sábado, 16 de agosto de 2025
O "LEQUE" nos anos 60
sexta-feira, 8 de agosto de 2025
UM MUSEU PARA ALCAFOZES
Lavrar sob a fornalha do Estio era só possível aos mais fortes
Alcafozes, uma aldeia rica em história e cultura, merece um espaço dedicado à eternização da sua ancestralidade. Desde os tempos pré-históricos, a região tem sido palco de vestígios de vida humana, notáveis tanto na Granja de São Pedro quanto em Medelim. Essas evidências não são meros fragmentos do passado; elas representam uma continuidade histórica que deve ser preservada e celebrada através de instalações museológicas, que poderiam servir como um verdadeiro tributo à resiliência de seus habitantes. A presença romana em Alcafozes é um factor relevante que não p ode ser desconsiderado. Os marcos miliares encontrados na região, como aquele localizado na esquina de um prédio da Rua Joaquim Franco, servem como testemunhos físicos da ocupação e da influência romana. Outros marcos, curiosamente, estão situados em localidades próximas, como Idanha-a-Nova e Idanha-a-Velha. Esses vestígios são provas tangíveis de que a história da aldeia remonta a séculos atrás, quando a grande rota que ligava Mérida a Braga atravessava as terras da região. É pertinente lembrar que o desenvolvimento da civilização romana no território de Alcafozes foi impulsionado não apenas pela presença dos rios Pônsul, Erges e Ocreza, mas também pela localização estratégica de um ponto de vigia no monte onde atualmente se ergue a capela de Nossa Senhora do Loreto. Esse local tinha uma importância vital, facilitando a comunicação entre diversas áreas da região, do sítio da Senhora do Almurtão a Idanha-a-Velha, e assegurando um monitoramento eficaz das atividades ao redor. Registros históricos, que datam de mais de mil anos, corroboram essa rica narrativa.
Além das influências romanas, é fundamental ressaltar que Alcafozes possui uma história que se estende séculos aquém da chegada dos árabes e da formação da Taifa de Badajoz. A designação inicial, Villae Confossis, é uma demonstração clara de que a etimologia nem sempre está vinculada à influência árabe, contrariando a crença popular de que todas as palavras iniciadas com "Al" têm essa origem. Portanto, a aldeia não deve ser reduzida a uma simples herança muçulmana, mas sim reconhecida como uma entidade cultural multifacetada, que carrega consigo diversas camadas históricas. Alcafozes era, por esses tempos, o "bairro" mais a Sul da Egitânea (Idanha-a-Velha), daí também não se compreender, a não ser por malfadadas questões políticas, a desunião dessas freguesias gémeas, indo parar a Idanha-a-Nova, terra com a qual não existe quaquer afinidade. Adiante.
Perante tal tesouro histórico, questiona-se: quem já teve a iniciativa de investigar a muralha que antes ligava Alcafozes a Idanha-a-Velha? Este monumento milenar, que protegeu a população local durante épocas de massacres e pilhagens, especialmente durante as Invasões Francesas, permanece envolto em mistério. As escavações arqueológicas têm sido escassas, e, até o momento, os esforços para revelar a verdadeira história e trajetória dessa estrutura monumental permanecem negligenciados.
Seja por meio de artefatos ou narrativas, Alcafozes possui uma profundidade cultural que clama por reconhecimento. O exemplo da cópia da famosa pintura de Van Gogh, "A Cadeira", que gerou significativo alvoroço em um centro cultural, poderia ser um catalisador para uma maior valorização do patrimônio local. Porque não criar um espaço que abrangesse trajes típicos, ferramentas utilizadas ao longo das gerações, arados, cântaros, caldeiros, bilhas e outros objetos que contam a história da aldeia? Artefatos como cangas, cantareiras, arcas, enxovais, noivos, louças, ferragens, pedras de moinhos e rodas de lagares, carroças, laargadas de touros, etc., são todos elementos que compõem o rico espólio da vivência alcafozense.
