domingo, 23 de fevereiro de 2025

A ODISSEIA DE UMA VIAGEM FÚNEBRE PARA ALCAFOZES

 Era um domingo de sol quente de Outono. Fui ao Estádio da Luz ver o jogo entre o Benfica e o Sporting. O meu clube ganhou esse encontro por 4-1, com 4 golos do fenomenal Eusébio. Fui radiante para casa, como é evidente. Não estava ninguém. Os meus pais tinham ido dar o passeio domingueiro. Quando ia comer pão com manteiga, aquele pão escuro tão saboroso daquela época, tocou o telefone. Estranhei. Ainda me lembro do número: 362862. Atendi.

Uma voz rouca do outro lado do fio e uns ruídos tão característico ao tempo deu-me a pior notícia que poderia imaginar, embora o meu avô sofresse há uns meses de uma doença grave.
Lá, da longínqua aldeia de Alcafozes, distrito de Castelo Branco e concellho de Idanha-a-Nova, uma voz roufenha informou a morte do meu avô materno, Joaquim Matos Rolo ou Joaquim Brito -- por mais estranho que possa parecer nos dias de hoje ele tinha dois nomes registados -- figura conhecida na terra por 'ti Estroina.
Mal desliguei o telefone o meu pai e a minha mãe entraram e fui obrigado a comunicar-lhes a triste, mas esperada, ocorrência. Rapidamente os meus tios foram informados do falecimento e horas depois todos estavam a caminho da aldeia, no automóvel do meu pai, ficando de fora eu e o meu primo João, por já não cabermos na viatura, uma carrinha Fiat 124 amarela.
Deixei rolar umas lágrimas â janela e custou-me a "desatar" o nó que me apertava a garganta. O meu avô Joaquim era uma figura que influenciara profundamente a minha formação, era a pessoa da família que eu mais adorava e via-o como uma espécie de herói ao vivo e não os de capa e espada dos livros aos quadradinhos. Ainda hoje, passados todos estes anos, sigo na íntegra os seus princípios morais e dogmas sociais, o que me deixa à vontade para andar de cabeça levantada por onde quer que passe.
Aquelas nossas conversas noite fora nas cálidas noites de Verão, nas cadeiras de palha à porta da casa que ele construiu com as suas próprias mãos, moldaram-me o carácter e orientaram-me a vivência.
Eu e o meu primo João apanhámos o comboio da 00h05, na Estação de Santa Apolónia, para a Beira Baixa. Tudo correu bem até à estação do Entroncamento. Aí tudo se complicou. Saímos da composição para irmos comprar sandes e cerveja numa das cervejarias da rua em frente à entrada das bilheteiras. Subimos para os degraus da última carruagem com a merenda na mão. Ficámos com cara de parvos quando o comboio começou a andar e a nossa carruagem, mais as duas da frente, não se mexia.
Como dois patetas, ainda ficámos na esperança de que se tratasse de alguma manobra. Nada disso. Um empregado das bagagens disse-nos que as carruagens da frente seguiam para a Beira Baixa e aquela onde estávamos tinha como destino a Linha do Leste (Elvas e Badajoz).
O funeral estava marcado para o final da manhã e o próximo comboio para Castelo Branco saía de Lisboa às 07h35, o que significava que não chegaríamos a tempo de nos despedimos do nosso avô Joaquim. Mas não desistimos.
Como nos servia seguir até Abrantes aproveitando a Linha do Leste entrámos na carruagem e partimos uma meia hora depois. Às 3 da madrugada chegámos ao Rossio ao Sul do Tejo. Estava nevoeiro e não se via vivalma. Procurámos um táxi e nem um. Ainda fomos a casa de um dos motoristas de táxi, por indicação do chefe da estação, e ele recusou fazer a viagem que pretendíamos. Deve ter pensado que eramos dois meliantes que o assaltariam no trajecto.
Tentámos uma boleia na ponte que atravessa o Rio Tejo. Nada de nada. Nem um cão ou um gato se moviam naquele nevoeiro tão sebastiânico. Subitamente ouvimos o silvo agudo de uma máquina de comboio. Corremos para a estação. Desilusão. Era um comboio de mercadorias.
Entabulamos conversa com o maquinista. Aquela composição era designada por "Frateleiro" e não fazia serviço de passageiros, a não ser os que trabalhavam na construção da barragem do Fratel. Contámos a nossa adversidade e pedimos uma "boleia" até Castelo Branco num dos vagões. O homem teve pena de nós e anuiu, com a condição de assumirmos a nossa responsabilidade em caso de se verificar um acidente.
O "Frateleiro" parava em todas as estações e apeadeiros. Ajudámos a tirar colchões, bicicletas e cabras dos vagões. Já passava da uma da tarde quando chegámos a Castelo Branco. Desanimados, já sabíamos que o funeral estava perdido. A esta hora a família devia estar a pensar por onde andaríamos ou se nos tinha acontecido alguma coisa. A era dos telemóveis ainda estava nos horizontes do tempo.
Para nos complicar ainda mais a vida, a camioneta de passageiro para Idanha-a-Nova avariou na Ponte de S. Gens. Tivemos de esperar por outra. Depois de Idanha-a-Nova para Alcafozes eram mais 13 kmslá fomos estrada fora numa ronceira camiota da carreira, que "dormia" no adro da igreja de Alcafozes, e quando chegámos, por volta das 6 da tarde, fomos directos ao cemitério. "Boa tarde", saudámos o coveiro. O homem apanhou um susto dentro da cova que estava a abrir. "Ó almas do diabo, que quereis daqui...", praguejou.
A boa notícia é que o funeral ainda não se efectuara. Que alívio. Corremos para casa e a família recebeu-nos com alívio. Dissemos o que se passara naquela odisseia azarada. Adiaram o funeral à nossa espera e também porque andava à nossa procura. Já era noite.
O corpo do meu avô Joaquim estava dentro do caixão, no meio da sala, apoiado em quatro cadeiras. Reparei que a gatinha da casa estava aninhada no espaço por baixo da urna. A minha avó disse-me que a bichana não saíra dali nem por um minuto.
Fechou-se o caixão e saiu o funeral à luz de velas dos homens da Irmandade da Misericórdia, à qual o meu avô também pertencia. Usavam umas capas roxas e uns capuzes em forma de bico. O burro zurrou quando o corpo do dono saiu de casa. Fiz questão de puxar o armão de duas rodas juntamente com o meu primo João até ao cemitério.
E aí jaz o meu saudoso avô Joaquim!

