Era um domingo de sol quente de Outono. Fui ao Estádio da Luz ver o jogo entre o Benfica e o Sporting. O meu clube ganhou esse encontro por 4-1, com 4 golos do fenomenal Eusébio. Fui radiante para casa, como é evidente. Não estava ninguém. Os meus pais tinham ido dar o passeio domingueiro. Quando ia comer pão com manteiga, aquele pão escuro tão saboroso daquela época, tocou o telefone. Estranhei. Ainda me lembro do número: 362862. Atendi.
Uma voz rouca do outro lado do fio e uns ruídos tão característico ao tempo deu-me a pior notícia que poderia imaginar, embora o meu avô sofresse há uns meses de uma doença grave.
Lá, da longínqua aldeia de Alcafozes, distrito de Castelo Branco e concellho de Idanha-a-Nova, uma voz roufenha informou a morte do meu avô materno, Joaquim Matos Rolo ou Joaquim Brito -- por mais estranho que possa parecer nos dias de hoje ele tinha dois nomes registados -- figura conhecida na terra por 'ti Estroina.
Mal desliguei o telefone o meu pai e a minha mãe entraram e fui obrigado a comunicar-lhes a triste, mas esperada, ocorrência. Rapidamente os meus tios foram informados do falecimento e horas depois todos estavam a caminho da aldeia, no automóvel do meu pai, ficando de fora eu e o meu primo João, por já não cabermos na viatura, uma carrinha Fiat 124 amarela.
Deixei rolar umas lágrimas â janela e custou-me a "desatar" o nó que me apertava a garganta. O meu avô Joaquim era uma figura que influenciara profundamente a minha formação, era a pessoa da família que eu mais adorava e via-o como uma espécie de herói ao vivo e não os de capa e espada dos livros aos quadradinhos. Ainda hoje, passados todos estes anos, sigo na íntegra os seus princípios morais e dogmas sociais, o que me deixa à vontade para andar de cabeça levantada por onde quer que passe.
Aquelas nossas conversas noite fora nas cálidas noites de Verão, nas cadeiras de palha à porta da casa que ele construiu com as suas próprias mãos, moldaram-me o carácter e orientaram-me a vivência.
Eu e o meu primo João apanhámos o comboio da 00h05, na Estação de Santa Apolónia, para a Beira Baixa. Tudo correu bem até à estação do Entroncamento. Aí tudo se complicou. Saímos da composição para irmos comprar sandes e cerveja numa das cervejarias da rua em frente à entrada das bilheteiras. Subimos para os degraus da última carruagem com a merenda na mão. Ficámos com cara de parvos quando o comboio começou a andar e a nossa carruagem, mais as duas da frente, não se mexia.
Como dois patetas, ainda ficámos na esperança de que se tratasse de alguma manobra. Nada disso. Um empregado das bagagens disse-nos que as carruagens da frente seguiam para a Beira Baixa e aquela onde estávamos tinha como destino a Linha do Leste (Elvas e Badajoz).
O funeral estava marcado para o final da manhã e o próximo comboio para Castelo Branco saía de Lisboa às 07h35, o que significava que não chegaríamos a tempo de nos despedimos do nosso avô Joaquim. Mas não desistimos.
Como nos servia seguir até Abrantes aproveitando a Linha do Leste entrámos na carruagem e partimos uma meia hora depois. Às 3 da madrugada chegámos ao Rossio ao Sul do Tejo. Estava nevoeiro e não se via vivalma. Procurámos um táxi e nem um. Ainda fomos a casa de um dos motoristas de táxi, por indicação do chefe da estação, e ele recusou fazer a viagem que pretendíamos. Deve ter pensado que eramos dois meliantes que o assaltariam no trajecto.
Tentámos uma boleia na ponte que atravessa o Rio Tejo. Nada de nada. Nem um cão ou um gato se moviam naquele nevoeiro tão sebastiânico. Subitamente ouvimos o silvo agudo de uma máquina de comboio. Corremos para a estação. Desilusão. Era um comboio de mercadorias.
Entabulamos conversa com o maquinista. Aquela composição era designada por "Frateleiro" e não fazia serviço de passageiros, a não ser os que trabalhavam na construção da barragem do Fratel. Contámos a nossa adversidade e pedimos uma "boleia" até Castelo Branco num dos vagões. O homem teve pena de nós e anuiu, com a condição de assumirmos a nossa responsabilidade em caso de se verificar um acidente.
O "Frateleiro" parava em todas as estações e apeadeiros. Ajudámos a tirar colchões, bicicletas e cabras dos vagões. Já passava da uma da tarde quando chegámos a Castelo Branco. Desanimados, já sabíamos que o funeral estava perdido. A esta hora a família devia estar a pensar por onde andaríamos ou se nos tinha acontecido alguma coisa. A era dos telemóveis ainda estava nos horizontes do tempo.
Para nos complicar ainda mais a vida, a camioneta de passageiro para Idanha-a-Nova avariou na Ponte de S. Gens. Tivemos de esperar por outra. Depois de Idanha-a-Nova para Alcafozes eram mais 13 kmslá fomos estrada fora numa ronceira camiota da carreira, que "dormia" no adro da igreja de Alcafozes, e quando chegámos, por volta das 6 da tarde, fomos directos ao cemitério. "Boa tarde", saudámos o coveiro. O homem apanhou um susto dentro da cova que estava a abrir. "Ó almas do diabo, que quereis daqui...", praguejou.
A boa notícia é que o funeral ainda não se efectuara. Que alívio. Corremos para casa e a família recebeu-nos com alívio. Dissemos o que se passara naquela odisseia azarada. Adiaram o funeral à nossa espera e também porque andava à nossa procura. Já era noite.
O corpo do meu avô Joaquim estava dentro do caixão, no meio da sala, apoiado em quatro cadeiras. Reparei que a gatinha da casa estava aninhada no espaço por baixo da urna. A minha avó disse-me que a bichana não saíra dali nem por um minuto.
Fechou-se o caixão e saiu o funeral à luz de velas dos homens da Irmandade da Misericórdia, à qual o meu avô também pertencia. Usavam umas capas roxas e uns capuzes em forma de bico. O burro zurrou quando o corpo do dono saiu de casa. Fiz questão de puxar o armão de duas rodas juntamente com o meu primo João até ao cemitério.
E aí jaz o meu saudoso avô Joaquim!

Uma viagem atribulada mas cumpriu-se o essencial 🙏🏼
ResponderEliminar