A presença da enigmática pedra da Capela da Misericórdia, cuja foto publiquei num texto anterior, ao lado de tantos outros objetos de valor histórico, poderia transformar um museu local num verdadeiro ponto de encontro entre passado e presente. Um espaço onde a história de Alcafozes seria não apenas lembrada, mas revitalizada, criando um elo entre as novas gerações e suas raízes ancestrais.
Assim, a criação de um museu em Alcafozes não deve ser vista apenas como um desejo, mas como uma necessidade premente. A história não deve se limitar a ser uma memória distante que vê aviões passar anualmente no final de Agosto. É hora de unir esforços e garantir que a rica herança cultural de Alcafozes seja adequadamente preservada e perpetuada. Mãos à obra! Que esta seja uma convocação a todos os cidadãos, historiadores, arqueólogos e amantes da cultura a colaborar na construção desse legado que representa não somente o passado, mas também o futuro da aldeia. É através da valorização do seu patrimônio que Alcafozes poderá, finalmente, reclamar seus valores materiais e sua dignidade histórica no contexto mais amplo da civilização.
Venha o Museu de Alcafozes, além do material iconográfico, também recheado de fotos, pinturas (comprometo-me a oferecer algumas), videos e, obviamente, inteligência Artificial.
sábado, 8 de março de 2025
A ROTUNDA DE ALCAFOZES com PASTOR, GADO e OLIVEIRA
Apesar de constar nas vias romanas de há 2 mil anos, conforme o atestam os marcos miliares encontrados da aldeia e, actualemente, espalhados por museus da Idanha-a-Velha e Idanha-a-Nova e um onde na esquina de um prédio na Rua Joaquim Franco, Alcafozes encontra-se desde há muito afastado de uma via principal e está há muitas décadas a centenas de metros da estrada nacional nº 332, partindo da povoação uma outra estrada para Idanha-a-Nova, a nacional 354. Quando era miúdo costumava ir jojar à bola para o Leque com o meu primo João. Nessa altura, o Leque era formado por duas estradas perpendiculares, com quatro triângulos arborizados e outras tantas placas de identificação dos destinos. Essas placas eram altas, com duas "pernas" a segurar um quadro branco em pedra ou tijolo, um indicando a entrada de Alcafozes e o do lado oposto apontando para Idanha-a-Nova (13 kms), outro para a Granja de São Pedro (9 kms) e o da direcção oposto (Medelim 13 kms, Covilhã (?) e Guarda (90 kms).
Não sei quando, já não vou `"terra" à décadas, a Junta Autónoma das Estradas, sabe-se lá porquê, arrassou aquele belo espaço, onde passava um carro uma vez por festas e construiu um aborto de algo que se parece com uma rotunda, uma rodela despida de nada, sem qualquer significado e ainda por cima inclinada, embora ligeiramente de Alcafozes para Idanha-a-Nova. Já é mania...
Soube há tempos que existe um movimento para "povoar" essa espécie de rotunda com algo que seja um ícone da terra. O motivo ornamental, segundo logrei descortinar, estaria de acordo com algumas produções da terra, pintadas em letras de "caixa alta" num muro perto do tal anel no tal alcatrão da confluència da 332 com a 354: "terra de pão e carvão".
É um facto que existe produção de pão em Alcafozes desde tempos pré-românicos e o carvão foi uma necessidade dos anos 40, 50 e 60, actividade que levantou celeuma devido a problemas de sáúde, mas qualquer destas actividades contribuiu como mais-valia para a comunidade, mas praticamente para consumo individual. O meu avô fez carvão durante um curto espaço de tempo e a minha avó era especialista na feitura de pão para a família, amassando-o em casa e finalizando a conzedura num dos fornos da aldeia, onde fui bastas vezes com ela. Após estudar mais ou menos dois mil anos da História de Alcafozes, conseguindo pormenores aqui e ali e ligando-os numa sequência lógica, não deixa de ser um exagero e uma imprecisão essa tirada do "pão e do carvão". O que constatei ao longo deste longo período é existência consistente de uma grande actividade de pastorícia de gado e a exploração intensiva de azeite, como o provam alguns dos lagares dispersos pela zona de Alcafozes.
