sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

AS CAGANITAS das CABRAS e os CAGALHÕES em FAMÍLIA

À primeira vista as caganitas das cabras e os cagalhões das pessoas nada têm em comum. Contudo, com um bocadinho de jeito a merda é a mesma. Nos mesees de Novembro, Dezembro, Janeiro e, por vezes, até Fevereiro procedia-se à apanha da azeitona, uma prática milenar que pouco ou nada mudou com o rolar dos séculos, a náo sera substituição de homens e mulheres por máquinas infernais que desbastam uma oliveira num abrir e fechar de olhos, decepam ramos e esmagam ninhos de aves, a sua casa e o seu abrigo. Os ranchos de homens e mulheres da aldeia pertencem à história e, por isso, convém recordá-la. Aí pelos anos 50 do século passado ainda se juntavam mais ou menos de três grupos de 20 ou trinta almas cada um, com a particularidade de a paridade de sexo ser aí bastante rigorosa, com homens e mulheres em igualdade numérica, uns casados, outros solteiros e mais uma minoria assim-assim. 

Era um trabalho árduo e madrugador. Ainda a luminosidade do dia vinha longe, aí por volta das 5 da madrugada, já os galos cantavam. Por essa hora, o "comandante" do grupo acendia o lume, comia uma espécie de pequeno almoço de feijões e calcorreava as ruas escuras como breu, sem iluminação artificial, soprando um búzio (de onde viria tal "instrumento"?) para acordar os compoonentes do rancho, que partiam para o olival ainda noite cerrada. No campo, a hora era de encher sacas que dessem 15 escudos por dias ou um nota (100 escudos) por semana. Trabalhava-se por equipas que se vigiavam umas às outras para nenhuma delas asquirir uma vantagem de peso significativa. O Inverno inclemente, temperado de frio, cchuva e neve não reduzia o labor. As sacas protegiam da chuvam desde que não despejassem cântaros de água do céu. Havia que aguentar a  apanha de milhares de quilos de azeitonas por dias e levar para casa uma mísera meias dúzia de quilos do fruto das oliveiras. O frio, esse, gelava as mãos e o tacto dos dedos desaparecia, inca+az de destrinçar uma azeitona de uma caganita de cabra e, tufa!, para dentro do saco. Secos ou molhados, eram assim passados os meses da apanha da azeitona transportadas em carros de bois para a casa senhorial a quem pertencia o olivais, um fonte de receita anual que dava ânimo para as culturas que se seguiam, 

As noites em Alcafozes eram escuras como breu, a não ser que houvesse luar. Dentro das casas, as candeias ou os candeeiros a petróleo davam uma luz precária que agitavam sombras gigantescas. No Verão, nomeadamente em Setembro quando o calendário escolar era diferente,  que ia de férias até à aldeia tinha de se sujeitar às condições básicas existentes. As casas de banho eram uma recordação que tinha ficado na cidade e cadaum desencarrasca-se como podia para fazer as suas necessidades. Não era raro encontrar à beira dos caminhos uns tarolos intestinais já pretrificados, muito raramente com um pedaço de papel simples ou de jornal já amarelado por perto. Num dos locais mais altos  de Alcafozes, o Cabeço, existia uma pedreira que distava uns 300 metros das casas, perto de um cancelão que era porta de  entrada ou de saída de uma tapada. Acabado o jantar, lavada a loiça, antes das conversas perto das soleiras das portas sentados em cadeiras de vime ou tropeços de cortiça, havia sempre quem tivesse de ir despejar a tripa, O WC, obviamente que era a pedreira. Quatro, cinco, seis, sete pessoas, dependia das vontades orgânicas, caminhavam pela negritudeda noite para expelir os tais cagalhões comunais. Como ninguém se via, baixavam-se as calças e as saias e lá vai disto, enquanto se conversava sobre o dia-a-dia, os preparativos do dia seguinte ou, claro, a vida dos outros. Às apalpadelas, lá se encontrava um "renova" de pedra, sempre com o cuidado de não ser mordido por um lacrau e passar a noite a ganir, Cabras e pessoas, no final tudo vai dar so mesmo... 

