Mostrar mensagens com a etiqueta #Portugal. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta #Portugal. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

AS CAGANITAS das CABRAS e os CAGALHÕES em FAMÍLIA

À primeira vista as caganitas das cabras e os cagalhões das pessoas nada têm em comum. Contudo, com um bocadinho de jeito a merda é a mesma. Nos mesees de Novembro, Dezembro, Janeiro e, por vezes, até Fevereiro procedia-se à apanha da azeitona, uma prática milenar que pouco ou nada mudou com o rolar dos séculos, a náo sera substituição de homens e mulheres por máquinas infernais que desbastam uma oliveira num abrir e fechar de olhos, decepam ramos e esmagam ninhos de aves, a sua casa e o seu abrigo. Os ranchos de homens e mulheres da aldeia pertencem à história e, por isso, convém recordá-la. Aí pelos anos 50 do século passado ainda se juntavam mais ou menos de três grupos de 20 ou trinta almas cada um, com a particularidade de a paridade de sexo ser aí bastante rigorosa, com homens e mulheres em igualdade numérica, uns casados, outros solteiros e mais uma minoria assim-assim. 

Era um trabalho árduo e madrugador. Ainda a luminosidade do dia vinha longe, aí por volta das 5 da madrugada, já os galos cantavam. Por essa hora, o "comandante" do grupo acendia o lume, comia uma espécie de pequeno almoço de feijões e calcorreava as ruas escuras como breu, sem iluminação artificial, soprando um búzio (de onde viria tal "instrumento"?) para acordar os compoonentes do rancho, que partiam para o olival ainda noite cerrada. No campo, a hora era de encher sacas que dessem 15 escudos por dias ou um nota (100 escudos) por semana. Trabalhava-se por equipas que se vigiavam umas às outras para nenhuma delas asquirir uma vantagem de peso significativa. O Inverno inclemente, temperado de frio, cchuva e neve não reduzia o labor. As sacas protegiam da chuvam desde que não despejassem cântaros de água do céu. Havia que aguentar a  apanha de milhares de quilos de azeitonas por dias e levar para casa uma mísera meias dúzia de quilos do fruto das oliveiras. O frio, esse, gelava as mãos e o tacto dos dedos desaparecia, inca+az de destrinçar uma azeitona de uma caganita de cabra e, tufa!, para dentro do saco. Secos ou molhados, eram assim passados os meses da apanha da azeitona transportadas em carros de bois para a casa senhorial a quem pertencia o olivais, um fonte de receita anual que dava ânimo para as culturas que se seguiam, 

As noites em Alcafozes eram escuras como breu, a não ser que houvesse luar. Dentro das casas, as candeias ou os candeeiros a petróleo davam uma luz precária que agitavam sombras gigantescas. No Verão, nomeadamente em Setembro quando o calendário escolar era diferente,  que ia de férias até à aldeia tinha de se sujeitar às condições básicas existentes. As casas de banho eram uma recordação que tinha ficado na cidade e cadaum desencarrasca-se como podia para fazer as suas necessidades. Não era raro encontrar à beira dos caminhos uns tarolos intestinais já pretrificados, muito raramente com um pedaço de papel simples ou de jornal já amarelado por perto. Num dos locais mais altos  de Alcafozes, o Cabeço, existia uma pedreira que distava uns 300 metros das casas, perto de um cancelão que era porta de  entrada ou de saída de uma tapada. Acabado o jantar, lavada a loiça, antes das conversas perto das soleiras das portas sentados em cadeiras de vime ou tropeços de cortiça, havia sempre quem tivesse de ir despejar a tripa, O WC, obviamente que era a pedreira. Quatro, cinco, seis, sete pessoas, dependia das vontades orgânicas, caminhavam pela negritudeda noite para expelir os tais cagalhões comunais. Como ninguém se via, baixavam-se as calças e as saias e lá vai disto, enquanto se conversava sobre o dia-a-dia, os preparativos do dia seguinte ou, claro, a vida dos outros. Às apalpadelas, lá se encontrava um "renova" de pedra, sempre com o cuidado de não ser mordido por um lacrau e passar a noite a ganir, Cabras e pessoas, no final tudo vai dar so mesmo... 

O início trabalhoso antes de chegar à mesa. 


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

CAPELA DE NOSSA SENHORA DAS DORES

A capela foi construída no século XVIII, refletindo as características arquitetônicas da época barroca. Apresenta uma fachada simples, mas elegante, com elementos típicos do barroco português, como altares decorados e azulejos. Nossa Senhora das Dores é venerada como a padroeira dos aflitos, e a capela se tornou um local de peregrinação para os fiéis da região.

Era a capela onde as grávidas iam rezar, para que tivessem um parto normal e com menos DORES possíveis. No seu interior, só tem um pequeno altar com a imagem da Sª das Dores. Está sempre fechada, e só é aberta uma vez por ano no período da Quaresma, para arejar e limpar.

A capela de Nossa Senhora das Dores (Foto e investigação de João Rolo)

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

O MEU AVÔ NO ASSASSINATO DE SIDÓNIO PAIS

 Noite cálida numa pequena aldeia da Beira Baixa. Alcafozes. Um logradouro fundado por romanos, mais ou menos no século I, onde se pastoreavam vacas, cabras e ovelhas. Era comum nas férias grandes passar horas à conversa com o meu avô Joaquim. Sentados no solar da porta, nas tradicionais cadeiras de verga, ouvia as suas palavras, bebia os seus conhecimentos e registava as suas memórias. Até aos meus 18 anos, altura em que o meu avô faleceu, foi ele quem moldou o meu carácter para sempre. Espinha direita, verticalidade e desassombro foram os dogmas que me transmitiu. Impunha-se pela sua figura imponente e carismática, não necessitando sequer de botar palavra para todos à volta se submeterem a uma postura de reverência quase religiosa. Era como um alcaide no seu castelo. Sentia-me seguro perto dele. Ali ninguém me incomodava física ou psicologicamente. Um olhar dele bastava para afastar qualquer veleidade de disputa.

Nessas longas horas em que se esperava pelo refrescar do astro nocturno naquela rua de pedra granítica, soube, entre muitas outras narrativa, de como ocorrera a ascensão e morte do quarto presidente da República Portuguesa, Sidónio Pais.
14 de Dezembro de 1918.
A notícia do assassinato a tiro na Estação do Rossio, caiu repentinamente no quartel de Lanceiros 2, na Calçada da Ajuda, onde o meu avô prestava serviço militar. Os soldados do esquadrão aparelharam os cavalos num ápice e carregaram as armas. Saíram a galope pela Avenida 24 de Julho, atravessaram o Cais do Sodré e subiram ao lLargo do Carmo. A multidão já enchia as ruas e gente pacífica misturava-se com desordeiros oportunistas para tomarem conta da situação. Na descida íngreme da Calçada do Carmo para a Estação do Rossio os cascos dos cavalos escorregavam nas pedras do estreito arruamento. Havia quem quisesse derrubar a tropa das selas e o caminho foi aberto a golpes de sabre. Lisboa era uma caos na zona dos Restauradores.
Sidónio Pais, major de Artilharia, mas fundamentalmente um brilhante professor de Matemática, distinguia-se como professor de Cálculo Diferencial e Integral na Universidade de Coimbra, exalava o último suspiro no Hospital de São José. O funeral do presidente que acabara com as perseguições assassinas dos republicanos à Igreja Católica e que decidira o sufrágio directo e universal para eleger o Presidente da República foi tumultuoso e reuniu uma multidão impressionante para a época.
O meu avô e os camaradas de armas de Lanceiros 2 tentavam restaurar a ordem, atemorizando os mais excitados com os cavalos cobertos de suor. Seguiram-se dias de revoltas populares das milícias armadas e levantamentos em unidades militares. Dada a situações caótica em que o país mergulhou houve necessidade de cavalgar de noite de Lisboa para o quartel de cavalaria de Santarém, onde, aliás, o meu avô assentara praça dois anos antes. A desordem em Portugal evitou que ele integrasse o Corpo Expedicionário na I Guerra Mundial.
Entre tiroteios e escaramuças, ora em Lisboa, ora noutros pontos do país, ele esteve presente na maioria deles, nesses tempos turbulentos para a jovem República. Na última fase da sua carreira militar, foi transferido para Elvas, numa altura em que se suspeitava que os espanhóis estariam prestes a intervir (invadir)em Portugal, uma intenção que o rei castelhano Afonso XIII não escondia nos meios diplomáticos.

A invasão não se processou e o meu avô passou à disponibilidade no Batalhão de Caçadores 8, aboletado em Elvas, uma unidade onde eu acabei por prestar serviço, desde o final de Março até 12 de Junho de 1975.
Livre de todas as incidências e obrigações castrenses, numa altura em que estradas e transportes se limitavam a desaguar em Lisboa ou no Porto, o meu avô fez a pé a caminhada entre Elvas e Castelo Branco e daí mais 50 quilómetros até à aldeia de Alcafozes, onde ele me contava a sua odisseia, levando às costas um precioso par de botas de cavalaria e comendo figos, bolotas, ameixas, pêras, maçãs e amoras pelos caminhos agrestes desbravados pelos passos firmes e vigorosos através dos campos cobertos de restolho.
Obrigado, avô Joaquim, por essas noites inesquecíveis.

