quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

ALCAFOZES INCENDIADA EM 1644

 A coroa portuguesa e castelhana estiveram unidas desde 1580 até 1640. Durante esse período a paz e a tranquilidade reinaram na fronteira entre os dois estados. Formalmente a designação é esta porque não houve propriamente uma anexação mas sim dois reinos governados pelo mesmo monarca, Filipe II de Espanha, I de Portugal. Na região das Beiras e da Zarza la Mayor o clima de segurança foi abalado pela Restauração de Portugal, em 1 de Dezembro de 1640. A partir desta data, os dois países começaram a reforçar as suas fronteiras e iniciar-se-ia a Guerra da Restauração, que culminaria com o Tratado de Lisboa, assinado em 1668 pelos reis Afonso VI de Portugal e Carlos II de Espanha. Durante este período houve guerra, saques e muitas mortes na região do que é hoje a Beira Baixa. O início dos conflitos começou com aquilo que se poderá considerar um exército privado, o da Companhia da Zarza la Mayor, financiado por gente de posses da Extremadura espanhola e grupos de assaltantes apoiado também pelas autoridades locais. O mais famoso, Pilante Celanes Castellano entrou pelo Rio Erges, passou os picos agrestes da Serra da Gata e saqueou Penha Garcia e arreadores. Apesar de haver uma instauração de fronteiras com práticas mais ou menos aduaneiras, contrabandistas de ambos os lados foram os desestabilizadores iniciais da linha divisória entre as duas nação, até que os exércitos se organizassem para se enfrentarem. Depois desses incidentes iniciais chegaram três companhias espanholas a Zarza la Mayor. Porém, rapidamente os seus soldados se tornaram saqueadores, não só para roubarem bens, mas também para levar animais para se alimentarem.

A tropa portuguesa, comandada pelo general Fernão Teles de Meneses chegou à zona fronteiriça para controlar uma situação dramática para os povos das aldeias. Também numa acção de surpresa, o comandante das nossas tropas, com um exército de 2550 homens de infantaria e 800 de cavalaria entrou na Zarza e fez 230 vítimas entre os espanhóis, que ainda viram explodir a torre da igreja onde guardavam a pólvora numa atalaia encostada a ela.
A vingança espanhola aconteceu na Beira (agora) Baixa pela força militarizada da Compañia de Montados de la Zarza, composta por 130 cavaleiros. As suas ordens eram claras e incisivas: matar, saquear e incendiar toda a zona portuguesa que pudessem. Era a vingança da derrota em Espanha.
A aldeia de Alcafozes foi incendiada, depois de se apoderarem dos haveres e dos rebanhos. A igreja de São Sebastião incendiada. O mesmo aconteceu nas povoações mais próximas. Zebreira, Penha Garcia, Monsanto, Penamacor, Idanha-a-Nova e Rosmaninhal, entre outras, tiveram o mesmo fim. Fogo e devastação. Os portugueses ripostaram e 700 soldados abateram 17 milícias da Zarza. Os confrontos sucediam-se diariamente.
Os habitantes da comarca de Castelo Branco enviaram uma missiva ao rei João IV, comunicando-lhe que já lhe havia sido roubados 60 mil ovelhas e cabras, 8 mil vacas, burros, mulas e cavalos, 800 pessoas tinham morrido de fome, além de homens e mulheres feitos prisioneiros. O povo reclamava por vingança.
Assim aconteceu, em 23 de Março de 1650, em Ventas del Caballo, uma companhia de soldados portugueses massacrou mais de uma centena de militares espanhóis, recebendo ordens para lhes cortar as orelhas.
A igreja de São Sebastião, em Alcafozes, depois dos danos sofridos, recomeçou os registos de nascimento, casamento, baptizados e óbitos, em 1694, pelo vigário Gregório. A aldeia, entretanto, foi praticamente reconstruída dos incêndios provocados pelas milícias de Zarza la Mayor. Até chegarem os franceses...

