Lavrar sob a fornalha do Estio era só possível aos mais fortes
Alcafozes, uma aldeia rica em história e cultura, merece um espaço dedicado à eternização da sua ancestralidade. Desde os tempos pré-históricos, a região tem sido palco de vestígios de vida humana, notáveis tanto na Granja de São Pedro quanto em Medelim. Essas evidências não são meros fragmentos do passado; elas representam uma continuidade histórica que deve ser preservada e celebrada através de instalações museológicas, que poderiam servir como um verdadeiro tributo à resiliência de seus habitantes. A presença romana em Alcafozes é um factor relevante que não p ode ser desconsiderado. Os marcos miliares encontrados na região, como aquele localizado na esquina de um prédio da Rua Joaquim Franco, servem como testemunhos físicos da ocupação e da influência romana. Outros marcos, curiosamente, estão situados em localidades próximas, como Idanha-a-Nova e Idanha-a-Velha. Esses vestígios são provas tangíveis de que a história da aldeia remonta a séculos atrás, quando a grande rota que ligava Mérida a Braga atravessava as terras da região. É pertinente lembrar que o desenvolvimento da civilização romana no território de Alcafozes foi impulsionado não apenas pela presença dos rios Pônsul, Erges e Ocreza, mas também pela localização estratégica de um ponto de vigia no monte onde atualmente se ergue a capela de Nossa Senhora do Loreto. Esse local tinha uma importância vital, facilitando a comunicação entre diversas áreas da região, do sítio da Senhora do Almurtão a Idanha-a-Velha, e assegurando um monitoramento eficaz das atividades ao redor. Registros históricos, que datam de mais de mil anos, corroboram essa rica narrativa.
Além das influências romanas, é fundamental ressaltar que Alcafozes possui uma história que se estende séculos aquém da chegada dos árabes e da formação da Taifa de Badajoz. A designação inicial, Villae Confossis, é uma demonstração clara de que a etimologia nem sempre está vinculada à influência árabe, contrariando a crença popular de que todas as palavras iniciadas com "Al" têm essa origem. Portanto, a aldeia não deve ser reduzida a uma simples herança muçulmana, mas sim reconhecida como uma entidade cultural multifacetada, que carrega consigo diversas camadas históricas. Alcafozes era, por esses tempos, o "bairro" mais a Sul da Egitânea (Idanha-a-Velha), daí também não se compreender, a não ser por malfadadas questões políticas, a desunião dessas freguesias gémeas, indo parar a Idanha-a-Nova, terra com a qual não existe quaquer afinidade. Adiante.
Perante tal tesouro histórico, questiona-se: quem já teve a iniciativa de investigar a muralha que antes ligava Alcafozes a Idanha-a-Velha? Este monumento milenar, que protegeu a população local durante épocas de massacres e pilhagens, especialmente durante as Invasões Francesas, permanece envolto em mistério. As escavações arqueológicas têm sido escassas, e, até o momento, os esforços para revelar a verdadeira história e trajetória dessa estrutura monumental permanecem negligenciados.
Seja por meio de artefatos ou narrativas, Alcafozes possui uma profundidade cultural que clama por reconhecimento. O exemplo da cópia da famosa pintura de Van Gogh, "A Cadeira", que gerou significativo alvoroço em um centro cultural, poderia ser um catalisador para uma maior valorização do patrimônio local. Porque não criar um espaço que abrangesse trajes típicos, ferramentas utilizadas ao longo das gerações, arados, cântaros, caldeiros, bilhas e outros objetos que contam a história da aldeia? Artefatos como cangas, cantareiras, arcas, enxovais, noivos, louças, ferragens, pedras de moinhos e rodas de lagares, carroças, laargadas de touros, etc., são todos elementos que compõem o rico espólio da vivência alcafozense.
A presença da enigmática pedra da Capela da Misericórdia, cuja foto publiquei num texto anterior, ao lado de tantos outros objetos de valor histórico, poderia transformar um museu local num verdadeiro ponto de encontro entre passado e presente. Um espaço onde a história de Alcafozes seria não apenas lembrada, mas revitalizada, criando um elo entre as novas gerações e suas raízes ancestrais.
Assim, a criação de um museu em Alcafozes não deve ser vista apenas como um desejo, mas como uma necessidade premente. A história não deve se limitar a ser uma memória distante que vê aviões passar anualmente no final de Agosto. É hora de unir esforços e garantir que a rica herança cultural de Alcafozes seja adequadamente preservada e perpetuada. Mãos à obra! Que esta seja uma convocação a todos os cidadãos, historiadores, arqueólogos e amantes da cultura a colaborar na construção desse legado que representa não somente o passado, mas também o futuro da aldeia. É através da valorização do seu patrimônio que Alcafozes poderá, finalmente, reclamar seus valores materiais e sua dignidade histórica no contexto mais amplo da civilização.
Venha o Museu de Alcafozes, além do material iconográfico, também recheado de fotos, pinturas (comprometo-me a oferecer algumas), videos e, obviamente, inteligência Artificial.

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