Soldados de Alcafozes no assassinato do presidente Sidónio Pais.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

O BURRO "SÓCIO" DO MEU AVÔ "ESTROINA"

 O "Sócio" foi o último burro do meu avô Joaquim Matos Rolo. Mas a conotação humana de burro não se aplica, de modo algum, ao "Sócio", o dito. Esperto e discreto, nada burro o solípede. O "Sócio" era o jipe 4x4 do meu avô Joaquim Matos Rolo. Um burro ruço, mas não soviético e muito menos pertencente à ortodoxia com a sua capital em Moscovo, no Kremelin, apenas um questão de coloração do pêlo.

Afinal, o nome condizia com a relação do meu avô com o solípede. Eram sócios. Vida em comum em longas viagens pelas províncias beirãs. Havia que tratar da existencialidade de cada um. As jornas do meu avô Joaquim Matos Rolo eram, não raras vezes, longe de casa uma semana. Da madrugada de domimgo para segunda até ao sábado seguinte. Às 2 da manhã já o "Sócio" estava despperto para sair com o seu sócio.
O "Sócio" andava junto à veredas dos caminhos. Os passos das 4 patas ferradas eram curtas mas rápidas. O meu avô, Joaquim Matos Rolo tanto acompanhava o "Sócio" a pé, como subia para o dorso, instalando-se na albarda para dar uma trégua às pernas vigorosas. Nessas malas Vitton para burros, mulas e cavalos, os tecidos não vinham de Milão ou das Amoreiras ou de qualquer outra loja das vaidadades. Os alforges eram urdidos de roupa velha, trapos já gastos e em desuso. Neles, além de ferramentas para o trabalho que o esperava de sol a sol, transportava-se merenda para uma semana. Pão de trigo amassado pela minha avó Rola e cozido no forno comunitário da aldeia, chouriço, toucinho e o que mais fornecia o porco criado ao longo do ano na furda, queijo, azeitonas e a cabaça do vinho da loja do ti Periquito.
O "Sócio", como toda a família de muares, são frugais. Carapetos, restolho, erva, praticamente todo o vegetal o alimenta, recebendo também alguns mimos pelo caminho, pêras, maçãs e ainda mais uns punhados de aveia, que o energizava como aquela gasolina com aditivos para dar potência ao motor. Um verdadeiro Mc Ervas sem Donald ou JeneSaisCus de emproados e pindéricas.
Sentado no "Sócio", o meu avô Joaquim Matos Rolo enrolava o tabaco de onça Duque na mortalha Touro. Passe a publicidade. Nessas viagens nocturnas brilhava apenas o borrão da pirisca entre os lábios do meu avô Joaquim Matos Rolo. O "Sócio", esse, tinha uns faróis mais potentes que os ledes dos burros mecânicos mais recentes, eléctricos, plug-in ou fósseis. Ao nascer do sol era preciso entrar ao serviço da natureza. O astro-rei era o relógio de ponto para os funcionários campestres, mais certeiro que os seus primos suíços. O "Sócio", com a tranquilidade típica de um asno 4x4, ia mordiscando aqui e ali enquanto o seu sócio naquela vida não dava por terminada a sua empreitada. Ceifa, apanha da azeitona, pedra. Já não conheci o meu avô Joaquim Matos Rolo a fazer carvão ou a vender loiça, mas assisti á compra do "Sócio". O negócio aconteceu na travessa entre a casa do meu avô e casa do tio de um primo meu. Não foi num stand de carros de luxo ou num stand manhoso. O vendedor era um cigano que exaltava as boas, excelentes, qualidades do "Sõcio". O meu avô Joaquim Matos Rolo examinou minusiosamente a suspensão, o chassis e a carroceria do "Sócios". Apalpou-o à procura de um corte no pêlo que avivasse o animal quando se toca nessa ferida camuflada, como na cidade se tenta descobrir massa na chapa coberta de tinta na carroceria de um automóvel em segunda mão, impimgido por um vendedor de banha da cobra. O exame final ao "Sócio", antes de se concretizar o contrato, centrou-se ne dentadura bem visível e melhor conservada do monocasco que abanava a cauda para sacudir as moscas na tarde quente de Setembro. Neegócio fechado. O cigano levou o velho e acabado ex-sócio do meu avô Joaquim Matos Rolo e mais 9 notas (900 escudos em dialecto local) e levou o novo sócio, o "Sócio" para a sua residência, um chalet de um piso, com sala de jantar na manjedoura, sala de estar e casa de banho na espessa camada de palha que aconhegava o solípede.
Também seria difícil alguém enganar o meu avô Joaquim Matos Rolo neste negócio. Na sua juventude, este meu inesquecível e douto antepassado cumpriu o serviço militar na arma de Cavalaria, tendo sido colocado no Regiimento de Lanceiros 2, em Lisboa, Regimento de Cavalaria 1, em Santarém, e Regimento de Cavalaria de Elvas. Aconteceu no clima em polvorosa da I República e foi interveniente, entre outros, nos graves distúrbios após a morte a tiro do presidente Sidónio Pais, na estação ferroviário do Rossia, em 14 de Dezembro de 1918. Ainda o "Sócio" não era nascido.
A I Guerra Mundial cessara no mês anterior, no dia 11 âs 11 da manhã, o que evitou a mobilização do meu avô Joaquim Matos Rolo para os campos de combate mortíferos da Flandres. Sem o "Sócio".
Naquela época conturbada da vida portuguesa, o meu avô acabou, finalmente, o serviço militar. Passou à disponibilidade em Elvas e, à falta de transportes entre aquela cidade e a sua aldeia, palmilhou durante alguns dias os mais de 100 kms a pé, com as botas do espólio da tropa ao ombro para não as gastar na longa caminhada.
Em 1900 e 20 e tal, enamorou-se da que seria minha avó, Maria Rola, apesar de a minha bisavó, que ainda chegou aa andar comigo ao colo, não aceitar de bom grado o enlace. "Ai de ti se não tratas bem a minha Rolinha", ameaçava a matriarca da família. Cumpriu.
Não apanhei, como disse, a fase em que o meu avô Joaquim Matos Rolo esteve envolvido no trabalho numa herdade, a Espadaneira, e também na fase em que andou no carvão e a vender louça. Por essa altura era a minha Tia Luísa, a sua segunda filha, quem ia com ele até aos confins da Terra Fria das Beiras. Ainda sem o "Sócio".
Em 1947, o meu avô Joaquim Matos Rolo construiu a sua casa à força de braços. Suou a partir xisto para as paredes. Depois de concluído após meses de trabalho e uma intervenção importante do meu Tio António, as pessoas vivenciavam no primeiro andar e no piso térreo o espaço era destinado aos seus sócios ferrados,, os companheiros de trabalho, que ainda não o nosso "Sócio" desta história. Carimbou a edificação na pedra com as suas iniciais JMR - 1947, as quais ainda hoje se podem observar para recordar aos menos memoriados quem ali habitou como dono e senhor até...
Nada é eterno.
O meu avô, Joaquim Matos Rolo, adoeceu e faleceu no dia 8 de Outubro de 1972. Recebi a triste chamada telefónica em casa dos meus pais, quando acabava de chegar de um jogo de futebol em que o Benfica venceu o Sporting por 4-2. A família partiu logo de seguida para a Beira Baixa no carro do meu pai. Eu fui de combóio com o meu primo João Rolo e tivemos uma série de aventuras e desventuras pelo caminho, de modo que o funeral só se realizou à noite, com candeias e velas a ilumiar o caminho até à sua última morada, féretro acompanhado pelos Irmãos da Misericórdia. O "Sócio", nas suas aconchegadas instalações por trás da casa, sentiu o momento em que nunca mais veria o seu sócio, Joaquim Matos Rolo. Quebrara-se o elo e a sociedade entre dois dedicados sócios inseparáveis durante tantos anos. Desta vez a voz de burro chegou ao céu. De forma nítida. Um zurrar pungente. De dor.
Eu e o meu primo João substituímos o "Sócio" ao puxar o armão com o caixão até ao cemitério. Os dois netos machos mais velhos fizeram o que lhes competia na última homenagem ao prezado avô Joaquim Matos Rolo. Levaram-no até à sua eterna morada. O "Sócio", esse companheiro de tantos anos, acabou os seus dias na paz e sossego na quinta da minha tia Emília, a filha mais velha do meu avô Joaquim Matos Rolo.
Aconteceu em Alcafozes, Beira Baixa, com o Ti Estroina e o "Sócio".


Não é o "Sócio" mas é parecido...

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

TRIGO E GADO ALIMENTAM ALCAFOZES

 Apesar da sua reduzida dimensão e população existem na história de Alcafozes casos bastante curiosos. Um deles, que me chamou mais a atenção e só agora descobri, existiu uma confraria na povoação, da qual não se sabe da existência de qualquer registo. Esta suspeita alicerçou-se quando se efectuaram obras em algumas obras na aldeia, mais propriamente em três habitações com passagem interior entre si. Os donos dessas habitações, João Páscoa, o proprietário da venda antecessora das actuais "lojas dos chineses", onde se negociava de tudo, desde alfinetes até charruas, enxadas e picaretas, além de ser ali o único telefone durante muitos anos, com "franchising" da Singer  e correspondente do jornal "O Século". As outras duas casas da persumível confraria pertenciam ao Ti Faia, o dono de uma concorrida tasca, e a outra do Ti Bernardo, o barbeiro, enfermeiro e ainda sacristão. No celeiro junto a estas três casas descobriu-se uma cisterna, que fornecia água aos frades e freiras. Tudo isto perdeu-se, infelizmente, perdeu-se na memória do tempo. 
A implatação da República, em 5 de Outubro de 1910, fez estremecer as estruturas da terra. Houve uma divisão entre republicanos e monárquicos e a própria família Franco, a latifundiária dominante buscou refúgio em Espanha. Aconteceram as inevitáveis discussões mas não se entrou em confronto físico. A vida rude não permitia deixar que o dia-a-dia acentuasse a pobreza de 99,9% da aldeia. Em meados do século XIX cerca de metade do trigo era importado dos Estados Unidos, situação que agravava a balança de comércio de Portugal com outros países. A partir de 1820 houve um incremento da produção nacional e em redor de Alcafozes um número incalculável de azinheiras e outras espécies foram derrubadas para as juntas de bois e a lâmina das charruas rasgassem os terrenos para sementeiras de maior dimensão. Era a chamada Lei da Fome, de 1889, a tentar que o país fosse suficiente e m cereais. Neste início do século XX, moinhos e azenhas eram as "máquinas" das quais se retiravam preciosidades como a farinha e o azeite, Os sobreiros proporcionaram a recolha de milhares de tonelasas de cortiça e a lã das ovelhas tosquiadas também atingiam quantidades apreciáveis. A produção de linho também se revelava produtiva. 

