terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

A CASA DOS MEUS AVÓS

Esta é a casa original dos meus avós, onde entrei pela primeira vez aos seis meses de idade. Quando, mais velho, tomei consciência do que me rodeava, esta era a casa dos meus sonhos. Aquela pela qual eu aguardava um ano para ali passar a quase totalidade do mês de Setembro. Como não tenho uma foto da casa nessa época, o filho da mãe que mas roubou que as coma ao pequeno-almoço em vez de flocos, pintei este quadro que a reproduz quase, na sua essência, inspirada fielmente da memória que perdura, dos muitos detalhes que recordo, dos cheiros que aromam o imaginário.

Na noite anterior à viagem para Alcafozes mal dormia, tal era a excitação de regressar ao castelo encantado do meu avô Joaquim e da minha avó Rola, no Cabeço. Olhava embevecido para as pedras da fachada, empoleiradas com sabedoria, uma rusticidade que lhe conferia o ar natural de uma aldeia acima do Tejo.
Deitado, observava os pássaros entre as telhas a caminho dos seus ninhos. Pura magia. Na cozinha, ao lado da sala e de dois quartos, a panela de ferro aquecia com o lume que a lambia o almoço e o jantar de um dia que começa com as fatias de pão a torrar nas brasas.
No piso térreo ia visitar os burros ali instalados numa alcatifa de palha e, apesar do feno ma manjedoura, surripiava uma maçã ou uma pera para levar às beiças rugosas do jerico. De vez em quando dava uns pulos na forragem que chegava ao chão do andar de cima.
À medida que a idade avançava, não era só eu que mudava, a casa também. Desgostou-me aquele "facelift" na fachada que escondeu o lego de pedras e as rugas identitárias. Perdia o encanto para se equivaler a uma qualquer casa dos subúrbios das grandes cidades. Modernizava-se, aconchegava-se, por um lado, mas definhava por outro e aos poucos deixei de a amar como a amava para ficar só embrenhado na nostalgia. Aquela afeição que nutria por ela sumiu e esfumou-se no pó de arroz e no rímel de uma maquilhagem que não merecia. O conforto e o bem-estar não precisam de ser expostos como sinais públicos de entesouramento privado,
A côdea e o miolo de uma habitação de uma aldeia característica podem coexistir em harmonia para que não se desfigure a imagem que transparece para fora. Nunca me pareceu impossível que um interior recheado com um luxo das arábias não pudesse continuar a ser envolvido por uma imagem externa de rusticidade tradicional. Aliás, até deveria ser obrigatório se a porca da política não fosse o que é.
Quem não preserva o passado não projecta o futuro.
De qualquer modo, desculpem lá o revivalismo.


Pintura da minha autoria da casa (original) dos meus avós


1 comentário:

  1. Também a minha casa na mesma rua sofreu esse facelift e até o palheiro! Também tenho boas memórias das férias de Setembro, um mês inteiro de liberdade, com a festa da Sra do Loreto no terceiro fim de semana, bem antes do início das aulas. Recordo esses tempos com saudades. Férias com os avós era top!

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