O início trabalhoso antes de chegar à mesa. 


domingo, 23 de fevereiro de 2025

A ODISSEIA DE UMA VIAGEM FÚNEBRE PARA ALCAFOZES

 Era um domingo de sol quente de Outono. Fui ao Estádio da Luz ver o jogo entre o Benfica e o Sporting. O meu clube ganhou esse encontro por 4-1, com 4 golos do fenomenal Eusébio. Fui radiante para casa, como é evidente. Não estava ninguém. Os meus pais tinham ido dar o passeio domingueiro. Quando ia comer pão com manteiga, aquele pão escuro tão saboroso daquela época, tocou o telefone. Estranhei. Ainda me lembro do número: 362862. Atendi.

Uma voz rouca do outro lado do fio e uns ruídos tão característico ao tempo deu-me a pior notícia que poderia imaginar, embora o meu avô sofresse há uns meses de uma doença grave.
Lá, da longínqua aldeia de Alcafozes, distrito de Castelo Branco e concellho de Idanha-a-Nova, uma voz roufenha informou a morte do meu avô materno, Joaquim Matos Rolo ou Joaquim Brito -- por mais estranho que possa parecer nos dias de hoje ele tinha dois nomes registados -- figura conhecida na terra por 'ti Estroina.
Mal desliguei o telefone o meu pai e a minha mãe entraram e fui obrigado a comunicar-lhes a triste, mas esperada, ocorrência. Rapidamente os meus tios foram informados do falecimento e horas depois todos estavam a caminho da aldeia, no automóvel do meu pai, ficando de fora eu e o meu primo João, por já não cabermos na viatura, uma carrinha Fiat 124 amarela.
Deixei rolar umas lágrimas â janela e custou-me a "desatar" o nó que me apertava a garganta. O meu avô Joaquim era uma figura que influenciara profundamente a minha formação, era a pessoa da família que eu mais adorava e via-o como uma espécie de herói ao vivo e não os de capa e espada dos livros aos quadradinhos. Ainda hoje, passados todos estes anos, sigo na íntegra os seus princípios morais e dogmas sociais, o que me deixa à vontade para andar de cabeça levantada por onde quer que passe.
Aquelas nossas conversas noite fora nas cálidas noites de Verão, nas cadeiras de palha à porta da casa que ele construiu com as suas próprias mãos, moldaram-me o carácter e orientaram-me a vivência.
Eu e o meu primo João apanhámos o comboio da 00h05, na Estação de Santa Apolónia, para a Beira Baixa. Tudo correu bem até à estação do Entroncamento. Aí tudo se complicou. Saímos da composição para irmos comprar sandes e cerveja numa das cervejarias da rua em frente à entrada das bilheteiras. Subimos para os degraus da última carruagem com a merenda na mão. Ficámos com cara de parvos quando o comboio começou a andar e a nossa carruagem, mais as duas da frente, não se mexia.
Como dois patetas, ainda ficámos na esperança de que se tratasse de alguma manobra. Nada disso. Um empregado das bagagens disse-nos que as carruagens da frente seguiam para a Beira Baixa e aquela onde estávamos tinha como destino a Linha do Leste (Elvas e Badajoz).
O funeral estava marcado para o final da manhã e o próximo comboio para Castelo Branco saía de Lisboa às 07h35, o que significava que não chegaríamos a tempo de nos despedimos do nosso avô Joaquim. Mas não desistimos.