Até à implantação da República , o Cabeço das Taipinhas, onde se encontra a Capela da Senhora do Loreto, e outros terrenos em redor eram de uso público para o gado pastar livremente. A I Guerra Mundial levou para as trincheiras de França muitos homens de Alcafozes, cujos nomes merecem ser recordados: Joaquim Braga, António Nunes, Joaquim Morgado, José Pedro, Joaquim Garnacho, João Brito, José Videira e Nuno Robalo, o célebre Perra da concertina, que regressou sem um braço. Todos os outros voltaram sãos e salvos.O sino da torre da aldeia, colocado quando foi construída a torre, em 1883, mais de um sécuço depois da igreja, saudou-os quando voltaram da Flandres. Apesar das carências devido ao conflito mundial, a agricultura em Alcafozes manteve-se a um nível sustentável dentro das dificuldades existentes de miúdos descalços a correr pelas ruas a fazer recados à família ou a ajudar os mais velhos no pastoreio, apanhar lenha e outras tarefas. O ferreiro da povoação, com a fornalha vermelha como o inferno empenhava-se em dar à luz ferramentas para os mais diversos labores e utensílios agrícolas.
Em 1914, os republicanos "absolveram" os monárquicos refugiados em Espamha, França, Bélgica, Brasil, Inglaterra e permitiu-lhes o regresso a Portugal. Assim, a família da Casa Franca voltou às rédeas dos seus latifúndios em Alcafozes. A necessidade de maior facilidade de transporte trouxe um serviço de táxi, propriedade de José Esteves Remédios, e uma singular bomba de gasolina. Também começou a fazer-se por camioneta da carreira, entre Alcafozes e Idanha-a-Nova pelos 13 kms de uma estarada de terra e pedras, que levantava uma poeirada imensa quando o veículo da empresa Martins-Évora fazia o trajecto. Quando a aviação comercial começa a despontar, a Força Aérea está em evolução e já conhece a veneração pela "Senhora do Ar"  um grupo de alcafozenses liderado pelo Sr. Joaquim Marques  conseguiu tomar conta do terreno em volta da igreja, em nome de Nossa Senhora do Loreto, cujas festas com o sobrevoo de aeronaves Corsair da FPF, aconteceriam a partir de 1957.
 

Tapada de Alcafozes com vista para Monsanto

sábado, 1 de fevereiro de 2025

A "SENHORA DO AR" RECONHECIDA COMO PADROEIRA

 A 24 de Março de 1920, na festa do Arcanjo S. Gabriel – o mensageiro de Nazaré -, o Papa Bento XV, acedendo ao desejo do Clero, declarou a Santíssima Virgem do Loreto, Padroeira Universal da Aviação. Em 12 de Setembro desse mesmo ano, os aviadores reuniram-se em massa na Basílica de Loreto e fizeram, oficialmente, a consagração da sua Padroeira. No ano seguinte, a imagem foi destruída por um incêndio e, em 1922, o Papa Pio XII benzeu a nova imagem da Virgem do Loreto, não muito diferente da anterior. Em Portugal, os contactos com gentes de Itália realizavam-se desde a fundação da nacionalidade, inclusive o primeiro Rei de Portugal, D.Afonso Henriques, casou com D. Mafalda de Sabóia, e, ao longo dos séculos, as relações foram constantes. No século XV, mercê da decadência do comércio entre as repúblicas italianas e o Oriente, devido à presença muçulmana na Palestina, começam a surgir na Península Ibérica, nomeadamente em Portugal, comunidades de italianos, não só navegadores e especialistas na arte de marear, mas também comerciantes e outros. D. Dinis contratou o genovês Emanuele Pessagno para almirante em 1317, as famílias Perestrelo e Spínola de origem genovesa, assim como Cristóvão Colombo, e todos se estabeleceram em Portugal. Lisboa enche-se de ricos comerciantes e a comunidade dos italianos teve permissão real para construir, em 1518, o primeiro templo de invocação a Nossa Senhora do Loreto, templo esse totalmente reconstruído no século e, novamente, depois do Terramoto de 1755, tendo resistido as paredes-mestras e a sacristia. O culto foi-se espalhando por algumas povoações. 

Com o advento da aviação após a Primeira Guerra Mundial, e por acção do Clero e de aviadores sensibilizados com o milagre da «Casa Voadora», a 25 de Março de 1920, na festa do Arcanjo São Gabriel, o Papa Bento XV proclamou «A Santíssima Virgem do Loreto, Padroeira Universal da Aviação». A 12 de Setembro desse mesmo ano, os aviadores reuniram-se em missa na ano seguinte, a imagem foi destruída por um incêndio e, em 1922, o Papa Pio XII benzeu a nova imagem da Virgem do Loreto, não muito diferente da anterior, e ela foi acompanhada por aviadores no percurso entre a Capela Sistina e a Basílica de Loreto, onde chegou a 8 de Setembro. Foi no dia 14 de Agosto de 1926 que se iniciou oficialmente o culto a Nossa Senhora do Ar, como pradoreira da aviação em Portugal, com uma celebração eucarística na Capela da Granja do Marquês, onde a imagem foi colocada no trono do altar principal. 

A 19 de Dezembro de 1959, o Governo de Salazar, com especial recomendação de D. Manuel Gonçalves Cerejeira, Cardeal Patriarca de Lisboa e Ordinário Castrense, determinou que todas as capelas da Força Aérea de Portugal são dedicadas a Nossa Senhora, onde é venerada uma sua imagem que representa a sua gloriosa assunção. Os aviadores  chamam-lhe ‘Nossa Senhora do Ar e uma delegação desloca-se à Santa-Sé a rogar a graça da declaração de “Nossa Senhora do Ar” como Padroeira Nacional da Força Aérea Portuguesa.Quando a aviação comercial começa a despontar, a Força Aérea está a evoluir e há um grupo de alcafozenses – do qual se destacou, pelo seu dinamismo, o Sr. Joaquim Marques – que depois de muitas démarches consegue não só obter terreno em volta da capela, para ser realizada uma procissão campal com o apoio do p.ároco António Costa, como, e mais importante, que a cerimónia religiosa campal fosse sobrevoada por aviões da Força Aérea. Importa destacar o papel do então comandante da Base Aérea de Alverca, coronel Mira Delgado e o do tenente-coronel Kaulza de Arriaga, subsecretário de Estado da Aeronáutica que, em 1959, inaugurou os melhoramentos do altar-mor juntamente com o general Carlos Costa Macedo. Autoriza-se que em 1957 a procissão seja sobrevoada por diversos aviões da Força Aérea. 



quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

A CASA DA SAGRADA FAMÍLIA DA VIRGEM DE LORETO

 Antes de chegar a Alcafozes, a imagem de Nossa Senhora do Loreto passou por Lisboa. Há duas hipóteses de a aldeia da Beira Baixa  ver no seu território a santa que não foi santas, mas antes a Casa da Sagrada Família. Ou partiu da capital numa época em que havia muitos "italianos" (a Itália só se unificou no século IXX) ou entrou pela fronteira de Espanha, já que a aldeia de Alcafozes se encontra apenas a uns poucos quilómetros dos nossos vizinhos. É possível que um tal Capello, de origem "italiana" tenha sido o autor dessa veneração à Virgem da Casa Voadora, uma vez que há registos dessa família em Alcafozes desde o século XVII, onde desempenharam cargos de importância laica e religiosa. 
Por essa altura, o orago de Alcafozes era São Sebastião. Este santo era um soldado do exército romano por volta de 283 D.C. com a única intenção de afirmar o coração dos cristãos, enfraquecido diante das torturas. Era querido dos imperadores Diocleciano e Maximiano, que o queriam sempre próximo, ignorando tratar-se de um cristão. Designaram-no capitão da sua guarda pessoal, a Guarda Pretoriana. Por volta de 286, a sua conduta branda para com os prisioneiros cristãos levou o imperador a julgá-lo sumariamente como traidor, tendo ordenado a sua execução por meio de flechas, que se tornaram o símbolo da sua iconografia. . Foi dado como morto e atirado para um rio. Mas Sebastião não falecera.
Encontrado e socorrido por Irene, depois Santa Irene,
 apresentou-se novamente diante de Diocleciano, que ordenou então que ele fosse espancado até a morte. O seu corpo foi atirado para o esgoto público de Roma e e Luciana, mais tarde Santa Luciana, cujo dia é comemorado a 30 de Junho, resgatou o seu corpo, limpou-o, e sepultou-o nas catacumbas. 

