sábado, 16 de agosto de 2025

O "LEQUE" nos anos 60

 

Já assisti, por várias vezes, gente mais nova de Alcafozes perorar sobre como seria o "Leque" em tempos que já lá vão. Há poucas fotografias desse tempo, mas existe algo que o tempo não apaga: a memória da juventude. Como não se chegava a uma conclusão, fui rebuscar no meu "arquivo" cerebral, como era esse cruzamento tão bem arrumado, como um "hall" de entrada ou uma sala de estar da aldeia.
Esse belo espaço de antanho está agora reduzido a uma inestética e imperceptível rotunda, construída ou autorizada não sei porque entidade. A verdade é que foi varrido para debaixomdo tapete da história os resíduos de mais um crime contra o património da terra.
Como não vou lá há muitos anos, desconheço essas decisões e por isso vou concentrar-me em descrever o "Leque" dos anos 60, onde passei belos finais de tarde, depois de a canícula deixar de fritar o corpo e a alma.
Recorri a uma das minha paixões, a pintura "sem mestre", e fazer reviver o passado. O "Leque" éra (é) um cruzamento da Estrada Nacional 332, na altura da Granja de São Pedro para Medelim e a via de Alcafozes para Idanha-a-Nova. A cruz era arquitectada no chão por quantro canteiros formatados com um ângulo recto e dois ângulos agudos. No seu interior, além do restolho do estio, estavam plantadas duas árvores em cada um dos triângulos e ainda uma placa em com mais ou menos 1,80 de altura, apoiada em dois pilares e a indicação, para a esquerda de quem sai de Alcafozes, Granja de S. Pedro 9kms e para a direita as distâncias para Medelim - 13 kms, Covilhã - 56 kms (é a minha única dúvida) e Guarda - 90 kms. A bordejar esse espaço existiam os muros das propriedades privadas e a estrada para Idanha-a-Nova ainda era um caminho de terra, por alcatroar, onde, duas vezes por dia, às 06h30 da manhã e às 19h00, arrastava-se a camioneta da carreira, uma Ford Bus de 1940, da empresa Martins-Évora, amarela e vermelha, com o tecto lá em cima, carregadinha de malas, sacos, cestos e que mais fosse.
Nas jogatanas com o meu primo, a baliza era a placa indicativa de Medelim-Covilhã-Guarda. Quando avançávamos estrada fora era certo e sabido que encontrávamos o Palagão, cantoneiro, pessoa faladora e simpática, da família da minha madrinha Madalena.
Por ali também passavam, além de um veículo automóvel uma vez por festa, a carroça de bois do ti Comua, com uma carregamento de feno ou um rebanho do ti Jerónimo ou outro dos imensos pastores existentes na aldeia.
Voltando aos dias de hoje, consta-me, ou melhor, vi um projecto de construir uma rotunda, simbolizando a terra do pão e carvão. Não sei como vão resolver este quebra-cabeças. Na História de Alcafozes desde os tempos dos romanos -- foram eles e não os árabes -- que fundaram Villae Confossis -- aquelas terras eram ricas em ouro, nos rios e ribeiros -- incluindo a de Alcafozes que nasce, por acaso no Monte das Vinhas e desagua perto da Senhora da Graça, no Rio Pônsul -- vinho, azeite e gado. Não é por acaso que no brasão de Alcafozes constam dois ramos de oliveira, a Cruz dos Templários e uma espada, tipo cimitarra árabe ou catana dos povos indígenas.
O pão toda a gente o fazia, há 60 anos, e fui muitas vezes ao forno, aquele perto do ti Manel Albardeiro. O carvão foi um modo de deserrascar uma região sem minas do mesmo. Também o meu avô ti Estroina o fez durante um curto período de tempo, até porque a vizinhança de outras aldeias se queixavam da (agora chamada) poluição. E talvez ainda hoje Alcafozes sofra de discriminação da malta farrusca que ninguém queria por perto.
A factualidade da História de 2000 anos da aldeia é a permanente abudância de azeite e gado, esses sim, o símbolo da aldeia. Tudo isto a propósito de um paradisíaco "Leque" arrasado, de uma rotunda mal-amanhada e do putativo projecto para deturpar as milenares razões de ser da aldeia. Mas nunca subverterão aquelas imagens da minha juventude numa terra inesquecível!


O "LEQUE" DE ALCAFOZES NOS ANOS 60


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