O avô Joaquim, o ti Estroina de Alcafozes, Eu e o meu primo João levámo-lo até à última morada.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

CAPELA DE NOSSA SENHORA DAS DORES

A capela foi construída no século XVIII, refletindo as características arquitetônicas da época barroca. Apresenta uma fachada simples, mas elegante, com elementos típicos do barroco português, como altares decorados e azulejos. Nossa Senhora das Dores é venerada como a padroeira dos aflitos, e a capela se tornou um local de peregrinação para os fiéis da região.

Era a capela onde as grávidas iam rezar, para que tivessem um parto normal e com menos DORES possíveis. No seu interior, só tem um pequeno altar com a imagem da Sª das Dores. Está sempre fechada, e só é aberta uma vez por ano no período da Quaresma, para arejar e limpar.

A capela de Nossa Senhora das Dores (Foto e investigação de João Rolo)

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

O MEU AVÔ NO ASSASSINATO DE SIDÓNIO PAIS

 Noite cálida numa pequena aldeia da Beira Baixa. Alcafozes. Um logradouro fundado por romanos, mais ou menos no século I, onde se pastoreavam vacas, cabras e ovelhas. Era comum nas férias grandes passar horas à conversa com o meu avô Joaquim. Sentados no solar da porta, nas tradicionais cadeiras de verga, ouvia as suas palavras, bebia os seus conhecimentos e registava as suas memórias. Até aos meus 18 anos, altura em que o meu avô faleceu, foi ele quem moldou o meu carácter para sempre. Espinha direita, verticalidade e desassombro foram os dogmas que me transmitiu. Impunha-se pela sua figura imponente e carismática, não necessitando sequer de botar palavra para todos à volta se submeterem a uma postura de reverência quase religiosa. Era como um alcaide no seu castelo. Sentia-me seguro perto dele. Ali ninguém me incomodava física ou psicologicamente. Um olhar dele bastava para afastar qualquer veleidade de disputa.