Alcafofozes do século XVII era também devoto ao Espírito Santo e a Santo António quando comeou, não se sabe como,a devoção a Nossa Senhora do Loreto. Antes disso, em Lisboa, A igreja, também chamada Igreja dos Italianos foi elevada por D. João V em 1518 para acolher os muitos italianos, principalmente venezianos e genoveses, comerciantes em Lisboa. A igreja depende directamente da Santa Sé e é sufragânea da arquibasílica de São João de Latrão. Voltando aos Capello e a Alcafozes, uma das referências mais substantivas é a de um tal Agostinho Capello, um juiz-desembargador no Rio de Janeiro, que esteve ligado à expulsão dos jesuítas do Brasil e quando regressou a Portugal integrou a Ordem de Cristo, tendo falecido em Alcafozes em 1767, sendo sepultado na igreja de São Sebastião. 
A Capela de Nossa Senhora do Loreto foi construída, segundo algumas fontes, em 1775, muito antes da família Capello se miscegenar com outras famílias poderosas da região, como os Franco Frazão, da Capinha, os Marrocos, de Idanha-a-Velha e os Manzarra, de Idanha-a-Nova. Por essa altura, no entanto, já se realizavam festas em honra de Nossa Senhora do Loreto, existindo duas datas espaçadas no tempo, para este evento, 1828 e 1888. É muito possível que ambas estejam certas, diferenciando-se apenas pelo modo como eram feitas e organizadas pelo povo. 
O culto por Nossa Senhora do Loreto foi evoluindo para patamares mais marianos e ao mesmo tempo mais profanos e festivos para o povo, deixando, a pouco e pouco, esmorecer as festas em honra do Espírito Santo e do Santo António. A Casa da Sagrada Família, representada pela Virgem de Loreto, expandiria a sua devoção e peregrinação, ao ponto de se sagrar como a data mais importante da aldeia de Alcafozes.


Pintura de Tosaco da Capela da Senhora do Loreto


quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

O MISTÉRIO da SENHORA do LORETO

 As revoluções liberais, de 1820 a 1824, não afectou Alcafozes, em termos militares, que recuperava ainda dos saques e destruição das Invasões Napoleónicas. O povo, atarefado com estas tarefas de reproduzir o gado, fazer as sementes de trigo e outros cereais e colher a azeitona, além de reconstruir o que tinha sido maltratado pelos soldados franceses e seus aliados 
Numa data que terá sido ligeiramente anterior a 1775 surgiu, segundo algumas versão, uma imagem de uma santa no restolho do Cabeço das Taipinhas. A imagem foi, não se sabe como, denominada Nossa Senhora do Loreto e, após uma série de investigações, a capela poderia ter ser erguida mais ou menos em 1775. Ainda se aventou a hipóteses de a imagem da santa ter sido abandonada ou perdida durante as Invasões Francesas, mas o facto destas acontecerem entre 1807 e 1810,, o que desfaz temporalmente essa teoria. 
A Senhora do Loreto é um mistério dentro de um mistério, uma espécie de matrioska  de enigmas. O que apurei na Enciclopédia dos Visitante Católicos, de Itália, a virgem na prática nunca existiu. A Igreja Católica reserva a santidade a pessoas que passam pelo processo de beatificação ou, como sucede com Nossa Senhora de Fátima, a uma apariçáo. A Senhora do Loreto não se enquadra neste parâmetros, mas  a fé pela sua imagem, elaborada desconhece-se por quem, antes tem a sua origem numa casa. Não uma casa qualquer, obviamente, mas a casa onde o anjo anunciou a Maria que iria ser mãe de Jesus. Portanto, não havendo uma personagem ou uma aparição, existe um milagre que, esse sim, se pode considerar algo de transcendente. 

A história, segundo a Igreja Catõlica, baseia-se na Santa Casa da Localidade de Loreto, que "voou", transportada por anjos, desde a sua localização original, em Nazaré, actual Israel, primeiro para Tersatz, na Croácia de hoje, onde esteve três anos, e no dia 10 de Dezembro de 1294, a Santa Casa foi de novo levantada e levada por anjos para um bosque de loureiros, em Loreto, nas imediações de Recanati, em Itália. Estas deslocações devido à invasão da Terra Santa pelos muçulmanos, em 1291. O povo dessa aldeia começou a fazer peregrinações à Casa da Sagrada Família. Esse movimento esteve na origem da deslocação de quatro especialistas a Nazaré, ao local de onde tinha "voado" a modesta construção. Ali chegado fizeram a medição dos alicerces, os quais, sem explicação plausível, tinham exactamente as mesmas medidas da base da casa que aparecera em Tersatz, na Dalmácia, junto ao Adriático. Estes alicerces estão actualmente na Basílica da Anunciação, na cidade israelita de Nazaré, de onde "voou" para os dois referidos locais. 

Outros historiadores menos crentes afirmaram que a Casa da Sagrada Família foi transportada de barco pela família Ageli. De uma maneira ou outra, os arqueólogos confirmam que as pedras onde estava assente em Nazaré e comparadas com as pedras da consturução em Loreto são exatcamente iguais. Em 1310, o Papa Clemente V emitiu uma Bula Papal que concedia indulgência aos peregrinos. Na mesma altura, alguém esculpiu uma estátua com a Virgem e o Menino, que ficou negra devido ao fumo das velas, ficando, desde aí, conhecida como a Virgem Negra, A Casa da Sagrada Família inspirou a construção de três basílicas, uma em Nazaré e duas em Itália, a mais recente ordenada pelo Papa Sisto V e contém uma riqueza inestimável de obras de arte e arquitectura do Renascimento. Foi visitada por figuras eminentes, como Mozart, Descartes, Galileu, Cervantes e os santos Inácio de Loyola, Carlos Borromeu, Teresa de Lisieux, Frances Xavier Cabrini, Louis de Montfort, François de Sales e João Paulo II. 


A Casa da Sagrada Família transportada pelos anjos. 

 

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

A MISÉRIA DEPOIS DAS INVASÕES

 Alguns bispados, como o de Coimbra, mandou logo após aviso Régio de 25 de Março de 1811, ainda os Franceses estavam na região da Guarda, fazer o levantamento do rasto da destruição que os Franceses deixaram atrás de si. Sucederam-se as epidemias, a fome e os assassínios, acompanhando as vagas de órfãos e de desalojados. Quando regressavam às casas, as populações viam a destruição e os campos incultos, sem sementes sequer para renovar as culturas. Os párocos não incluem os mortos em combate do exército regular, nem da guerrilha e muito menos dos Franceses. Só registam os civis das suas paróquias, acometidos pelos Invasores. Nem sempre referem todos os mortos que sofreram maus tratos, ou mortos causados pela epidemia. Há um número do Bispado de Coimbra, que nos dá uma ideia fria do sucedido: na Figueira da Foz, onde não houve crimes porque os Invasores não passaram pela cidade, morreram 4.135 indivíduos por doença, entre naturais e refugiados.

Não se sabe ao certo quantos óbitos causaram as forças francesas na população de Alcafozes. Na altura da I Invasão, a aldeia tinha cerca de 700 habitantes e estava em franco progresso depois das pestes e da Guerra dos Sete Anos. Mas com os saques do esfomeado exército de Junot, primeiro em 1807, e de Massena, em 1810, muitos aldeões deixaram Alcafozes e pela calada da noite refugiaram-se em Idanha-a-Velha, por esses tempos uma povoação em declínio e sem nada que pudesse alimentar as esfomeadas tropas naoleónicas após uma terrível e esgotante passagem por Espanha. É curioso, no entanto, que no intervalo que mediou entre a I e a III Invasão haja registo de um casamento em Alcafozes, de Joáo Esteves Barbado com Remedia, ambos naturais da terra, no dia 1 de Novembro de 1808. Por essa altura os combates desenrolavam-se no Norte do país e essa pequena trégua permitiu uma ligeira retoma na vida normal aos seus habitantes. 

No entanto, as carências eram demasiado severas em Alcafozes na sequência dos saques. O gado foi quase totalmente roubado pelos exércitos napoleónicos e até os grãos faltavam para as sementeiras porque os soldados necessitavam deles para fazer o seu próprio pão. Os bens sacros da Igreja de São Sebastião foram levados, assim como os das capelas da Misericórdia e do Espírito Santo, enquanto a capela de Santo António foi incendiada pelo tropa francesa em retirada, depois de um confronto com os cavalaieros portugueses do Regimento de Cavalaria 1 e das milícias que se formavam por todas as povoações, sedentas de sangue e de vingança. Esta crise social era agravada, como se fosse possível ser ainda pior, pela táctica da "terra queimada" imposta pelos exércitos ingleses e portugueses para os inimigos franceses não poderem encontrar qualquer espécie de comida. Caso para dizer que uma desgraça nunca vem só.

Em 1813, afastada a ameaça da Guerra Peninsular para território espanhol. o padre João António Tavares, vigário da Igreja de São Sebastião começa a colher o dinheiro da côngrua, a dádiva essencial para manter a paróquia, em 6 de Setembro deste mesmo ano. Mas o que recolher depois de tanta miséria se ter abatido sobre uma aldeia com fome, ainda assustada, pilhada, com casas em ruínas, salvando-se aquelas em que os soldados se aboletavam. Os naturais da aldeia regressavam a pouco e pouco dos seus esconderijos inalcancáveis pelo d inimigo externo e deitavam mão à recuperação de Alcafozes, onde a esperança de vida, com tanto infortúnio, não atingia os 40 anos e muitas mulheres morriam ao dar à luz e metade das crianças não atingirem os 5 anos de idade. O socorro dos vizinhos de Medelim, Zebreira, Rosmaninhal e outros lugares não se podiam contar com ele porque também essas poviações se encontravam devastadas. 
Era preciso recomeçar uma nova existência... 


