitou que ele integrasse o Corpo Expedicionário na I Guerra Mundial.
Entre tiroteios e escaramuças, ora em Lisboa, ora noutros pontos do país, ele esteve presente na maioria deles, nesses tempos turbulentos para a jovem República. Na última fase da sua carreira militar, foi transferido para Elvas, numa altura em que se suspeitava que os espanhóis estariam prestes a intervir (invadir)em Portugal, uma intenção que o rei castelhano Afonso XIII não escondia nos meios diplomáticos.

A invasão não se processou e o meu avô passou à disponibilidade no Batalhão de Caçadores 8, aboletado em Elvas, uma unidade onde eu acabei por prestar serviço, desde o final de Março até 12 de Junho de 1975.
Livre de todas as incidências e obrigações castrenses, numa altura em que estradas e transportes se limitavam a desaguar em Lisboa ou no Porto, o meu avô fez a pé a caminhada entre Elvas e Castelo Branco e daí mais 50 quilómetros até à aldeia de Alcafozes, onde ele me contava a sua odisseia, levando às costas um precioso par de botas de cavalaria e comendo figos, bolotas, ameixas, pêras, maçãs e amoras pelos caminhos agrestes desbravados pelos passos firmes e vigorosos através dos campos cobertos de restolho.
Obrigado, avô Joaquim, por essas noites inesquecíveis.

Soldados de Alcafozes no assassinato do presidente Sidónio Pais.

O "LEQUE" nos anos 60

  Já assisti, por várias vezes, gente mais nova de Alcafozes perorar sobre como seria o "Leque" em tempos que já lá vão. Há poucas...