Assim sendo, e revendo a historiografia de Alcafozes, os responsáveis que se propõem a requalificar aquela espécie de rotundas com sacos de carvão e pães, deveriam concentrar-se na riqueza que alimentou Alcafozes, e não só, durante milhares de anos, desde os tempos remotos em que pastores tomavam conta de milhares de cabeças de gado e dos milhões de litros de azeite que sairam dali para outras paragens, enriquecendo os latifundiários locais. Voltando, portanto, à rotunda que está nas congitações dos responsáveis. este esboço que apresento na foto, com o pastor, o gado e a secular e produtiva oliveira deveriam ser os icones de Alcafozes no "hall" de entrada para a aldeia. Pelo menos estaria salvaguardada a verdade histórica desta aldeia milenar.
O pastor, o gado e a oliveira numa futura rotunda de Alcafozessexta-feira, 28 de fevereiro de 2025
AS CAGANITAS das CABRAS e os CAGALHÕES em FAMÍLIA
À primeira vista as caganitas das cabras e os cagalhões das pessoas nada têm em comum. Contudo, com um bocadinho de jeito a merda é a mesma. Nos mesees de Novembro, Dezembro, Janeiro e, por vezes, até Fevereiro procedia-se à apanha da azeitona, uma prática milenar que pouco ou nada mudou com o rolar dos séculos, a náo sera substituição de homens e mulheres por máquinas infernais que desbastam uma oliveira num abrir e fechar de olhos, decepam ramos e esmagam ninhos de aves, a sua casa e o seu abrigo. Os ranchos de homens e mulheres da aldeia pertencem à história e, por isso, convém recordá-la. Aí pelos anos 50 do século passado ainda se juntavam mais ou menos de três grupos de 20 ou trinta almas cada um, com a particularidade de a paridade de sexo ser aí bastante rigorosa, com homens e mulheres em igualdade numérica, uns casados, outros solteiros e mais uma minoria assim-assim.
Era um trabalho árduo e madrugador. Ainda a luminosidade do dia vinha longe, aí por volta das 5 da madrugada, já os galos cantavam. Por essa hora, o "comandante" do grupo acendia o lume, comia uma espécie de pequeno almoço de feijões e calcorreava as ruas escuras como breu, sem iluminação artificial, soprando um búzio (de onde viria tal "instrumento"?) para acordar os compoonentes do rancho, que partiam para o olival ainda noite cerrada. No campo, a hora era de encher sacas que dessem 15 escudos por dias ou um nota (100 escudos) por semana. Trabalhava-se por equipas que se vigiavam umas às outras para nenhuma delas asquirir uma vantagem de peso significativa. O Inverno inclemente, temperado de frio, cchuva e neve não reduzia o labor. As sacas protegiam da chuvam desde que não despejassem cântaros de água do céu. Havia que aguentar a apanha de milhares de quilos de azeitonas por dias e levar para casa uma mísera meias dúzia de quilos do fruto das oliveiras. O frio, esse, gelava as mãos e o tacto dos dedos desaparecia, inca+az de destrinçar uma azeitona de uma caganita de cabra e, tufa!, para dentro do saco. Secos ou molhados, eram assim passados os meses da apanha da azeitona transportadas em carros de bois para a casa senhorial a quem pertencia o olivais, um fonte de receita anual que dava ânimo para as culturas que se seguiam,
As noites em Alcafozes eram escuras como breu, a não ser que houvesse luar. Dentro das casas, as candeias ou os candeeiros a petróleo davam uma luz precária que agitavam sombras gigantescas. No Verão, nomeadamente em Setembro quando o calendário escolar era diferente, que ia de férias até à aldeia tinha de se sujeitar às condições básicas existentes. As casas de banho eram uma recordação que tinha ficado na cidade e cadaum desencarrasca-se como podia para fazer as suas necessidades. Não era raro encontrar à beira dos caminhos uns tarolos intestinais já pretrificados, muito raramente com um pedaço de papel simples ou de jornal já amarelado por perto. Num dos locais mais altos de Alcafozes, o Cabeço, existia uma pedreira que distava uns 300 metros das casas, perto de um cancelão que era porta de entrada ou de saída de uma tapada. Acabado o jantar, lavada a loiça, antes das conversas perto das soleiras das portas sentados em cadeiras de vime ou tropeços de cortiça, havia sempre quem tivesse de ir despejar a tripa, O WC, obviamente que era a pedreira. Quatro, cinco, seis, sete pessoas, dependia das vontades orgânicas, caminhavam pela negritudeda noite para expelir os tais cagalhões comunais. Como ninguém se via, baixavam-se as calças e as saias e lá vai disto, enquanto se conversava sobre o dia-a-dia, os preparativos do dia seguinte ou, claro, a vida dos outros. Às apalpadelas, lá se encontrava um "renova" de pedra, sempre com o cuidado de não ser mordido por um lacrau e passar a noite a ganir, Cabras e pessoas, no final tudo vai dar so mesmo...