Reprodução da autoria de Tosaco do incêndico da Capela de Santo António

domingo, 26 de janeiro de 2025

ALCAFOZES SAQUEADA por FRANCESES E ALIADOS

 A primeira vez que Alcafozes se via envolvida na Guerra Peninsular foi durante a I Invasão Francesa, em Outubro de 1807, quando o exército de Junot, composto por gauleses, espanhóis, alemães das legiões de Hannover, Baviera e Prússia, polacos da Legião do Vístula, italianos de Nápoles, suíços e irlandeses, entrou pela fronteira de Segura, seguiu por Salvaterra do Extremo, Idanha-a-Nova e Castelo Branco. Como era comum nessa época, um exército não marchava numa coluna única. À frente seguiam os batedores, depois o corpo principal de infantaria, a artilharia e, por fim, a intendência. Isto enquanto a Cavalaria protegia os flancos e dedicava-se à pilhagem.

Exaustos e famintos pela longa caminhada através dos mais de 650 quilómetros de uma áspera e rude Meseta Ibérica, os soldados pilharam as colheitas e o gado de toda a Beira Baixa e Alcafozes não escapou ao saque dos grupos de tropa vindos pelas Termas de Monfortinho. A aldeia ficou sem gado, sem pão, sem carne da matança do porco e quem resistiu foi abatido, muitas mulheres violadas e a Igreja de São Sebastiáo profanada, santos quebrados, livros de registos de óbitos, casamentos e baptizados queimados e as preciosas peças de arte sacra roubadas.
O bispo de Castelo Branco, D. Vicente Ferrer da Rocha, acedeu, obedecendo a ordens do rei exilado no Brasil, a oferecer alimentos a Junot e aos seus oficiais, além de fornecer cabeças de gado, pão vinho e tudo o que foi pedido. Mas, ao mesmo tempo, já os franceses roubavam conventos, igrejas e casas particulares. Os primeiros actos de revolta não tardaram a manifestar-se. No dia 20 de Novembro em Idanha-a-Nova, o exército deixou muitos doentes no Hospital. O povo, logo que a coluna principal inimiga deixou a vila, atacou o hospital, trazendo um grande número de franceses para a rua e lançou-os do alto da serra sobre o rio Pônsul. Há relatos de ataques aos soldados mais atrasados das colunas, ataques sem piedade conduzidos por guerrilheiros emboscados nos montes e nos matos. Aliás, segundo historiadores franceses, as guerrilhas formaram-se mais cedo em Portugal do que as "guerrillas" em Espanha
A chegada de novos soldados implicava sempre a recolha de mais alimentos, para homens e cavalos, roupas e calçado para as tropas, para além dos animais confiscados. Os homens fugidos atacavam os soldados que se atrasavam ou se perdiam das colunas. Toda a Beira Baixa viveu o inferno durante os meses das I e III Invasões Francesas e Alcafozes também não escapou aos roubos. O Fundão foi saqueado durante meses, a população de Alpedrinha quase toda massacrada. O juiz e o padre do Fundão formaram uma milícia e reagiram com ataques furtivos aos grupos de soldados isolados.
Quando o general inglês Beresford reorganizou o exército nacional, após este ter sido desmantelado por Junot e dez mil homens terem formado a Legião Portuguesa do Marquês de Alorna e apenas 100 deles sobreviverem à campanha da Rússia, veio buscar voluntários região de Castelo Branco. Na inversa, muitos desertores ou soldados franceses doentes acolheram-se em Portugal. Aqueles que não foram mortos pelas inúmeras milícias populares assentaram e fizeram família em múltiplas povoações portuguesas, mas também muitos prisioneiros portugueses foram obrigados a trabalhos forçados em França ou a secar pântanos na Holanda.

As invasões francesas saqueram Alcafozes e trouxeram a morte e a fome

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

O PROGRESSO DE ALCAFOZES e o FUTURO SOMBRIO

 Após o terramoto de 1755, que destruiu grande parte de Lisboa e fez estragos de monta no Algarve, a região da Beira Baixa, como em praticamente todo o pais e outras cidades da Europa, náo foi muito afectada pela tragédia que mudou a relação do modo de viver com a natureza do povo com a religião. 
Alcafozes não seria, por isso mesmo, grandemente afectada pelo desastre sísmico, como, aliás, a zona do interior beirão. O documento mais importante  referente à aldeia é o inquérito que o Marquês de Pombal manda fazer a todas as paróquias do reino, ao qual, no caso de Alcafozes, o Vigário Vicente, da Ordem de Cristo, responde, em 1759, que Alcafozes possuía 115 fogos e 354 habitantes e que era termo da vila de Idanha-a-Velha, outrora cidade romana e visigótica. O vigário descreve a igreja como sendo a actual iggreja matriz e em que terão existido intervenções que demoraram anos até à sua configuração definitiva, entre 1796 e 1801 O seu orago é São Sebastião e pertencia ao bispado da Guarda, depois deste sair de Idanha-a-Velha. Por essa altura erguia-se a parte urbanística da urbanização do morro de São Marcos, embora coexistindo com palheiros, e a capela do Espírito Santo, datada de 1594, um ano depois da funcaçáo da Irmandade da Misericórdia de  Alcafozes. As primeiras festas mais ou menos oficiais dedicadas ao Espírito Santo datam de 1713. depois da Quaresma e da Páscoa.Os festejos na Capela de Santo António teriam surgidi antes, mas sem data definida, e a Nossa Senhora do Loreto inaugurou a sua capela em 1775 e o início dos festejos anuais, no final do Verão, em 1828. . Curiosamente, as capelas situavam- -se em locais estratégicos: a do Espírito Santo, na saída da aldeia para Idanha-a-Velha; a de Santo António, no sentido do Santuário de Nossa Senhora do Almortão e portanto de Idanha-a-Nova; e a do Loreto na direcção da Granja de São Pedro, que fora outrora local de peregrinação, 

A justiça, apesar do controlo dos latifundiários, rendeiros e capatazes era aplicada por um juiz de fora que residia três meses em Alcafozes, três meses em Idanha- -a-Nova e três meses em Proença-a-Velha. Surgem em documentos ofiiciais o nome de  Agostinho Felis dos Santos Capelo, juiz desembargador no Rio de Janeiro. Agostinho Capelo, cuja família era abastada e lhe permitiu tirar o curso de Direito em Coimbra, foi juiz em várias comarcas, nomeadamente no Porto e em Salvador, no Brasil. O Marquês de Pombal incumbiu-o, juntamente com outros, de fundar no Rio de Janeiro o primeiro Tribunal da Relação do Brasil. Agostinho Capelo esteve ligado à expulsão dos jesuítas do Brasil, assim como ao arresto dos seus bens; casou no Brasil, regressou a Portugal e integrou a Ordem de Cristo, tendo falecido em Alcafozes em 1767 e sido sepultado na igreja. Agostinho Capelo é apenas um exemplo desta família abastada com várias outras personagens Capelo que são formados em Direito ou têm cargos militares ou religiosos que se miscegenaram com outras famílias poderosas de Alcafozes e povoaçóes em redor, vindo alguns dos novos habitante da vizinha Espanha. 
Mas dias sombrios de aproximavam... 


Igreja Matriz de São Sebastião.
 



domingo, 19 de janeiro de 2025

AS FESTAS DO ESPÍRITO SANTO PARA DESANUVIAR DO DIA-A-DIA

 Após um declínio de vários séculos, especialmente após a invasão muçulmana, Idanha-a-Velha foi integrada na freguesia de Alcafozes, irmandade que durou até ao ano de 1932, por iniciativa de António Pádua e Silva Leitão Marroco. Desde há muitos anos, séculos XVII e XVIII que as famílias Franco, Manzarra e Marrocos se instalaram na zona de Alcafozes, Idanha-a-Nova e Idanha-a-Velha e muitas outras terras limítrofes. Senhores de uma pseudo nobreza de privilégios os casamnetos entre os seus membros originou que preticamente a totalidade daquela vasta área ficasse sob o seu domínio. 
A invasão franco-espanhola desta zona da Beira na sequência da Guerra dos Sete Anos mobilizou uns quantos homens de Alcafozes para o Terço de Infantaria Auxiliar de Castelo Branco e o desenvolvimento que vinha conhecendo a aldeia estagnou durante uns tempos até a paz restabelecer de novo a actividades de artesões, camponenses e agricultores.  

