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terça-feira, 28 de janeiro de 2025

A MISÉRIA DEPOIS DAS INVASÕES

 Alguns bispados, como o de Coimbra, mandou logo após aviso Régio de 25 de Março de 1811, ainda os Franceses estavam na região da Guarda, fazer o levantamento do rasto da destruição que os Franceses deixaram atrás de si. Sucederam-se as epidemias, a fome e os assassínios, acompanhando as vagas de órfãos e de desalojados. Quando regressavam às casas, as populações viam a destruição e os campos incultos, sem sementes sequer para renovar as culturas. Os párocos não incluem os mortos em combate do exército regular, nem da guerrilha e muito menos dos Franceses. Só registam os civis das suas paróquias, acometidos pelos Invasores. Nem sempre referem todos os mortos que sofreram maus tratos, ou mortos causados pela epidemia. Há um número do Bispado de Coimbra, que nos dá uma ideia fria do sucedido: na Figueira da Foz, onde não houve crimes porque os Invasores não passaram pela cidade, morreram 4.135 indivíduos por doença, entre naturais e refugiados.

Não se sabe ao certo quantos óbitos causaram as forças francesas na população de Alcafozes. Na altura da I Invasão, a aldeia tinha cerca de 700 habitantes e estava em franco progresso depois das pestes e da Guerra dos Sete Anos. Mas com os saques do esfomeado exército de Junot, primeiro em 1807, e de Massena, em 1810, muitos aldeões deixaram Alcafozes e pela calada da noite refugiaram-se em Idanha-a-Velha, por esses tempos uma povoação em declínio e sem nada que pudesse alimentar as esfomeadas tropas naoleónicas após uma terrível e esgotante passagem por Espanha. É curioso, no entanto, que no intervalo que mediou entre a I e a III Invasão haja registo de um casamento em Alcafozes, de Joáo Esteves Barbado com Remedia, ambos naturais da terra, no dia 1 de Novembro de 1808. Por essa altura os combates desenrolavam-se no Norte do país e essa pequena trégua permitiu uma ligeira retoma na vida normal aos seus habitantes. 

No entanto, as carências eram demasiado severas em Alcafozes na sequência dos saques. O gado foi quase totalmente roubado pelos exércitos napoleónicos e até os grãos faltavam para as sementeiras porque os soldados necessitavam deles para fazer o seu próprio pão. Os bens sacros da Igreja de São Sebastião foram levados, assim como os das capelas da Misericórdia e do Espírito Santo, enquanto a capela de Santo António foi incendiada pelo tropa francesa em retirada, depois de um confronto com os cavalaieros portugueses do Regimento de Cavalaria 1 e das milícias que se formavam por todas as povoações, sedentas de sangue e de vingança. Esta crise social era agravada, como se fosse possível ser ainda pior, pela táctica da "terra queimada" imposta pelos exércitos ingleses e portugueses para os inimigos franceses não poderem encontrar qualquer espécie de comida. Caso para dizer que uma desgraça nunca vem só.

Em 1813, afastada a ameaça da Guerra Peninsular para território espanhol. o padre João António Tavares, vigário da Igreja de São Sebastião começa a colher o dinheiro da côngrua, a dádiva essencial para manter a paróquia, em 6 de Setembro deste mesmo ano. Mas o que recolher depois de tanta miséria se ter abatido sobre uma aldeia com fome, ainda assustada, pilhada, com casas em ruínas, salvando-se aquelas em que os soldados se aboletavam. Os naturais da aldeia regressavam a pouco e pouco dos seus esconderijos inalcancáveis pelo d inimigo externo e deitavam mão à recuperação de Alcafozes, onde a esperança de vida, com tanto infortúnio, não atingia os 40 anos e muitas mulheres morriam ao dar à luz e metade das crianças não atingirem os 5 anos de idade. O socorro dos vizinhos de Medelim, Zebreira, Rosmaninhal e outros lugares não se podiam contar com ele porque também essas poviações se encontravam devastadas. 
Era preciso recomeçar uma nova existência... 