Bandos de salteadores da Companhia de La Zarza

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

CRUZEIRO - A FONTEIRA DE ALCAFOZES EM 1631

  A saída da maiorida dos habitantes da decadente Idanha-a-Velha e a sua migração para a nova Idanha nos altos rochedos perto do Ponsul deixaram Alcafozes isolada num buraco cavado pela natureza entre os vários cabeços que dominam a paisagem, onde sobressaem as oliveiras e umas azinheheiras e umas minúsculas seaaras que asseguram uma subsistència pobre a gente dedicada, como sempre, ao gado, nomeadamente aos numerosos rebanhos de ovelhas e cabras, mais uns quantos suínos que vagueavam em buca do seu alimento favorito, a bolota. A vida, como já referi, era rústica e pautada pelas ordens das natureza, as sementeiras, as colheitas, as horas de iniciar a jorna ou o tempo de cear. A maioria das casas, embora com alguns palheiros erigidos a seguir ao Monte de São Marcos, onde nasceria a Misericórdia em 1740, eram partilhadas por pessoas e animais. A chamada "loja" no rés-do-chão para os burros e outra bicharada doméstica e ao lado ou no andar de cima a zona familiar, reunidada normalmente em redor de uma lareira onde cozinhavam, tomavam a ceia da noite e trocavam umas palavras acerca da numerosa prole, dos animais e haveres e umas novidades sobre a ti Fulana ou o ti Beltrano. 

As riquezas dos Descobrimentos e a união forçada com a Espanha, desde 1580, trouxeram algumas melhorias ao "modus vivendi" dos aldeões, embora nada comparável aos progressos das cidades principais do litoral ou das mais importantes do interior do país. Uma maior desaceleração da pobreza medieval proporcionou o crescimento de Alcafozes, desde a Rua Velha até ao limite do povoado, que se situava prescisamnte no cruzeiro de 1631. 
Embora continue sem dados específicos sobre alguma igreja ou capela nos séculos XVI e XVII, assim como de uma taberna, como lugar de convívio, sabe.se que o Vigário Gregório ia de Idanha-a.Velha a Alcafozes tratar das almas, mas não se sabe propriamente onde. Aliás, o referido Vigário estava dependente da Igreja de Idanha-a-Velha, então já absorvida pelo bispado da Guarda. No entanto, na história oral dos mais velhos de Alcafozes, ouvi, muitas vezes, há mais de 50 anos, que as tradições de festas, romarias, procissões e "corridas de touros" se perdiam na memória dos tempos. Portanto, algo teve de existir na "terra" muito antes das datas oficiais estarem registadas nos compèndios oficisais, 
Desconhece-se se além da Ordem de Cristo e, posteriormente, com a seculorização das zona houve por ali senhores que imposessem um regime orpressivo aos nativos de Alcafozes, embora quer a Rodem de Cristo quer a Coroa cobrassem os seus impostos. 
Anos após o foral concedido por D. Manuel a Alcafozes, em 1510, instalaram-se na zona alguns marinheiros "reformados" sobreviventes das campanhas das Descobertas [uma grande percentagem das tripulações eram beirões por serem homens de rija cepa] e, fosse qual fosse a ordem, começaram a instalar-se na zona uma família de origem italiana, os Capello, a família Franco Frazáo na Capinha, a família Marrocos em Idanha-a-Velha e a família Manzarra em Idanha-a-Nova, além de outras fora de uma vasta zona de Alcafozes. E aí outros tempos vieram, talvez mais repressivos por um lado e mais lucrativos e menos miseráveis por outro. Veremos.
  