Alcafozes na "concha" que acaba por ser o seu ex-líbris

A aristocracia daqueles vastos domínios da Beira Baixa viu entrar no seu seio uma filha de Alcafozes, D. Joana Lopes Leitão, em Alcafozes, no dia 24 de Abril de 1758, na recém-construída Igraja de São Sebastiao, com Manuel Fernandes Ferreira, natural de Medelim, que deram à luz um rapaz.
Por esta altura a relativa evolução de Alcafozes, desde que os seus limites deixaram de ser a Rua Velha e o Cruzeiro de 1631, ao lado da igreja de Sâo Sebastião desde a sua construção, baseava-se na agricultura controlada pelos rendeiros dos comendadores Marrocos, Manzarra e Franco, no azeite e os cereais, nomeadamente o trigo começara, a adquirir uma razoável dimensão, com os arados já mais eficazes pela perícia dos ferreiros. a feitura de cadeira, arcas e cantoneiras rústicas e as inevitáveis carroças para transportes de todo o tipo de carga, desde palha para aforrar até pedra para construção. Os cortejos fúnebres eram na sua maioria acompanhados pela Irmandade da Misericóridia, cuja existencia ascendia a uns anos antes da construção da capela, em 1594, no Monte de São Marcos. As festas mais populares da aldeia eram dedicadas ao Espírito Santo e há relatos que se realizaram com efectiva exuberancia desde 1713, com cerimónias religiosas e diversões mais profanas, como as largadas de touros ou vacas, cedidos pelos senhores da terra, e corridas à "vara larga". Por umas horas, um dia ou dois o povo esquecia as agruras do dia-a-dia. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

OS NOVOS "SENHORES" DE ALCAFOZES

 O país e, consequentemente, Alcafozes passaram por uma metamorfose social e política com a secularização da Ordem de Cristo pela bula do Papa Julio III. Os terrenos, até então às ordens religiosas passaram para a coroa portuguesa com o rei D. João III. Até então, a população prestava contas e ofertava alimentos e gado ao Mestre da Ordem à qual estavam ligados territorialmente. Depois desta reforma, a terra passou para a administração de comendadores que as alugavam a rendeiros, os quais rapidamente amealhavam consideravam proventos de monta.  
Com esta modificação estrutural o modo de vida dos aldeões transformou-se com os novos senhores mais exigentes na exploração das propriedades. O século XVI viu, assim, uma nova espécie de feudalismo de face caridosa, em que os donos e senhores das terras toleravam os habitantes sob sua jurisdição como mão-de-obra para sustentar as "casas senhoriais".

A caridade em Portugal no século XVI no panorama europeu demonstrava uma especificidade muito própria. A acção régia na normalização das instituições de caridade nos seus territórios fez evoluir os hospitais, independente da escalada das Misericórdias em termos numéricos e funcionais. Assim, a caridade de cariz  meramente pessoal e as misericórdias  fundem-se  a partir do Conselho de Trento, que se possibilita a convergência de dois processos evolutivos inicialmente autónomos.  Essa cultura retirava das obras de misericórdia o termo caridade e baseava-se na apologia da esmola entendida como uma forma de libertar a alma da sua prisão.

Grande parte da população medieva vivia no limiar da pobreza. Bastava um mau ano agrícola, a passagem de um grupo armado destruindo culturas, roubando gados, aprisionando homens, uma qualquer epidemia e logo engrossava o rol dos pobres e carenciados. A Idade Média foi, também, por toda a cristandade, uma época de intensa caridade, baseada e impulsionada pelos preceitos evangélicos. Movimento caritativo e assistencial, estimulado pelo ideal de caridade e pobreza, aliado à sentida necessidade de garantir a salvação e enfrentar o dia do Juízo. No território que hoje é Portugal, especialmente nas zonas de maior densidade demográfica, mosteiros, igrejas, grandes senhores e particulares, fundaram diversas instituições para albergar e cuidar de pobres, enfermos, crianças abandonadas, viajantes e peregrinos. O movimento caritativo e assistencial acompanhou os primeiros povoadores da Beira Interior. Enquanto arroteavam campos, construíam casas e igrejas, estes fundaram e organizaram algumas instituições de caridade e assistência de que os documentos nos dão um pálido eco.
Na região em redor de Alcafozes chegaram famílias que se assenhorearam de vastos terrenos. Os Capello, os Franco Frazão (oriundos da Capinha), os Marrocos (estabelecidos em Idanha-a-Velha) e os Manzarra (assentados em Idanha-a-Nova). A grande maioria das gentes de Idanha-a-Velha e de Alcafozes laboravam para os Marrocos, cujos marcos indentificadores das propriedades ainda se podem ver em alguns locais. A estas alterações da intervenção na vida da aldeia, não deixa de ser curioso que o período de mais desenvolvimento urbano de Alcafozes tenha coincidido com a união de Portugal e Espanha sob a mesma coroa de Filipe III, entre 1580 e 1640. 


Casa senhorial em Alcafozes


terça-feira, 14 de janeiro de 2025

CRUZEIRO - A FONTEIRA DE ALCAFOZES EM 1631

  A saída da maiorida dos habitantes da decadente Idanha-a-Velha e a sua migração para a nova Idanha nos altos rochedos perto do Ponsul deixaram Alcafozes isolada num buraco cavado pela natureza entre os vários cabeços que dominam a paisagem, onde sobressaem as oliveiras e umas azinheheiras e umas minúsculas seaaras que asseguram uma subsistència pobre a gente dedicada, como sempre, ao gado, nomeadamente aos numerosos rebanhos de ovelhas e cabras, mais uns quantos suínos que vagueavam em buca do seu alimento favorito, a bolota. A vida, como já referi, era rústica e pautada pelas ordens das natureza, as sementeiras, as colheitas, as horas de iniciar a jorna ou o tempo de cear. A maioria das casas, embora com alguns palheiros erigidos a seguir ao Monte de São Marcos, onde nasceria a Misericórdia em 1740, eram partilhadas por pessoas e animais. A chamada "loja" no rés-do-chão para os burros e outra bicharada doméstica e ao lado ou no andar de cima a zona familiar, reunidada normalmente em redor de uma lareira onde cozinhavam, tomavam a ceia da noite e trocavam umas palavras acerca da numerosa prole, dos animais e haveres e umas novidades sobre a ti Fulana ou o ti Beltrano. 

As riquezas dos Descobrimentos e a união forçada com a Espanha, desde 1580, trouxeram algumas melhorias ao "modus vivendi" dos aldeões, embora nada comparável aos progressos das cidades principais do litoral ou das mais importantes do interior do país. Uma maior desaceleração da pobreza medieval proporcionou o crescimento de Alcafozes, desde a Rua Velha até ao limite do povoado, que se situava prescisamnte no cruzeiro de 1631. 
Embora continue sem dados específicos sobre alguma igreja ou capela nos séculos XVI e XVII, assim como de uma taberna, como lugar de convívio, sabe.se que o Vigário Gregório ia de Idanha-a.Velha a Alcafozes tratar das almas, mas não se sabe propriamente onde. Aliás, o referido Vigário estava dependente da Igreja de Idanha-a-Velha, então já absorvida pelo bispado da Guarda. No entanto, na história oral dos mais velhos de Alcafozes, ouvi, muitas vezes, há mais de 50 anos, que as tradições de festas, romarias, procissões e "corridas de touros" se perdiam na memória dos tempos. Portanto, algo teve de existir na "terra" muito antes das datas oficiais estarem registadas nos compèndios oficisais, 
Desconhece-se se além da Ordem de Cristo e, posteriormente, com a seculorização das zona houve por ali senhores que imposessem um regime orpressivo aos nativos de Alcafozes, embora quer a Rodem de Cristo quer a Coroa cobrassem os seus impostos. 
Anos após o foral concedido por D. Manuel a Alcafozes, em 1510, instalaram-se na zona alguns marinheiros "reformados" sobreviventes das campanhas das Descobertas [uma grande percentagem das tripulações eram beirões por serem homens de rija cepa] e, fosse qual fosse a ordem, começaram a instalar-se na zona uma família de origem italiana, os Capello, a família Franco Frazáo na Capinha, a família Marrocos em Idanha-a-Velha e a família Manzarra em Idanha-a-Nova, além de outras fora de uma vasta zona de Alcafozes. E aí outros tempos vieram, talvez mais repressivos por um lado e mais lucrativos e menos miseráveis por outro. Veremos.
  


Cruzeiro, o limite da aldeia em 1631, aqui com o madeiro de Natal a arder

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

O DIA A DIA MEDIEVAL SEM MISERICÓRDIA

Apesar de ter encontrado um documento oficial relativo a Idanha-a-Velha e Alcafozes datado de 1496, exsite um hiato de deois séculos entre a retoma de dados sobre a terra. Sendo o povoafo de mais ou menos 100 fogos e talvez 600 habitantes, não é crível que não tenha havido um único templo antes de 1740, quando foi erigida a Igreja de São Sebastião, o orago do povoamento, e a Capaela da Misericórdia. A História não o regista. Também a fundação da Misericórdia de Alcafozes não deixa de ser estranha pelo seu atraso em relação a outras de zonas próximas. Monsanto (1500), Proença-a-Velha (1500), Proença-a-Nova (1513), Castelo Branco (1514), Fundão (1516), Sertã (1530), Covilhã (1577), Ladoeiro (1581),  Vila de Rei (1581), Alpedrinha (1588), Álvaro (1597), São Vicente da Beira (1577), Oleiros (1578), Salvaterra do Extremo (1586), Sarzedas (1590), outras nos anos de 1600 e Alcafozes apenas em 1741. Já o cruzeiro nas imediações do adro da Igreja de São Sebastião foi plantada ali ainda antes, em 1631, época em que a coroa espanhola e portuguesas estavam unidas sob a coroa de Filipe III de Espanha. Não se entende que sendo o povo de então profundamente católico e veberando solenemente a Páscoa, mais do que o Natal, tenham surgido tão tarde as casas de Deus na aldeia. 
Uma das razões para este espaço espiritual parece à primeira vista em branco poderá ter a ver com uma segunda vaga virulenta de Peste Negra, por volta de 1500, que, mais uma vez se espanhou ela Europa, deixando um rasto de morte pelas cidades, vilas e aldeias, nomeadamente nos aglomerados mais numerosos e compactos. Em Paris, só para se ter uma ideia da tragédia, pereceram 60 mil almas. Mas Lisboa, e consequentemente Portugal, também viram uma percentagem de cerca de 1/4 da população atingida com elevado grau de mortalidade pela Peste Negra, Na capital portuguesa morreram 600 pessoas por dia e calcula-se que até ao seu final a espidemia deixou sem vida 60 mil pessoas. 
A Peste Negra terá feito as suas vítimas em Alcafozes, muitos sobreviventes terão ido para outros ares e daí este período de relativa estagnação no desenvolvimento da aldeia. No entanto, constinuo à procura de alguma casa santa que tivesse existido por esses anos em Alcafozes, a não ser que o povo rumasse em oração a Idanha-a.Velha, o que não é muito viável pela decadència da outrora grande cidade romana e visigótica, onde ainda se via imponente a catedral do Rei Wamba, o senhor da Beira Baixa. 