Nessas longas horas em que se esperava pelo refrescar do astro nocturno naquela rua de pedra granítica, soube, entre muitas outras narrativa, de como ocorrera a ascensão e morte do quarto presidente da República Portuguesa, Sidónio Pais.
14 de Dezembro de 1918.
A notícia do assassinato a tiro na Estação do Rossio, caiu repentinamente no quartel de Lanceiros 2, na Calçada da Ajuda, onde o meu avô prestava serviço militar. Os soldados do esquadrão aparelharam os cavalos num ápice e carregaram as armas. Saíram a galope pela Avenida 24 de Julho, atravessaram o Cais do Sodré e subiram ao lLargo do Carmo. A multidão já enchia as ruas e gente pacífica misturava-se com desordeiros oportunistas para tomarem conta da situação. Na descida íngreme da Calçada do Carmo para a Estação do Rossio os cascos dos cavalos escorregavam nas pedras do estreito arruamento. Havia quem quisesse derrubar a tropa das selas e o caminho foi aberto a golpes de sabre. Lisboa era uma caos na zona dos Restauradores.
Sidónio Pais, major de Artilharia, mas fundamentalmente um brilhante professor de Matemática, distinguia-se como professor de Cálculo Diferencial e Integral na Universidade de Coimbra, exalava o último suspiro no Hospital de São José. O funeral do presidente que acabara com as perseguições assassinas dos republicanos à Igreja Católica e que decidira o sufrágio directo e universal para eleger o Presidente da República foi tumultuoso e reuniu uma multidão impressionante para a época.
O meu avô e os camaradas de armas de Lanceiros 2 tentavam restaurar a ordem, atemorizando os mais excitados com os cavalos cobertos de suor. Seguiram-se dias de revoltas populares das milícias armadas e levantamentos em unidades militares. Dada a situações caótica em que o país mergulhou houve necessidade de cavalgar de noite de Lisboa para o quartel de cavalaria de Santarém, onde, aliás, o meu avô assentara praça dois anos antes. A desordem em Portugal evitou que ele integrasse o Corpo Expedicionário na I Guerra Mundial.
Entre tiroteios e escaramuças, ora em Lisboa, ora noutros pontos do país, ele esteve presente na maioria deles, nesses tempos turbulentos para a jovem República. Na última fase da sua carreira militar, foi transferido para Elvas, numa altura em que se suspeitava que os espanhóis estariam prestes a intervir (invadir)em Portugal, uma intenção que o rei castelhano Afonso XIII não escondia nos meios diplomáticos.

A invasão não se processou e o meu avô passou à disponibilidade no Batalhão de Caçadores 8, aboletado em Elvas, uma unidade onde eu acabei por prestar serviço, desde o final de Março até 12 de Junho de 1975.
Livre de todas as incidências e obrigações castrenses, numa altura em que estradas e transportes se limitavam a desaguar em Lisboa ou no Porto, o meu avô fez a pé a caminhada entre Elvas e Castelo Branco e daí mais 50 quilómetros até à aldeia de Alcafozes, onde ele me contava a sua odisseia, levando às costas um precioso par de botas de cavalaria e comendo figos, bolotas, ameixas, pêras, maçãs e amoras pelos caminhos agrestes desbravados pelos passos firmes e vigorosos através dos campos cobertos de restolho.
Obrigado, avô Joaquim, por essas noites inesquecíveis.

Soldados de Alcafozes no assassinato do presidente Sidónio Pais.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

A CASA DOS MEUS AVÓS

Esta é a casa original dos meus avós, onde entrei pela primeira vez aos seis meses de idade. Quando, mais velho, tomei consciência do que me rodeava, esta era a casa dos meus sonhos. Aquela pela qual eu aguardava um ano para ali passar a quase totalidade do mês de Setembro. Como não tenho uma foto da casa nessa época, o filho da mãe que mas roubou que as coma ao pequeno-almoço em vez de flocos, pintei este quadro que a reproduz quase, na sua essência, inspirada fielmente da memória que perdura, dos muitos detalhes que recordo, dos cheiros que aromam o imaginário.