Cruzeiro, o limite da aldeia em 1631, aqui com o madeiro de Natal a arder

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

O DIA A DIA MEDIEVAL SEM MISERICÓRDIA

Apesar de ter encontrado um documento oficial relativo a Idanha-a-Velha e Alcafozes datado de 1496, exsite um hiato de deois séculos entre a retoma de dados sobre a terra. Sendo o povoafo de mais ou menos 100 fogos e talvez 600 habitantes, não é crível que não tenha havido um único templo antes de 1740, quando foi erigida a Igreja de São Sebastião, o orago do povoamento, e a Capaela da Misericórdia. A História não o regista. Também a fundação da Misericórdia de Alcafozes não deixa de ser estranha pelo seu atraso em relação a outras de zonas próximas. Monsanto (1500), Proença-a-Velha (1500), Proença-a-Nova (1513), Castelo Branco (1514), Fundão (1516), Sertã (1530), Covilhã (1577), Ladoeiro (1581),  Vila de Rei (1581), Alpedrinha (1588), Álvaro (1597), São Vicente da Beira (1577), Oleiros (1578), Salvaterra do Extremo (1586), Sarzedas (1590), outras nos anos de 1600 e Alcafozes apenas em 1741. Já o cruzeiro nas imediações do adro da Igreja de São Sebastião foi plantada ali ainda antes, em 1631, época em que a coroa espanhola e portuguesas estavam unidas sob a coroa de Filipe III de Espanha. Não se entende que sendo o povo de então profundamente católico e veberando solenemente a Páscoa, mais do que o Natal, tenham surgido tão tarde as casas de Deus na aldeia. 
Uma das razões para este espaço espiritual parece à primeira vista em branco poderá ter a ver com uma segunda vaga virulenta de Peste Negra, por volta de 1500, que, mais uma vez se espanhou ela Europa, deixando um rasto de morte pelas cidades, vilas e aldeias, nomeadamente nos aglomerados mais numerosos e compactos. Em Paris, só para se ter uma ideia da tragédia, pereceram 60 mil almas. Mas Lisboa, e consequentemente Portugal, também viram uma percentagem de cerca de 1/4 da população atingida com elevado grau de mortalidade pela Peste Negra, Na capital portuguesa morreram 600 pessoas por dia e calcula-se que até ao seu final a espidemia deixou sem vida 60 mil pessoas. 
A Peste Negra terá feito as suas vítimas em Alcafozes, muitos sobreviventes terão ido para outros ares e daí este período de relativa estagnação no desenvolvimento da aldeia. No entanto, constinuo à procura de alguma casa santa que tivesse existido por esses anos em Alcafozes, a não ser que o povo rumasse em oração a Idanha-a.Velha, o que não é muito viável pela decadència da outrora grande cidade romana e visigótica, onde ainda se via imponente a catedral do Rei Wamba, o senhor da Beira Baixa. 

A alimentação em Alcafozes, na Idade Média, era pobre, aliás como em todo o país, excepto nos palácios nobres ou senhoriais, o que não era o caso desta terra. A média de vida era metdade da que hoje se verifica e aos 40 anos um homem era considerado velho. As exepções eram muito raras. As refeições eram rudimentares e perderam-se as receitas romanas requintadas, mesmo para a classe popular, obviamente sem banqueres de arromba. Pão, azeitonas, queijo, açordas ou migas, umas folhas de couve ba sopa, grão ou feijão com alguma gordura e umas lascas de queijo ou ovos da galinhas eram o "pão nosso de cada dia". O vinho não podia faltar aos homens e a miudagem contentava-se com uma malgas de leite de cabra com bocados de pão. Obviamente que nas casas da classe alta e nobre não faltava caça, corsos e faisões, mais o trivial, vaca, porco, carneiro, cabrito, galinhas patos, gansos, pombos, rolas e coelhos. Outras iguarias como as batatas, açúcar, especiarias, batatas e outras só chegariam após os Descobrimentos. Até lá, as bolotas alimentavam tanto os suinos como a populaçáo. 

Antes do raiar do sol inicivam-se os trabalhos agrícolas ou dos artesãos e também as lidas da casa. Pão e um raspa de queijo e um punhado de azeitonas e vinho para o almoço às 11horas, depois a merenda por volta das 16 horas e a ceia à noite, Sendo que a dormida não era contínua. Com a noite cerrada às 17 ou às 21 horas, consoante a estação do ano, o primeiro sono era dormido até por volta da meia-.noite, quando as mulheres faziam as limpezas do dia e os homens preparavam os seus parcos instrumentos de trabalho para a próxima jorna. Depois deitavam-se de novo e antes de raiar a aurora, ao cantar do galo estavam prontos para a sua rústica existência. E ainda havia que tratar dos animais. Um mata-bicho para um homem revilatizar para um dia de trabalho era um "shot" de aguardente que foi substituída nos dias de foje pela "bica", 
Os dias, os meses e os anos rolaavam nesta rotina em Alcafozes e em milhares de outras aldeias. Falta-me saber onde se reuniam os fiéis nos dias santos e as tabernas para as tardes dos dias santos...