A alimentação em Alcafozes, na Idade Média, era pobre, aliás como em todo o país, excepto nos palácios nobres ou senhoriais, o que não era o caso desta terra. A média de vida era metdade da que hoje se verifica e aos 40 anos um homem era considerado velho. As exepções eram muito raras. As refeições eram rudimentares e perderam-se as receitas romanas requintadas, mesmo para a classe popular, obviamente sem banqueres de arromba. Pão, azeitonas, queijo, açordas ou migas, umas folhas de couve ba sopa, grão ou feijão com alguma gordura e umas lascas de queijo ou ovos da galinhas eram o "pão nosso de cada dia". O vinho não podia faltar aos homens e a miudagem contentava-se com uma malgas de leite de cabra com bocados de pão. Obviamente que nas casas da classe alta e nobre não faltava caça, corsos e faisões, mais o trivial, vaca, porco, carneiro, cabrito, galinhas patos, gansos, pombos, rolas e coelhos. Outras iguarias como as batatas, açúcar, especiarias, batatas e outras só chegariam após os Descobrimentos. Até lá, as bolotas alimentavam tanto os suinos como a populaçáo. 

Antes do raiar do sol inicivam-se os trabalhos agrícolas ou dos artesãos e também as lidas da casa. Pão e um raspa de queijo e um punhado de azeitonas e vinho para o almoço às 11horas, depois a merenda por volta das 16 horas e a ceia à noite, Sendo que a dormida não era contínua. Com a noite cerrada às 17 ou às 21 horas, consoante a estação do ano, o primeiro sono era dormido até por volta da meia-.noite, quando as mulheres faziam as limpezas do dia e os homens preparavam os seus parcos instrumentos de trabalho para a próxima jorna. Depois deitavam-se de novo e antes de raiar a aurora, ao cantar do galo estavam prontos para a sua rústica existência. E ainda havia que tratar dos animais. Um mata-bicho para um homem revilatizar para um dia de trabalho era um "shot" de aguardente que foi substituída nos dias de foje pela "bica", 
Os dias, os meses e os anos rolaavam nesta rotina em Alcafozes e em milhares de outras aldeias. Falta-me saber onde se reuniam os fiéis nos dias santos e as tabernas para as tardes dos dias santos...

Uma representação de uma procissão medieval 

domingo, 12 de janeiro de 2025

O cobrador de sisas de Idanha-a-velha e Alcafozes

O primeiro documento que encontrei sobre Alcafozes destrói pela base a versão oficial de que a aldeia foi fundada por muçulmanos, após 711. Existe, datado de 19 de Maio de 1496 uma ordem para João Miguel, morador em Alcafozes, termo da vila de Idanha-a-Velha, nomeado escrivão do efeito da sisas
da cidade de Idanha-a-Velha e seu termo (Alcafozes) tal como ele até aqui foi por odem de D. Joáo II. 
Alcafozes foi sempre, desde a ocupação romana um termo (limite) de Idanha-a-Velha e a designação de Stanis Confossis ou Al Confossis (nem todas as palavras iniciadas por Al, seja por artigo ou por ortografia provenientes da língua árabe. Idanha-a-Velha e Alcafozes estiveram sempre ligadas por um cordão umbilical, como urbanização central e bairro dos arrabaldes, de vastos pastos vitalizados pela Ribeira de Alcafozes. As gaiolas mouriscas poderia ser apenas uma designaçao árabc do Confossis do tempo romanos. Portanto, em 1496, cnfirma-se que Alcafozes fazia parte de Idanha-a-Velha, numa época em que os habitantes das região ascendiam a muitos milhares de indivíduos. 

Em Alcafozes questão da datação exacta dos tempos ainda não é uma verdade absoluta. Alcafozes. É muito possível que no século XV, com a inclusao de famílias de outro estrato social tenham, muito provavelmente  provavelmente contribuído para um um mais locais de culto que entretanto foram sunstituídos por outros ou, numa segunda hipóteses menos considerada, a deslocação ao templo de uma Idanha-a-Velha em decadência ou ao santuári que existia na Granja de São Pedro, dedicaca a S.Francisco e entretanto destruída, possivelmente por umas das muitas inavões estrangeiras que por ali se deslocavam a caminho dos seus conflitos guerreiros  ou à Ermida de Nossa Senhora da Granja, da não muito distante Proença-a.Velha.
Alcafozes  estava inserida em território pertencente à Ordem de Cristo, que teve como administrador o rei D. Manuel I. A ordem foi secularizada em 1510 e, em 1551, pela bula de Júlio III, e no tempo de D. João III, os bens passaram para a Coroa. Foram criadas novas comendas, em que muitas vezes os comendadores arrendavam as propriedades e, nesse sentido, foi sendo frequente a existência de rendeiros, que eram grandes proprietários. Uma dessas famílias poderá ter sido a família Capello, cuja existência em Alcafozes é assinalada em lugares de relevo público

A obra das Misericórdias nasceu em 1498, no ano em que Vasco da Gama descobriu o caminho marítimo para a Índia. Mas até essa data as instituições de beneficência eram rudimentares e encontravam-se dispersas e sem estatuto. Desde a fundação da nação portuguesa, inspiradas pelo espírito de caridade cristã, foram sendo criadas ordens religiosas e militares pelos reis, municípios, bispos, confrarias e particulares. Estas induziam os homens de todas as classes sociais a socorrerem os pobres e necessitados na ausência de qualquer sistema de segurança social organizado.É neste contexto histórico que o cruzamento de duas figuras dará origem à futura rede de Misericórdias: Frei Miguel Contreiras e a rainha D. Leonor.

Frei Miguel Contreiras era um admirável pregador e amparo dos mais desfavorecidos. Pelo que se dizia, percorria as ruas de Lisboa com um anão que recolhera para sua protecção e um jumento no qual carregava as esmolas, para "acordar a caridade" e acudir os pobres e indefesos. A sua fama chegou aos ouvidos da rainha D. Leonor, que o nomeou seu confessor e mestre espiritual. Em 1484, D. Leonor fundou o Hospital das Caldas, dedicado aos pobres, na igreja onde instituiu uma confraria de caridade, sendo este um prenúncio da Misericórdia. Em conjunto com Frei Miguel Contreiras, desenvolveu uma série de obras significativas de ajuda aos necessitados.

A vida rude na Idade Média


Foi então em finais do século XV que, um grupo de "bons e fiéis cristãos", como reza a História, liderados por Frei Miguel Contreiras, na presença da rainha D. Leonor e das mais altas personalidades religiosas e civis, assumiu o compromisso de se dedicar à prática das 14 Obras de Misericórdia quanto fosse possível. 
Gozando D. Leonor de grande prestígio junto da corte e do rei, é neste momento que surge a Irmandade da N.ª Sr.ª da Misericórdia de Lisboa com a aprovação do rei D, Manuel, a génese de todas as que lhe seguiram até aos nossos dias. O monarca tomou-a sob a sua protecção em 1498.Em Castelo Branco a Misericordia  foi fundada em 1510 e, pela ordem natural das distâncias das época, talvez em Alcafozes tenha surgido 5 ou 10 anos depois, apoiada com uma nova classe social que entretanto chegava à aldeia devido à seecularização das terras antes da Ordem de Cristo. 





 

sábado, 11 de janeiro de 2025

A PESTE da MORTE e a ÀGUA da VIDA

 O primeiro e o maior surto de peste negra ocorreu entre 1348 e 1350, mas outros surtos aconteceram ao longo de todo o século XIV. A peste foi uma doença que esteve presente na vida dos europeus até 1720, quando o último surto foi registrado em Marselha, na França, tivesse sido no Porto que a Europa sofreu a última crise endémica de peste negra em 1915. 
Alcafozes, no século XIV estava a recuperar da deserção de muitos habitantes para o Norte aquando da invasao muçulmana. Apesar de não ter sido atingida com a virulência idêntica à da cidade de Lisboa, em que metade da população pereceu, Alcafozes, na altura com pouco mais de 500 habitantes, assistiu à morte de muitos conterrâneos afectados pela terrível epidemia. 
Apesar de tudo, os bons ares vindos de Oeste, ou seja do longínquo mar atlântico e os seus variados recursos hídricos, como a própria Ribeira de Alcafozes, o Rio Ponsul a 6 kms, o Rio Aravil a 2 kms, a fonte do Almo, o poço da Bica, a Fonte Soite, a Fonte Ferrenha e a nascente das Taipinhas relativizaram a peste, embora a actividade intensa de pastorícia fosse intensa da região e a erva ou o pasto de restolho permitissem manter os anumais em condições de produzir carne, leite e lâ e os porcos andassen em varas à procura do seu alimento preferido, a bolota caída dos carvalhos, sobreiros e, ali, as numerosas azinheiras, embora as gentes também a aproveitassem para confesionar refeições porque a batata ainda não tinha chegado da América. 