Na noite anterior à viagem para Alcafozes mal dormia, tal era a excitação de regressar ao castelo encantado do meu avô Joaquim e da minha avó Rola, no Cabeço. Olhava embevecido para as pedras da fachada, empoleiradas com sabedoria, uma rusticidade que lhe conferia o ar natural de uma aldeia acima do Tejo.
Deitado, observava os pássaros entre as telhas a caminho dos seus ninhos. Pura magia. Na cozinha, ao lado da sala e de dois quartos, a panela de ferro aquecia com o lume que a lambia o almoço e o jantar de um dia que começa com as fatias de pão a torrar nas brasas.
No piso térreo ia visitar os burros ali instalados numa alcatifa de palha e, apesar do feno ma manjedoura, surripiava uma maçã ou uma pera para levar às beiças rugosas do jerico. De vez em quando dava uns pulos na forragem que chegava ao chão do andar de cima.
À medida que a idade avançava, não era só eu que mudava, a casa também. Desgostou-me aquele "facelift" na fachada que escondeu o lego de pedras e as rugas identitárias. Perdia o encanto para se equivaler a uma qualquer casa dos subúrbios das grandes cidades. Modernizava-se, aconchegava-se, por um lado, mas definhava por outro e aos poucos deixei de a amar como a amava para ficar só embrenhado na nostalgia. Aquela afeição que nutria por ela sumiu e esfumou-se no pó de arroz e no rímel de uma maquilhagem que não merecia. O conforto e o bem-estar não precisam de ser expostos como sinais públicos de entesouramento privado,
A côdea e o miolo de uma habitação de uma aldeia característica podem coexistir em harmonia para que não se desfigure a imagem que transparece para fora. Nunca me pareceu impossível que um interior recheado com um luxo das arábias não pudesse continuar a ser envolvido por uma imagem externa de rusticidade tradicional. Aliás, até deveria ser obrigatório se a porca da política não fosse o que é.
Quem não preserva o passado não projecta o futuro.
De qualquer modo, desculpem lá o revivalismo.


Pintura da minha autoria da casa (original) dos meus avós


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

A VIAGEM LISBOA-ALCAFOZES nos anos 50

A primeira recordação de uma longa viagem com ela aconteceu na visita anual à Beira Baixa, província de onde é natural a minha família. Teria eu uns 4 ou 5 anos. O despertar para essa verdadeira epopeia iniciava-se muito cedo. Às 2h30 ou 03h00 da madrugava já os meus pais me chamavam para levantar da cama. Ainda ensonado, mas muito excitado pelo acontecimento que me aguardava, seguia-se a lavagem o pequeno-almoço quando ainda os galos não cantavam, os últimos acertos e retoques da bagagem e, finalmente, a ida para a estação de Santa Apolónia. O comboio para a Beira Baixa partia da Linha 2 às 07h35. Naquele tempo, finais dos anos 50, as composições eram uma longa fila de carruagens de I, II e III classe. Eu ficava fascinado com aqueles "monstros" sobre carris e o cheiro que deles emanava. O meu Pai, nessa altura, só tinha 15 dias de férias e seguia mais tarde de carro, a tempo de convivermos todos nas festas anuais de Nossa Senhora do Loreto. Portanto, este trajecto obrigatório de inícios de Setembro fazia-se sem ele, mas com a minha Mãe, as minhas tias e o meu primo. Mal o comboio se punha em movimento eu queria era ir pendurado à janela. Não havia ainda aquelas modernices do ar condicionado e sentir o vento na cara, ouvir o roncar da locomotiva diesel e observar aquela longa extensão de carruagens nas curvas deixavam-me extasiado. A minha Mãe estava sempre a puxar-me para dentro, não só por questões de segurança, mas também para não ficar todo mascarrado com as partículas de fumo ejectadas pela locomotiva. E logo ela que queria sempre tudo muito limpo, fosse em que circunstâncias fosse.

Passadas as estações de Vila Franca de Xira, Santarém, Abrantes, já quando o comboio seguia paralelo ao rio Tejo e se vislumbrava o majestoso castelo de Almourol era hora da abrir o saco da merenda. E como sabiam bem as sandes de carne assada, os pastéis e as pataniscas de bacalhau ou os carapaus fritos.
De quando em vez lá ia a minha Mãe buscar-me por uma orelha à varanda da carruagem, muito parecida com aquelas que se vêm nos filmes do Far-West. Quer dizer que chegava a Castelo Branco com as minhas pobres orelhas em brasa...
Na capital da Beira Baixa, o calor já apertava bastante às 12h30. Aí, uma camioneta de passageiros levava-nos para a garagem central da empresa de transportes de passageiros Martins-Évora. Havia que esperar pela ligação rodoviária entre Castelo Branco e Idanha-a-Nova. Eu ficava esbaforido com o calor e lembro-me da senhora que vendia bananas e comia uma ou duas.
Mas ainda havia que fazer o percurso de Idanha-a-Nova para Alcafozes, numa relíquia das estradas que era a vetusta Ford, apenas com uma porta ao meio, a arrastar-se e a fumegar do radiador pelo caminho de terra e saibro até chegarmos, já quase ao pôr-do-sol, a Alcafozes, o nosso destino.
À entrada da aldeia estava sempre a minha avó à nossa espera, às vezes com um jerico pela rédea para ajudar a levar as malas e bagagens até à casa construída pelo meu avô Joaquim.
Ainda nem sequer tinha entrado em casa e já andava a correr atrás das galinhas e, obviamente, a minha Mãe, mais uma vez, a puxar-me as orelhas e a enfiar-me numa bacia de água para me lavar no final daquela longa maratona.
Uffff!

