quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

A pedra fenícia na Capela da Misericórdia

Antes de os romanos conquistarem definitivamente a Lusitânia, os fenícios e os cartagineses pastavam gado em Alcafozes e também era terra de passagem na transumância dos rebanhos para a Serra da Estrela. A terra era fértil em água devido à ribeira que, hoje em dia, está canalizada pelo meio da aldeia. Há 60 anos, lembro-me de ir do Cabeço ao Povo e passar, no final da Quelha (que significa espaço de todos ou espaço comum), Rua do Ribeirinho, por cima de umas pedras para não molhar os pés na água cristalina que corria ao ar livre. Essa abundância de água e pasto alimentavam um número elevado de animais, de tal modo que se recorreu à proibição de passar pelo povoado rico do precioso líquido, tendo colocado à entrada do casario uma pedra com a inscrição fenício-cartaginesa "sulunerhomo" gravada, que se pode traduzir como "caminho proibido pelo povo (homo)". Essa pedra encontra-se "escondida" na Capela da Misericória de Alcafozes e duvido que meia dúzia de pessoas da terra saibam da sua existência e do seu significado. 

Quando os romanos se instalaram finalmente na zona onde acabava a Egitânia (Civitas Igaeditanorum) já tinham passado por Staguis Confossis ou Villae Confossis, Alcafozes na denominação do consul de Roma por estas paragens. Aquela que antes passara apenas por um posto de vigia na estrada romana de Castelo Branco para Idanha-a-Velha, troço da via principal Mérida-Braga) com legionários instalados no Monte das Taipinhas, onde está instalado há duas centenas de anos a Capela de Nossa Senhora do Loreto, para comunicar com os postos de vigilância da actual Senhora do Almortão e Idanha-a-Velha. Existem marcos miliários (distância de mil passos percorrida por uma legião) que comprovam a existência dessa via, um dele no museu de Idanha-a-Nova, outro com referências ao imperador romano Augusto e ainda pelo menos mais um terceiro numa rua perto do adro da Igreja de São Sebastião, o patrono da aldeia, na esquina de um prédio na Rua Joaquim Franco. 
Staguis Confossis ou Villae Confossis significa e latim terra de lama ou vila de lama. O termo corresponde ao terreno alagado, tipo lameiro muito frequente em zonas mais a Norte, onde a erva cresce em abundância nas margens de um curso de água de pouca profundidade, como é o caso da Ribeira de Alcafozes. Villaer Confossis era o que se pode chamar um arrabalde de Civitas Igaeditanorum, um dos limites de Idanha-a-Velha. Os romanos logo aproveitaram a riqueza da abundância de gado, de azeite e vinho. As vinhas, no entanto, perderam-se mais tarde, ficando como memória o Monte das Vinhas, perto da fonte do Almo. Não é por acaso que no brasão de Alcafozes consta uma oliveira e não "pão e carvão", como transformaram, erradamente, o lema da terra. 

A pedra fenício-cartaginesa "escondida" na Capela da Misericórdia

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