À medida que o declínio de Idanha-a-Velha se acentuava e a maoria dos seus habitantes fundaram Idanha-a-Nova, que assim emergia de uma letargia pré-histórica e acabou por receber o foral do rei D. Sancho I, em 1206. Embora nunca tenha conhecido o declínio irreversível da Egitânia, Alcafozes, sendo uma aldeia muito mais antiga e praticamente um bairro de Idanha-a-Velha, deixou-se não concorreu com Idanha-a-Nova  pela primazia dominante na zona e continuou a evoluir, mas de uma forma muito menos expedita que a "filha" da Egitânea. Contribuiu também a decadência da Idanha mais velha a passagem do seu bispado para a cidade da Guarda, não se sabendo ao certo se existiu qalquer absorção egitaniense na cidade mais alta de Portugal. 

Para terminar este capítulo, uma referência à Fonte do Álamo, nome oficial do lugar e inscrito no local e a designação que eu e o povo fazemos de Fonte do Almo. Houve quem referisse que os dois termos significavam o mesmo, Não é assim. O álamo é uma árvore decícua que porte médio que pode atingir os 30 metros de altura. Já a palavra almo é proveniente do latim "almu", ou seja, "algo que alimenta". Portanto, nada melhor que observar a paisagem em redor e ver qual delas corresponde à fonte; se algum álamo de 30 metros de altura ou algo que alimenta...ou mata a sede. Aceitam-se opiniões...


Fonte Ferrenha de água férrea em Alcafozes

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

ALCAFOZES NA ORDEM DE CRISTO

 Alcafozes estava inserida em território pertencente à Ordem de Cristo, depois de a Ordem dos Templários ter sido extinta e os seus componentes  serem salvos da morte, prisão e tortura ordenada pelo Papa Clemente V, em 22 de Março de 1312, graças à subtileza e engenho do rei D. Manuel. A nova Ordem daí resutante foi tutelada pelo rei D. Manuel e secularizada em 1510 e, em 1551, pela bula de Júlio III. No tempo de D. João III, os bens passaram para a Coroa. Deste modo foram criadas novas comendas, em que muitas vezes os comendadores arrendavam as propriedades e, nesse sentido, foi sendo cada vez mais frequente frequente a existência de rendeiros, os grandes proprietários da terra. 
Mas. voltando atrás no tempo mais ou menos três séculos, a par com a edificação de castelos e fortificações, os Mestres Templários concedem às populações cartas de foral com o objetivo de firmar os direitos e deveres dos seus habitantes. Neste sentido, foi possível identificar perto de uma dezena e meia de forais que os mestres da milícia Templária concederam às comunidades fixadas nas suas terras. Pão, vinho e linho eram, no entanto, obrigações das populações a conceder aos cavaleiros do templo. 

Eem novembro de 1165, D. Afonso Henriques doou a D. Gualdim Pais a terra de Idanha-a-Velha e de Monsanto, com a condição de esta milícia não só servir o monarca, mas também ser uma forma de reforçar presença de população junto à fronteira. Em outubro de 1213, D. Pedro Álvares de Alvito, Mestre da Ordem do Templo, concede foral a Castelo Branco com a intenção também ali também se fixar população.  Uns anos antes, em janeiro de 1206, os freires Templários tinham recebido de D. Sancho I a vizinha terra de Idanha-a-Nova e o monarca conformaria ainda a doação de Idanha-a-Velha, feita por seu pai D. Afonso Henriques.  A infuência Templária na raia beirã consolidava-se. O mestre Templário tinha residência em Castelo Branco, tendo sido celebrados aí vários capítulos da Ordem. O texto do foral de Castelo Branco enumera obrigações, direitos e penas dos seus habitantes dos vários grupos sociais, acrescentando que os clérigos têm os mesmos direitos dos cavaleiros. Refere-se a cristãos, judeus e mouros em igualdade de circunstâncias, numa situação de fiadores, sem fazer qualquer menção a inimigos. ou oponente. 

Em abril de 1218, o mesmo D. Pedro Álvares de Alvito, Mestre da Ordem do Templo, juntamente com o convento, doam foral à localidade de Proença-a-Velha, geograficamente muito próxima das Idanhas. Aliás, e como se lê no texto do foral, os costumes dados a Proença são os mesmos do foral de Idanha-a-Nova e mesmo o de Castelo Branco: a intenção de fixar população.. Aos clérigos são dados importantes privilégios e liberdades e são estabelecidos os direitos e deveres dos moradores. Tanto mouros como cristãos estavam obrigados ao pagamento de portagens e passagens, o que pressupõe uma igualdade de tratamento a ambos. Há ainda outras referências a mouros no texto do documento, mas enquanto moradores do concelho, sugerindo uma convivência pacífica entre povos. Depois  No ano seguinte, o mesmo monarca doara a D. Pedro de Alvito, Mestre Templário, as vilas de Idanha-a-Nova e Idanhaa-Velha, confirmando carta de doação de D. Sancho I à Ordem do Templo da vila de Idanha-a-Nova, que por sua vez confirmava doação à Ordem da vila de Idanha-a-Velha.
Por essa altura, Alcafozes era pouco mais que a actual Rua Dr. António Lopes e uns palheiros à saida da terra, onde uma cerca e portões asseguravam que nem bandos de saqueadores ou animais selvagens, nomeadamente matilhas de lobos ou ursos roubavam ou dizimavam o gado. 


Casas e palheiros limítrofes de Alcafozes na Idade Média

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Tratado de Alcanizes e Alcafozes portuguesa

 A Ordem do Templo foi fundada em 1118 ou 1119 e extinta em 1312. Na sexta-feira, dia 13 de outubro de 1307, centenas de cavaleiros Templários por toda a França foram presos simultaneamente por agentes de Filipe o Belo e sujeitos a tortura para confessarem a heresia da própria ordem religiosa, facto que provavelmente esteve na origem da superstição de as sextas-feiras dia 13 serem considerada dias de azar. Os Templários conjugavam o ideal do monge com o exercício da guerra. Após o seu reconhecimento no Concílio de Troyes, em 1128-9, os freires dedicaram-se à proteção dos peregrinos ao longo dos caminhos até aos lugares santos e tiveram um papel crucial na Reconquista Cristã.

A Reconquista Cristã ter-se-á iniciado em 1064, mas a entrada da ordem religioso-militar no Condado Portucalense é anterior. A milícia ter-se-á apresentado aquando a sua fundação, pela primavera de 1128, ano em que a Ordem foi estabelecida.Em Portugal, e no contexto da Reconquista, procurou-se restaurar as antigas dioceses dos reinos suevo e visigodo. Braga assume em 1071 um papel político e eclesiástico no Condado, evidenciado pela sua entrega ao arcebispo em 1112, por parte do Conde D. Henrique, que escolheu a catedral para sua sepultura. A diocese do Porto foi restaurada em 1112-13.

Gualdim Pais, o Mestre da Ordem, doou ao Templo  Idanha-a-Velha, Monsanto e provavelmente Segura, o que terá ocorrido em 1165 e ali edificaram os castelos. A documentação relativa à presença da milícia em Castelo Branco remonta àquele ano. Dois anos depois, Geraldo Sem Pavor conquistar Monsanto. Em 1169, D. Afonso Henriques doou a terça parte das terras que conseguissem conquistar a sul do rio Tejo, algumas com importância militar, a fim de se prosseguir com a Reconquista. Em 1169, o rei doou os castelos de Cardiga e do Zêzere e suas propriedades.O Mestre Gualdim Pais  restaurou os castelos de Almourol e Cardiga (1171) e realizou obra nas fortalezas de Monsanto e Idanha, através das quais acautelou a defesa do vale do Tejo. Esta linha de defesa assumiu um papel determinante no século XII face aos almóadas, aquando o cerco de seis dias ao castelo de Tomar pelos almóadas, em 1190. 

No reinado seguinte, D. Sancho I confirmou a doação a Idanha-a-Velha em 1197 por constituir uma área difícil de manter, mas Mogadouro e Penas Róias voltaram à coroa. Em 1198, os Templários receberam Nisa-a-Velha e no ano seguinte, Ródão. No entanto, o Alentejo não estava destinado ao Templo, mas sim a outras ordens religioso-militares. Em 1203, é doada Idanha-a-Nova e em 1206, Dornes. A construção da Torre de Dornes terá sido encomendada por Gualdim Pais na segunda metade do século XII. Castelo Novo é mencionado em testamento do seu alcaide em 1208 como sendo possessão da Ordem à data. Por D. Afonso II, os Templários receberam a terra de Cardosa, em Castelo Branco. Em 1215, é doado o Castelo de Coruche, assim como vinha e casas em Évora. Em 1218, Alcácer do Sal foi conquistado e o foral concedido a Proença-a-Velha, ambos pela Ordem. Nos anos seguintes foram sendo atribuídas as cartas a Vila de Touro, Ega, Idanha-a-Velha, mas em 1244, D. Sancho II volta a doar ao Templo os direitos de Idanha e de Salvaterra do Extremo, junto à fronteira. O castelo de Rosmaninhal terá sido construído depois de 1237, após o povoamento da vila pelos Templários. 
O tratado de Alcanzes, assinado em 1297, pelo rei D. Dinis, definiu as fronteiras entre as Beiras e a Extremadura castelhana, as quais ainda hoje se mantêm, sendo consideradas as mais antigas da Europa. Alcafizes é definitivamente portuguesa. 


Gualdim Pais e os Templários, os primeiros donos da Alcafozes portuguesa


O "LEQUE" nos anos 60

  Já assisti, por várias vezes, gente mais nova de Alcafozes perorar sobre como seria o "Leque" em tempos que já lá vão. Há poucas...