Eu, à direita, já crescidinho. E o bigode também...

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

O BURRO "SÓCIO" DO MEU AVÔ "ESTROINA"

 O "Sócio" foi o último burro do meu avô Joaquim Matos Rolo. Mas a conotação humana de burro não se aplica, de modo algum, ao "Sócio", o dito. Esperto e discreto, nada burro o solípede. O "Sócio" era o jipe 4x4 do meu avô Joaquim Matos Rolo. Um burro ruço, mas não soviético e muito menos pertencente à ortodoxia com a sua capital em Moscovo, no Kremelin, apenas um questão de coloração do pêlo.

Afinal, o nome condizia com a relação do meu avô com o solípede. Eram sócios. Vida em comum em longas viagens pelas províncias beirãs. Havia que tratar da existencialidade de cada um. As jornas do meu avô Joaquim Matos Rolo eram, não raras vezes, longe de casa uma semana. Da madrugada de domimgo para segunda até ao sábado seguinte. Às 2 da manhã já o "Sócio" estava despperto para sair com o seu sócio.
O "Sócio" andava junto à veredas dos caminhos. Os passos das 4 patas ferradas eram curtas mas rápidas. O meu avô, Joaquim Matos Rolo tanto acompanhava o "Sócio" a pé, como subia para o dorso, instalando-se na albarda para dar uma trégua às pernas vigorosas. Nessas malas Vitton para burros, mulas e cavalos, os tecidos não vinham de Milão ou das Amoreiras ou de qualquer outra loja das vaidadades. Os alforges eram urdidos de roupa velha, trapos já gastos e em desuso. Neles, além de ferramentas para o trabalho que o esperava de sol a sol, transportava-se merenda para uma semana. Pão de trigo amassado pela minha avó Rola e cozido no forno comunitário da aldeia, chouriço, toucinho e o que mais fornecia o porco criado ao longo do ano na furda, queijo, azeitonas e a cabaça do vinho da loja do ti Periquito.
O "Sócio", como toda a família de muares, são frugais. Carapetos, restolho, erva, praticamente todo o vegetal o alimenta, recebendo também alguns mimos pelo caminho, pêras, maçãs e ainda mais uns punhados de aveia, que o energizava como aquela gasolina com aditivos para dar potência ao motor. Um verdadeiro Mc Ervas sem Donald ou JeneSaisCus de emproados e pindéricas.
Sentado no "Sócio", o meu avô Joaquim Matos Rolo enrolava o tabaco de onça Duque na mortalha Touro. Passe a publicidade. Nessas viagens nocturnas brilhava apenas o borrão da pirisca entre os lábios do meu avô Joaquim Matos Rolo. O "Sócio", esse, tinha uns faróis mais potentes que os ledes dos burros mecânicos mais recentes, eléctricos, plug-in ou fósseis. Ao nascer do sol era preciso entrar ao serviço da natureza. O astro-rei era o relógio de ponto para os funcionários campestres, mais certeiro que os seus primos suíços. O "Sócio", com a tranquilidade típica de um asno 4x4, ia mordiscando aqui e ali enquanto o seu sócio naquela vida não dava por terminada a sua empreitada. Ceifa, apanha da azeitona, pedra. Já não conheci o meu avô Joaquim Matos Rolo a fazer carvão ou a vender loiça, mas assisti á compra do "Sócio". O negócio aconteceu na travessa entre a casa do meu avô e casa do tio de um primo meu. Não foi num stand de carros de luxo ou num stand manhoso. O vendedor era um cigano que exaltava as boas, excelentes, qualidades do "Sõcio". O meu avô Joaquim Matos Rolo examinou minusiosamente a suspensão, o chassis e a carroceria do "Sócios". Apalpou-o à procura de um corte no pêlo que avivasse o animal quando se toca nessa ferida camuflada, como na cidade se tenta descobrir massa na chapa coberta de tinta na carroceria de um automóvel em segunda mão, impimgido por um vendedor de banha da cobra. O exame final ao "Sócio", antes de se concretizar o contrato, centrou-se ne dentadura bem visível e melhor conservada do monocasco que abanava a cauda para sacudir as moscas na tarde quente de Setembro. Neegócio fechado. O cigano levou o velho e acabado ex-sócio do meu avô Joaquim Matos Rolo e mais 9 notas (900 escudos em dialecto local) e levou o novo sócio, o "Sócio" para a sua residência, um chalet de um piso, com sala de jantar na manjedoura, sala de estar e casa de banho na espessa camada de palha que aconhegava o solípede.