Como nos servia seguir até Abrantes aproveitando a Linha do Leste entrámos na carruagem e partimos uma meia hora depois. Às 3 da madrugada chegámos ao Rossio ao Sul do Tejo. Estava nevoeiro e não se via vivalma. Procurámos um táxi e nem um. Ainda fomos a casa de um dos motoristas de táxi, por indicação do chefe da estação, e ele recusou fazer a viagem que pretendíamos. Deve ter pensado que eramos dois meliantes que o assaltariam no trajecto.
Tentámos uma boleia na ponte que atravessa o Rio Tejo. Nada de nada. Nem um cão ou um gato se moviam naquele nevoeiro tão sebastiânico. Subitamente ouvimos o silvo agudo de uma máquina de comboio. Corremos para a estação. Desilusão. Era um comboio de mercadorias.
Entabulamos conversa com o maquinista. Aquela composição era designada por "Frateleiro" e não fazia serviço de passageiros, a não ser os que trabalhavam na construção da barragem do Fratel. Contámos a nossa adversidade e pedimos uma "boleia" até Castelo Branco num dos vagões. O homem teve pena de nós e anuiu, com a condição de assumirmos a nossa responsabilidade em caso de se verificar um acidente.
O "Frateleiro" parava em todas as estações e apeadeiros. Ajudámos a tirar colchões, bicicletas e cabras dos vagões. Já passava da uma da tarde quando chegámos a Castelo Branco. Desanimados, já sabíamos que o funeral estava perdido. A esta hora a família devia estar a pensar por onde andaríamos ou se nos tinha acontecido alguma coisa. A era dos telemóveis ainda estava nos horizontes do tempo.
Para nos complicar ainda mais a vida, a camioneta de passageiro para Idanha-a-Nova avariou na Ponte de S. Gens. Tivemos de esperar por outra. Depois de Idanha-a-Nova para Alcafozes eram mais 13 kmslá fomos estrada fora numa ronceira camiota da carreira, que "dormia" no adro da igreja de Alcafozes, e quando chegámos, por volta das 6 da tarde, fomos directos ao cemitério. "Boa tarde", saudámos o coveiro. O homem apanhou um susto dentro da cova que estava a abrir. "Ó almas do diabo, que quereis daqui...", praguejou.
A boa notícia é que o funeral ainda não se efectuara. Que alívio. Corremos para casa e a família recebeu-nos com alívio. Dissemos o que se passara naquela odisseia azarada. Adiaram o funeral à nossa espera e também porque andava à nossa procura. Já era noite.
O corpo do meu avô Joaquim estava dentro do caixão, no meio da sala, apoiado em quatro cadeiras. Reparei que a gatinha da casa estava aninhada no espaço por baixo da urna. A minha avó disse-me que a bichana não saíra dali nem por um minuto.
Fechou-se o caixão e saiu o funeral à luz de velas dos homens da Irmandade da Misericórdia, à qual o meu avô também pertencia. Usavam umas capas roxas e uns capuzes em forma de bico. O burro zurrou quando o corpo do dono saiu de casa. Fiz questão de puxar o armão de duas rodas juntamente com o meu primo João até ao cemitério.
E aí jaz o meu saudoso avô Joaquim!