Reprodução da autoria de Tosaco do incêndico da Capela de Santo António

sábado, 25 de janeiro de 2025

EM BUSCA DA BATALHA DE ALCAFOZES

Era um final de tarde fria de Inverno e a instrução da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, tinha sido dura no célebre terreno de lama que era a "terraplanagem". Corriam os anos 70 iniciais do século passado. Juntamente com uns vinte e tal camaradas (na tropa era assim a designação de companheirismo) do1º Esquadrão de Instrução tínhamos recebido a notícia de que integraríamos a especialidade numa das forças especiais e, como tal, formávamos e treinávamos à parte. Era verdade. Após as festas de Natal e do Ano Novo, recebi a guia de marcha para os "Rangers", em Lamego, das mãos do tenente Santos Silva.
No entanto, voltando à tal tarde de Inverno na para Chaimite da EPC, fui olhando, enquanto fumava um cigarro, para os painéis que assinalavam as datas e os locais dos combates travados por aquela unidade. Qual não foi o meu espanto ao descobrir, como todas as letras, a palavra Alcafozes. Ou era uma coincidência descomunal ou tratava-se da aldeia da minha família materna, conhecida na terra pela gente do Ti Estroina, o meu avô, e meu inspirador na arte de ser Homem. Ele bem me tinha contado os seus momentos de tropa em cenários rocambolescos, especialmente em Lisboa, quando foi assassinado o presidente Sidónio Pais, em 1919, na gare da estação do Rossio, e do caos que se espalhou pelo país, quando avançou pela Calçada do Carmo, com os cavalos do Regimento de Lanceiros 2 a escorregarem no íngreme empedrado para impor a ordem à espadeirada após a morte presidencial.
A vida dá muitas voltas, o serviço militar apanhou-me no olho do furacão da História de Portugal, antes e pós-PREC, circulei por dez unidades e, nesse tempo, na única vez em que estive para ir até Alcafozes e ao casamento da minha prima Luísa em Penha Garcia, um avião Noratlas, da Força Aérea Portuguesa, explodiu ao sair da Base de Tancos, morreram uma dezena de oficiais, em Setembro de 1975, e o meu Batalhão de Caçadores 4513 entrou de prevenção e já não pude seguir para a Beira Baixa.
Os anos passaram, a minha vida profissional ocupava-me o tempo por inteiro, passava boa parte dele a viajar por Portugal e para fora e Alcafozes foi caindo no esquecimento físico, não mental, até que, no final da minha carreira de jornalista, dediquei-me, entre outras actividades a escrever livros, um deles com referências às invasões francesas e à Beira Baixa, em especial, e Alcafozes, em particular.
Como, apesar de tudo, nunca esqueço a "terra", mandei, através do meu pai, 50 exemplares do livro "Amantes da Lua Negra" para ser sorteados nas rifas da quermesse das festas de Nossa Senhora do Loreto.
A partir de 2021 dediquei-me a investigar o caso da Batalha de Alcafozes. Não sou historiador, mas as minhas dezenas de anos como jornalistas apuraram-me o faro e deram-me a teimosia para chegar onde pretendo. A tarefa não estava a ser nada fácil. Fiz dezenas de contactos para câmaras municipais, juntas de freguesia, instituições militares, arquivos e nada sobre a Batalha de Alcafozes. Nem uma letrinha sequer. Sabendo que os portugueses nunca foram muito dados à escrita, era tadição nas tropas desse tempo, e mesmo antes, só o sargento de uma companhia ter o dom de ler e escrever, passei para a internet francesas, onde, após muitas horas, dias, semanas, meses, encontrei a palavra Alcafozes nas Guerras Napoleónicas. Era o segundo fio da meada, depois daquele na EPC. Dos sites franceses migrei para os ingleses. Mais horas, dias e uma infinidade de meses de buscas. Aportei, por fim, ao Regimento de Cavalaria 1, formado em Alcântara, em 1808. 




Alcafozes nas Invasões Francesas

O "LEQUE" nos anos 60

  Já assisti, por várias vezes, gente mais nova de Alcafozes perorar sobre como seria o "Leque" em tempos que já lá vão. Há poucas...