Uma representação de uma procissão medieval 

domingo, 12 de janeiro de 2025

O cobrador de sisas de Idanha-a-velha e Alcafozes

O primeiro documento que encontrei sobre Alcafozes destrói pela base a versão oficial de que a aldeia foi fundada por muçulmanos, após 711. Existe, datado de 19 de Maio de 1496 uma ordem para João Miguel, morador em Alcafozes, termo da vila de Idanha-a-Velha, nomeado escrivão do efeito da sisas
da cidade de Idanha-a-Velha e seu termo (Alcafozes) tal como ele até aqui foi por odem de D. Joáo II. 
Alcafozes foi sempre, desde a ocupação romana um termo (limite) de Idanha-a-Velha e a designação de Stanis Confossis ou Al Confossis (nem todas as palavras iniciadas por Al, seja por artigo ou por ortografia provenientes da língua árabe. Idanha-a-Velha e Alcafozes estiveram sempre ligadas por um cordão umbilical, como urbanização central e bairro dos arrabaldes, de vastos pastos vitalizados pela Ribeira de Alcafozes. As gaiolas mouriscas poderia ser apenas uma designaçao árabc do Confossis do tempo romanos. Portanto, em 1496, cnfirma-se que Alcafozes fazia parte de Idanha-a-Velha, numa época em que os habitantes das região ascendiam a muitos milhares de indivíduos. 

Em Alcafozes questão da datação exacta dos tempos ainda não é uma verdade absoluta. Alcafozes. É muito possível que no século XV, com a inclusao de famílias de outro estrato social tenham, muito provavelmente  provavelmente contribuído para um um mais locais de culto que entretanto foram sunstituídos por outros ou, numa segunda hipóteses menos considerada, a deslocação ao templo de uma Idanha-a-Velha em decadência ou ao santuári que existia na Granja de São Pedro, dedicaca a S.Francisco e entretanto destruída, possivelmente por umas das muitas inavões estrangeiras que por ali se deslocavam a caminho dos seus conflitos guerreiros  ou à Ermida de Nossa Senhora da Granja, da não muito distante Proença-a.Velha.
Alcafozes  estava inserida em território pertencente à Ordem de Cristo, que teve como administrador o rei D. Manuel I. A ordem foi secularizada em 1510 e, em 1551, pela bula de Júlio III, e no tempo de D. João III, os bens passaram para a Coroa. Foram criadas novas comendas, em que muitas vezes os comendadores arrendavam as propriedades e, nesse sentido, foi sendo frequente a existência de rendeiros, que eram grandes proprietários. Uma dessas famílias poderá ter sido a família Capello, cuja existência em Alcafozes é assinalada em lugares de relevo público

A obra das Misericórdias nasceu em 1498, no ano em que Vasco da Gama descobriu o caminho marítimo para a Índia. Mas até essa data as instituições de beneficência eram rudimentares e encontravam-se dispersas e sem estatuto. Desde a fundação da nação portuguesa, inspiradas pelo espírito de caridade cristã, foram sendo criadas ordens religiosas e militares pelos reis, municípios, bispos, confrarias e particulares. Estas induziam os homens de todas as classes sociais a socorrerem os pobres e necessitados na ausência de qualquer sistema de segurança social organizado.É neste contexto histórico que o cruzamento de duas figuras dará origem à futura rede de Misericórdias: Frei Miguel Contreiras e a rainha D. Leonor.

Frei Miguel Contreiras era um admirável pregador e amparo dos mais desfavorecidos. Pelo que se dizia, percorria as ruas de Lisboa com um anão que recolhera para sua protecção e um jumento no qual carregava as esmolas, para "acordar a caridade" e acudir os pobres e indefesos. A sua fama chegou aos ouvidos da rainha D. Leonor, que o nomeou seu confessor e mestre espiritual. Em 1484, D. Leonor fundou o Hospital das Caldas, dedicado aos pobres, na igreja onde instituiu uma confraria de caridade, sendo este um prenúncio da Misericórdia. Em conjunto com Frei Miguel Contreiras, desenvolveu uma série de obras significativas de ajuda aos necessitados.