O início trabalhoso antes de chegar à mesa.
domingo, 23 de fevereiro de 2025
A ODISSEIA DE UMA VIAGEM FÚNEBRE PARA ALCAFOZES
Era um domingo de sol quente de Outono. Fui ao Estádio da Luz ver o jogo entre o Benfica e o Sporting. O meu clube ganhou esse encontro por 4-1, com 4 golos do fenomenal Eusébio. Fui radiante para casa, como é evidente. Não estava ninguém. Os meus pais tinham ido dar o passeio domingueiro. Quando ia comer pão com manteiga, aquele pão escuro tão saboroso daquela época, tocou o telefone. Estranhei. Ainda me lembro do número: 362862. Atendi.
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025
CAPELA DE NOSSA SENHORA DAS DORES
A capela foi construída no século XVIII, refletindo as características arquitetônicas da época barroca. Apresenta uma fachada simples, mas elegante, com elementos típicos do barroco português, como altares decorados e azulejos. Nossa Senhora das Dores é venerada como a padroeira dos aflitos, e a capela se tornou um local de peregrinação para os fiéis da região.
Era a capela onde as grávidas iam rezar, para que tivessem um parto normal e com menos DORES possíveis. No seu interior, só tem um pequeno altar com a imagem da Sª das Dores. Está sempre fechada, e só é aberta uma vez por ano no período da Quaresma, para arejar e limpar.
A capela de Nossa Senhora das Dores (Foto e investigação de João Rolo)
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025
O MEU AVÔ NO ASSASSINATO DE SIDÓNIO PAIS
Noite cálida numa pequena aldeia da Beira Baixa. Alcafozes. Um logradouro fundado por romanos, mais ou menos no século I, onde se pastoreavam vacas, cabras e ovelhas. Era comum nas férias grandes passar horas à conversa com o meu avô Joaquim. Sentados no solar da porta, nas tradicionais cadeiras de verga, ouvia as suas palavras, bebia os seus conhecimentos e registava as suas memórias. Até aos meus 18 anos, altura em que o meu avô faleceu, foi ele quem moldou o meu carácter para sempre. Espinha direita, verticalidade e desassombro foram os dogmas que me transmitiu. Impunha-se pela sua figura imponente e carismática, não necessitando sequer de botar palavra para todos à volta se submeterem a uma postura de reverência quase religiosa. Era como um alcaide no seu castelo. Sentia-me seguro perto dele. Ali ninguém me incomodava física ou psicologicamente. Um olhar dele bastava para afastar qualquer veleidade de disputa.
O "LEQUE" nos anos 60
Já assisti, por várias vezes, gente mais nova de Alcafozes perorar sobre como seria o "Leque" em tempos que já lá vão. Há poucas...
-
Apesar de constar nas vias romanas de há 2 mil anos, conforme o atestam os marcos miliares encontrados da aldeia e, actualemente, espalhad...
-
À primeira vista as caganitas das cabras e os cagalhões das pessoas nada têm em comum. Contudo, com um bocadinho de jeito a merda é a mesma....
-
A primeira recordação de uma longa viagem com ela aconteceu na visita anual à Beira Baixa, província de onde é natural a minha família. Teri...