Também seria difícil alguém enganar o meu avô Joaquim Matos Rolo neste negócio. Na sua juventude, este meu inesquecível e douto antepassado cumpriu o serviço militar na arma de Cavalaria, tendo sido colocado no Regiimento de Lanceiros 2, em Lisboa, Regimento de Cavalaria 1, em Santarém, e Regimento de Cavalaria de Elvas. Aconteceu no clima em polvorosa da I República e foi interveniente, entre outros, nos graves distúrbios após a morte a tiro do presidente Sidónio Pais, na estação ferroviário do Rossia, em 14 de Dezembro de 1918. Ainda o "Sócio" não era nascido.
A I Guerra Mundial cessara no mês anterior, no dia 11 âs 11 da manhã, o que evitou a mobilização do meu avô Joaquim Matos Rolo para os campos de combate mortíferos da Flandres. Sem o "Sócio".
Naquela época conturbada da vida portuguesa, o meu avô acabou, finalmente, o serviço militar. Passou à disponibilidade em Elvas e, à falta de transportes entre aquela cidade e a sua aldeia, palmilhou durante alguns dias os mais de 100 kms a pé, com as botas do espólio da tropa ao ombro para não as gastar na longa caminhada.
Em 1900 e 20 e tal, enamorou-se da que seria minha avó, Maria Rola, apesar de a minha bisavó, que ainda chegou aa andar comigo ao colo, não aceitar de bom grado o enlace. "Ai de ti se não tratas bem a minha Rolinha", ameaçava a matriarca da família. Cumpriu.
Não apanhei, como disse, a fase em que o meu avô Joaquim Matos Rolo esteve envolvido no trabalho numa herdade, a Espadaneira, e também na fase em que andou no carvão e a vender louça. Por essa altura era a minha Tia Luísa, a sua segunda filha, quem ia com ele até aos confins da Terra Fria das Beiras. Ainda sem o "Sócio".
Em 1947, o meu avô Joaquim Matos Rolo construiu a sua casa à força de braços. Suou a partir xisto para as paredes. Depois de concluído após meses de trabalho e uma intervenção importante do meu Tio António, as pessoas vivenciavam no primeiro andar e no piso térreo o espaço era destinado aos seus sócios ferrados,, os companheiros de trabalho, que ainda não o nosso "Sócio" desta história. Carimbou a edificação na pedra com as suas iniciais JMR - 1947, as quais ainda hoje se podem observar para recordar aos menos memoriados quem ali habitou como dono e senhor até...
Nada é eterno.
O meu avô, Joaquim Matos Rolo, adoeceu e faleceu no dia 8 de Outubro de 1972. Recebi a triste chamada telefónica em casa dos meus pais, quando acabava de chegar de um jogo de futebol em que o Benfica venceu o Sporting por 4-2. A família partiu logo de seguida para a Beira Baixa no carro do meu pai. Eu fui de combóio com o meu primo João Rolo e tivemos uma série de aventuras e desventuras pelo caminho, de modo que o funeral só se realizou à noite, com candeias e velas a ilumiar o caminho até à sua última morada, féretro acompanhado pelos Irmãos da Misericórdia. O "Sócio", nas suas aconchegadas instalações por trás da casa, sentiu o momento em que nunca mais veria o seu sócio, Joaquim Matos Rolo. Quebrara-se o elo e a sociedade entre dois dedicados sócios inseparáveis durante tantos anos. Desta vez a voz de burro chegou ao céu. De forma nítida. Um zurrar pungente. De dor.
Eu e o meu primo João substituímos o "Sócio" ao puxar o armão com o caixão até ao cemitério. Os dois netos machos mais velhos fizeram o que lhes competia na última homenagem ao prezado avô Joaquim Matos Rolo. Levaram-no até à sua eterna morada. O "Sócio", esse companheiro de tantos anos, acabou os seus dias na paz e sossego na quinta da minha tia Emília, a filha mais velha do meu avô Joaquim Matos Rolo.
Aconteceu em Alcafozes, Beira Baixa, com o Ti Estroina e o "Sócio".