A vida rude na Idade Média


Foi então em finais do século XV que, um grupo de "bons e fiéis cristãos", como reza a História, liderados por Frei Miguel Contreiras, na presença da rainha D. Leonor e das mais altas personalidades religiosas e civis, assumiu o compromisso de se dedicar à prática das 14 Obras de Misericórdia quanto fosse possível. 
Gozando D. Leonor de grande prestígio junto da corte e do rei, é neste momento que surge a Irmandade da N.ª Sr.ª da Misericórdia de Lisboa com a aprovação do rei D, Manuel, a génese de todas as que lhe seguiram até aos nossos dias. O monarca tomou-a sob a sua protecção em 1498.Em Castelo Branco a Misericordia  foi fundada em 1510 e, pela ordem natural das distâncias das época, talvez em Alcafozes tenha surgido 5 ou 10 anos depois, apoiada com uma nova classe social que entretanto chegava à aldeia devido à seecularização das terras antes da Ordem de Cristo. 





 

sábado, 11 de janeiro de 2025

A PESTE da MORTE e a ÀGUA da VIDA

 O primeiro e o maior surto de peste negra ocorreu entre 1348 e 1350, mas outros surtos aconteceram ao longo de todo o século XIV. A peste foi uma doença que esteve presente na vida dos europeus até 1720, quando o último surto foi registrado em Marselha, na França, tivesse sido no Porto que a Europa sofreu a última crise endémica de peste negra em 1915. 
Alcafozes, no século XIV estava a recuperar da deserção de muitos habitantes para o Norte aquando da invasao muçulmana. Apesar de não ter sido atingida com a virulência idêntica à da cidade de Lisboa, em que metade da população pereceu, Alcafozes, na altura com pouco mais de 500 habitantes, assistiu à morte de muitos conterrâneos afectados pela terrível epidemia. 
Apesar de tudo, os bons ares vindos de Oeste, ou seja do longínquo mar atlântico e os seus variados recursos hídricos, como a própria Ribeira de Alcafozes, o Rio Ponsul a 6 kms, o Rio Aravil a 2 kms, a fonte do Almo, o poço da Bica, a Fonte Soite, a Fonte Ferrenha e a nascente das Taipinhas relativizaram a peste, embora a actividade intensa de pastorícia fosse intensa da região e a erva ou o pasto de restolho permitissem manter os anumais em condições de produzir carne, leite e lâ e os porcos andassen em varas à procura do seu alimento preferido, a bolota caída dos carvalhos, sobreiros e, ali, as numerosas azinheiras, embora as gentes também a aproveitassem para confesionar refeições porque a batata ainda não tinha chegado da América. 

À medida que o declínio de Idanha-a-Velha se acentuava e a maoria dos seus habitantes fundaram Idanha-a-Nova, que assim emergia de uma letargia pré-histórica e acabou por receber o foral do rei D. Sancho I, em 1206. Embora nunca tenha conhecido o declínio irreversível da Egitânia, Alcafozes, sendo uma aldeia muito mais antiga e praticamente um bairro de Idanha-a-Velha, deixou-se não concorreu com Idanha-a-Nova  pela primazia dominante na zona e continuou a evoluir, mas de uma forma muito menos expedita que a "filha" da Egitânea. Contribuiu também a decadência da Idanha mais velha a passagem do seu bispado para a cidade da Guarda, não se sabendo ao certo se existiu qalquer absorção egitaniense na cidade mais alta de Portugal. 

Para terminar este capítulo, uma referência à Fonte do Álamo, nome oficial do lugar e inscrito no local e a designação que eu e o povo fazemos de Fonte do Almo. Houve quem referisse que os dois termos significavam o mesmo, Não é assim. O álamo é uma árvore decícua que porte médio que pode atingir os 30 metros de altura. Já a palavra almo é proveniente do latim "almu", ou seja, "algo que alimenta". Portanto, nada melhor que observar a paisagem em redor e ver qual delas corresponde à fonte; se algum álamo de 30 metros de altura ou algo que alimenta...ou mata a sede. Aceitam-se opiniões...


Fonte Ferrenha de água férrea em Alcafozes

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

ALCAFOZES NA ORDEM DE CRISTO

 Alcafozes estava inserida em território pertencente à Ordem de Cristo, depois de a Ordem dos Templários ter sido extinta e os seus componentes  serem salvos da morte, prisão e tortura ordenada pelo Papa Clemente V, em 22 de Março de 1312, graças à subtileza e engenho do rei D. Manuel. A nova Ordem daí resutante foi tutelada pelo rei D. Manuel e secularizada em 1510 e, em 1551, pela bula de Júlio III. No tempo de D. João III, os bens passaram para a Coroa. Deste modo foram criadas novas comendas, em que muitas vezes os comendadores arrendavam as propriedades e, nesse sentido, foi sendo cada vez mais frequente frequente a existência de rendeiros, os grandes proprietários da terra. 
Mas. voltando atrás no tempo mais ou menos três séculos, a par com a edificação de castelos e fortificações, os Mestres Templários concedem às populações cartas de foral com o objetivo de firmar os direitos e deveres dos seus habitantes. Neste sentido, foi possível identificar perto de uma dezena e meia de forais que os mestres da milícia Templária concederam às comunidades fixadas nas suas terras. Pão, vinho e linho eram, no entanto, obrigações das populações a conceder aos cavaleiros do templo. 

Eem novembro de 1165, D. Afonso Henriques doou a D. Gualdim Pais a terra de Idanha-a-Velha e de Monsanto, com a condição de esta milícia não só servir o monarca, mas também ser uma forma de reforçar presença de população junto à fronteira. Em outubro de 1213, D. Pedro Álvares de Alvito, Mestre da Ordem do Templo, concede foral a Castelo Branco com a intenção também ali também se fixar população.  Uns anos antes, em janeiro de 1206, os freires Templários tinham recebido de D. Sancho I a vizinha terra de Idanha-a-Nova e o monarca conformaria ainda a doação de Idanha-a-Velha, feita por seu pai D. Afonso Henriques.  A infuência Templária na raia beirã consolidava-se. O mestre Templário tinha residência em Castelo Branco, tendo sido celebrados aí vários capítulos da Ordem. O texto do foral de Castelo Branco enumera obrigações, direitos e penas dos seus habitantes dos vários grupos sociais, acrescentando que os clérigos têm os mesmos direitos dos cavaleiros. Refere-se a cristãos, judeus e mouros em igualdade de circunstâncias, numa situação de fiadores, sem fazer qualquer menção a inimigos. ou oponente. 

Em abril de 1218, o mesmo D. Pedro Álvares de Alvito, Mestre da Ordem do Templo, juntamente com o convento, doam foral à localidade de Proença-a-Velha, geograficamente muito próxima das Idanhas. Aliás, e como se lê no texto do foral, os costumes dados a Proença são os mesmos do foral de Idanha-a-Nova e mesmo o de Castelo Branco: a intenção de fixar população.. Aos clérigos são dados importantes privilégios e liberdades e são estabelecidos os direitos e deveres dos moradores. Tanto mouros como cristãos estavam obrigados ao pagamento de portagens e passagens, o que pressupõe uma igualdade de tratamento a ambos. Há ainda outras referências a mouros no texto do documento, mas enquanto moradores do concelho, sugerindo uma convivência pacífica entre povos. Depois  No ano seguinte, o mesmo monarca doara a D. Pedro de Alvito, Mestre Templário, as vilas de Idanha-a-Nova e Idanhaa-Velha, confirmando carta de doação de D. Sancho I à Ordem do Templo da vila de Idanha-a-Nova, que por sua vez confirmava doação à Ordem da vila de Idanha-a-Velha.
Por essa altura, Alcafozes era pouco mais que a actual Rua Dr. António Lopes e uns palheiros à saida da terra, onde uma cerca e portões asseguravam que nem bandos de saqueadores ou animais selvagens, nomeadamente matilhas de lobos ou ursos roubavam ou dizimavam o gado. 