Não é o "Sócio" mas é parecido...

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

LOBISOMENS, BRUXAS e MÁ-HORA ao SERÃO

 Noite de Verão. Está escuro como é próprio da falta de luar. Ainda não chegou a luz eléctrica à aldeia recôndita da Beira Baixa. O bafo do calor diurno não se diluiu ainda. Só atenuará um pouco quando chegar a madrugada. Dentro da casa de dois andares, uma luz mortiça de uma candeia bruxeleia e confere ao ambiente uma soturna dança de sombras, idênticas às que serpenteiam através dos biombos chineses. São enormes, ameaçadoras, intimidantes.

Terminadas as tarefas domésticas com a lavagem da loiça do jantar com a água dos cântaros transportadas das fontes à cabeça das mulheres ou acondicionados aos pares sobre a albarda dos burros, é tempo para se juntar a família e um ou outro vizinho em frente à casa.
Os elementos do conclave sentam-se em cadeiras de assento de verga e estrutura de madeira, produto típico da região, ou tomam assento nos tropeços, uns bancos rústicos sem pernas, feitos de cortiça, idênticos na sua estrutura e utilidade aos actuais pufes, ou puffs, como entenderem escrever.
Tenho os meus cinco ou seis anos e estou a familiarizar-me com o contraste da cidade iluminada por lâmpadas mortiças de 25 velas em contraste com a aldeia das candeias de azeite ou candeeiros a petróleo. Sem rádio nem televisão, são as conversas que escoram a comunidade. Terra de gente do campo, urdida na agrura da terra e nos elementos do tempo que regem as tarefas de sobrevivência individual e colectiva. Vindas de longe, Frente a outras casas ouvem-se na noite outras famílias a dissertarem sobre os temais mais ou menos cadentes das suas vidas.
Tento romper o manto de escuridão com o olhar desconfiado de puto da cidade. Nada. Ao invés, as estrelas brilham como nunca as vi assim tão cintilantes. A negritude do lugar acentua todo aquele esplendor celeste. O tema da conversa, banal, entretanto, mas a passagem do tempo trouxe à assembleia familiar outras histórias mais obscuras que passam de geração em geração.
Apurei o ouvido e à medida que a narrativa esmiuçava pormenores sobrenaturais ocorridos por ali, através dos anos, sentia um frio na barriga. Os segredos temerosos da noite, os maus olhados, as bruxarias tomavam conta do argumento da plateia. Há reacções opostas. Os mais velhos, os relatadores dos episódios, ironizavam nas palavras, a geração anterior à minha soltava brados de espanto "ai credo", eu e sentia arrepios na espinha. O relógio da igreja bateu com energia metálica as 11 badaladas das 23 horas.
A matriarca da família deu o aviso: recolher a casa antes de passar a Má-Hora. Olhei para um lado e para o outro como se quisesse vislumbrar semelhante figura, que eu não fazia a mínima ideia do que se tratava. Então a decana daquela mesa redonda sem mesa, afirmava, peremptoriamente, que antes da meia-noite aparecia um animal preto de qualquer género, para avisar quem se atravesse a sair àquela hora que poderiam acontecer-lhe acontecimentos de má memória, terríveis, imprevistos, danosos. Mau. Vinha aí a Má-Hora.
Os meus cabelos eriçavam-se. Só serenava um pouco quando via a figura de quem se sentava ao meu lado, o chefe da nossa tribo, o qual enrolava, tranquilo, o tabaco das onças Duque numa mortalha Touro. Evidenciava uma tamanha calma existencial como se tudo o que ouvia não o apoquentasse. Era religioso e bastava-lhe a fé para se sentir seguro nos caminhos, umas vezes com o burro e outras, a caminho da Terra Fria, com uma carroça puxada por machos. Mas como não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe, afinal a Má-Hora, professorava a matriarca, era seguida, creio que 60 minutos depois, pela Boa-Hora. Esta aparição, em forma de um qualquer animal branco, acabava com qualquer veleidade sombria da sua predecessora negra. Por essa altura eu já sentia a boca seca como uma casca de árvore ao sol. Lembrava-me do azado com água fresca da fonte, lá em cima no primeiro andar, mas não me atrevia sequer a mexer um pé.
O serão, no entanto, para mim iria correr de mal a pior. Relatam-se episódios ocorridos com lobisomens e calmões. Voltava o aperto à barriga, mas não dava parte de fraco. A calma do ancião ao meu lado, com o cigarro ao canto da boca e o chapéu empurrado para a nunca, dá-me o ânimo de não fugir dali não sei para onde. Um lobisomem sabia mais ou menos o que era, falavam-me deles nos filmes. Os calmões, esses, não faziam ideia de que animal ou pessoa seriam eles. Talvez, quem sabe, fossem umas criaturas da família dos gnomos das histórias irlandesas. Esses seres temíveis e temidos faziam das suas ao cruzar-se com os habitantes da aldeia e foram vários os casos, segundo a irmã mais nova da matriarca, de mulheres que apareceram despidas, nas encruzilhadas de quatro caminhos, com a roupa esfarrapada, atiradas, sem dó nem piedade, para os espinhos dos silvados. Havia marcas de arranhadelas, dizia ela, convicta.
Segundo constava pela aldeia, um homem noivo de uma mulher local, foi recebido por uma turba de gente que não o queria na aldeia por ser familiar de lobisomem, garantiam, um sétimo filho de uma sétima geração. Pois bem, fosse como fosse, o intruso era determinado e valente. Encheu as mangas do casaco de pedras, deu um nó nas pontas e foi com essa arma improvisada que desbaratou a massa de gente que o queria expulsar dali para fora,. O final não foi o que esperava. Ele casou com quem queria, a sua bela amada, mas enfrentando sempre a desconfiança da sogra. No entanto, ali viveram felizes até que a morte os separou, no espaço de pouco meses, já estavam ambos na casa dos 70 anos.
O ambiente, para mim, piorava a cada momento que se abria um novo capítulo. Agora era tema de conversa um indivíduo que se transformava nas noites de lua cheia. Ciente do que iria acontecer, a mulher colocava na rua um balde cheio de água e recolhia logo ao lar. Pela noite adentro ouviam-se os cascos deles nas correrias desvairadas pelas ruas e o seu guinchar histriónico. Horas depois, antes do amanhecer, ele regressava a casa, desfigurado, mas já em forma de gente. A matriarca da família confessou-nos que a seguir a uma dessas noites aterradoras, ela passou junto a ele no local onde exercia o seu mister e ao cumprimentá-la sorriu, e entre os dentes ela viu que ele ainda tinha fios de roupa que rasgara com a boca nessa cavalgada que terminava sempre com ele a beber toda a água do balde que a mulher lhe colocava na rua. Dias depois, ao passarmos junto a um muro, a contadora da história apontou para uma marca na parede em forma de ferradura e comentou: "Foi ele".
As narrativas de assombrações eram intermináveis. Dou a conhecer apenas mais uma, ocorrido com a própria matriarca. No caminho para casa, mais tarde do que habitual e vinda dos seus labores do campo, ouviu atrás de si uns ruídos e umas risadas. Era próximo da meia-noite, tempo da Má-Hora. Olhou para trás e estava a ser perseguida por um coelho que tentava atirar-se a ela, sempre com aqueles sons intimidantes de risadas diabólicas e um palavreado que não era entendível. O animal seguiu-a sempre a incomodá-la com aquela ladainha, puxou-lhe a bainha da saia com os dentes, até que deu uma forte gargalhada, seguindo-se um valente estoiro e desapareceu. Assim, como e nunca tivesse existido. Por sinal, isso aconteceu no preciso momento em que um gato branco apareceu e atravessou o caminho. Era a Boa-Hora. Ao chegar a casa reparou que as pontas da saia comprida tinham sido roídas pelo estranho ser.
A terminar o serão, ouvi os testemunhos sobre a "daibólica", que não entendi bem o que era, e ainda aves e animais empalados nos ramos das árvores. Suspirei de alívio quando começámos a recolher a casa, apesar do calor que ainda abafava o corpo. Nessa altura, o chefe da nossa tribo, colocou-me a mão em cima do ombro e aconselhou-me algo que ainda hoje arquivei nos ouvidos. "Quando ouvires um barulho quando andares nos campos à noite nunca olhes para trás". Registei!
Os grilos e as cigarras continuavam o seu concerto à desgarrada e o fiel gato da casa levantou-se, espreguiçou-se e esgueirou-se na noite. Era preto e branco. Não havia azar...

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