Casas e palheiros limítrofes de Alcafozes na Idade Média

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Tratado de Alcanizes e Alcafozes portuguesa

 A Ordem do Templo foi fundada em 1118 ou 1119 e extinta em 1312. Na sexta-feira, dia 13 de outubro de 1307, centenas de cavaleiros Templários por toda a França foram presos simultaneamente por agentes de Filipe o Belo e sujeitos a tortura para confessarem a heresia da própria ordem religiosa, facto que provavelmente esteve na origem da superstição de as sextas-feiras dia 13 serem considerada dias de azar. Os Templários conjugavam o ideal do monge com o exercício da guerra. Após o seu reconhecimento no Concílio de Troyes, em 1128-9, os freires dedicaram-se à proteção dos peregrinos ao longo dos caminhos até aos lugares santos e tiveram um papel crucial na Reconquista Cristã.

A Reconquista Cristã ter-se-á iniciado em 1064, mas a entrada da ordem religioso-militar no Condado Portucalense é anterior. A milícia ter-se-á apresentado aquando a sua fundação, pela primavera de 1128, ano em que a Ordem foi estabelecida.Em Portugal, e no contexto da Reconquista, procurou-se restaurar as antigas dioceses dos reinos suevo e visigodo. Braga assume em 1071 um papel político e eclesiástico no Condado, evidenciado pela sua entrega ao arcebispo em 1112, por parte do Conde D. Henrique, que escolheu a catedral para sua sepultura. A diocese do Porto foi restaurada em 1112-13.

Gualdim Pais, o Mestre da Ordem, doou ao Templo  Idanha-a-Velha, Monsanto e provavelmente Segura, o que terá ocorrido em 1165 e ali edificaram os castelos. A documentação relativa à presença da milícia em Castelo Branco remonta àquele ano. Dois anos depois, Geraldo Sem Pavor conquistar Monsanto. Em 1169, D. Afonso Henriques doou a terça parte das terras que conseguissem conquistar a sul do rio Tejo, algumas com importância militar, a fim de se prosseguir com a Reconquista. Em 1169, o rei doou os castelos de Cardiga e do Zêzere e suas propriedades.O Mestre Gualdim Pais  restaurou os castelos de Almourol e Cardiga (1171) e realizou obra nas fortalezas de Monsanto e Idanha, através das quais acautelou a defesa do vale do Tejo. Esta linha de defesa assumiu um papel determinante no século XII face aos almóadas, aquando o cerco de seis dias ao castelo de Tomar pelos almóadas, em 1190. 

No reinado seguinte, D. Sancho I confirmou a doação a Idanha-a-Velha em 1197 por constituir uma área difícil de manter, mas Mogadouro e Penas Róias voltaram à coroa. Em 1198, os Templários receberam Nisa-a-Velha e no ano seguinte, Ródão. No entanto, o Alentejo não estava destinado ao Templo, mas sim a outras ordens religioso-militares. Em 1203, é doada Idanha-a-Nova e em 1206, Dornes. A construção da Torre de Dornes terá sido encomendada por Gualdim Pais na segunda metade do século XII. Castelo Novo é mencionado em testamento do seu alcaide em 1208 como sendo possessão da Ordem à data. Por D. Afonso II, os Templários receberam a terra de Cardosa, em Castelo Branco. Em 1215, é doado o Castelo de Coruche, assim como vinha e casas em Évora. Em 1218, Alcácer do Sal foi conquistado e o foral concedido a Proença-a-Velha, ambos pela Ordem. Nos anos seguintes foram sendo atribuídas as cartas a Vila de Touro, Ega, Idanha-a-Velha, mas em 1244, D. Sancho II volta a doar ao Templo os direitos de Idanha e de Salvaterra do Extremo, junto à fronteira. O castelo de Rosmaninhal terá sido construído depois de 1237, após o povoamento da vila pelos Templários. 
O tratado de Alcanzes, assinado em 1297, pelo rei D. Dinis, definiu as fronteiras entre as Beiras e a Extremadura castelhana, as quais ainda hoje se mantêm, sendo consideradas as mais antigas da Europa. Alcafizes é definitivamente portuguesa. 


Gualdim Pais e os Templários, os primeiros donos da Alcafozes portuguesa


O "LEQUE" nos anos 60

  Já assisti, por várias vezes, gente mais nova de Alcafozes perorar sobre como seria o "Leque" em tempos que já lá vão. Há poucas...