O avô Joaquim, o ti Estroina de Alcafozes, Eu e o meu primo João levámo-lo até à última morada.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

CAPELA DE NOSSA SENHORA DAS DORES

A capela foi construída no século XVIII, refletindo as características arquitetônicas da época barroca. Apresenta uma fachada simples, mas elegante, com elementos típicos do barroco português, como altares decorados e azulejos. Nossa Senhora das Dores é venerada como a padroeira dos aflitos, e a capela se tornou um local de peregrinação para os fiéis da região.

Era a capela onde as grávidas iam rezar, para que tivessem um parto normal e com menos DORES possíveis. No seu interior, só tem um pequeno altar com a imagem da Sª das Dores. Está sempre fechada, e só é aberta uma vez por ano no período da Quaresma, para arejar e limpar.

A capela de Nossa Senhora das Dores (Foto e investigação de João Rolo)

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

O MEU AVÔ NO ASSASSINATO DE SIDÓNIO PAIS

 Noite cálida numa pequena aldeia da Beira Baixa. Alcafozes. Um logradouro fundado por romanos, mais ou menos no século I, onde se pastoreavam vacas, cabras e ovelhas. Era comum nas férias grandes passar horas à conversa com o meu avô Joaquim. Sentados no solar da porta, nas tradicionais cadeiras de verga, ouvia as suas palavras, bebia os seus conhecimentos e registava as suas memórias. Até aos meus 18 anos, altura em que o meu avô faleceu, foi ele quem moldou o meu carácter para sempre. Espinha direita, verticalidade e desassombro foram os dogmas que me transmitiu. Impunha-se pela sua figura imponente e carismática, não necessitando sequer de botar palavra para todos à volta se submeterem a uma postura de reverência quase religiosa. Era como um alcaide no seu castelo. Sentia-me seguro perto dele. Ali ninguém me incomodava física ou psicologicamente. Um olhar dele bastava para afastar qualquer veleidade de disputa.

Nessas longas horas em que se esperava pelo refrescar do astro nocturno naquela rua de pedra granítica, soube, entre muitas outras narrativa, de como ocorrera a ascensão e morte do quarto presidente da República Portuguesa, Sidónio Pais.
14 de Dezembro de 1918.
A notícia do assassinato a tiro na Estação do Rossio, caiu repentinamente no quartel de Lanceiros 2, na Calçada da Ajuda, onde o meu avô prestava serviço militar. Os soldados do esquadrão aparelharam os cavalos num ápice e carregaram as armas. Saíram a galope pela Avenida 24 de Julho, atravessaram o Cais do Sodré e subiram ao lLargo do Carmo. A multidão já enchia as ruas e gente pacífica misturava-se com desordeiros oportunistas para tomarem conta da situação. Na descida íngreme da Calçada do Carmo para a Estação do Rossio os cascos dos cavalos escorregavam nas pedras do estreito arruamento. Havia quem quisesse derrubar a tropa das selas e o caminho foi aberto a golpes de sabre. Lisboa era uma caos na zona dos Restauradores.
Sidónio Pais, major de Artilharia, mas fundamentalmente um brilhante professor de Matemática, distinguia-se como professor de Cálculo Diferencial e Integral na Universidade de Coimbra, exalava o último suspiro no Hospital de São José. O funeral do presidente que acabara com as perseguições assassinas dos republicanos à Igreja Católica e que decidira o sufrágio directo e universal para eleger o Presidente da República foi tumultuoso e reuniu uma multidão impressionante para a época.
O meu avô e os camaradas de armas de Lanceiros 2 tentavam restaurar a ordem, atemorizando os mais excitados com os cavalos cobertos de suor. Seguiram-se dias de revoltas populares das milícias armadas e levantamentos em unidades militares. Dada a situações caótica em que o país mergulhou houve necessidade de cavalgar de noite de Lisboa para o quartel de cavalaria de Santarém, onde, aliás, o meu avô assentara praça dois anos antes. A desordem em Portugal evitou que ele integrasse o Corpo Expedicionário na I Guerra Mundial.
Entre tiroteios e escaramuças, ora em Lisboa, ora noutros pontos do país, ele esteve presente na maioria deles, nesses tempos turbulentos para a jovem República. Na última fase da sua carreira militar, foi transferido para Elvas, numa altura em que se suspeitava que os espanhóis estariam prestes a intervir (invadir)em Portugal, uma intenção que o rei castelhano Afonso XIII não escondia nos meios diplomáticos.

A invasão não se processou e o meu avô passou à disponibilidade no Batalhão de Caçadores 8, aboletado em Elvas, uma unidade onde eu acabei por prestar serviço, desde o final de Março até 12 de Junho de 1975.
Livre de todas as incidências e obrigações castrenses, numa altura em que estradas e transportes se limitavam a desaguar em Lisboa ou no Porto, o meu avô fez a pé a caminhada entre Elvas e Castelo Branco e daí mais 50 quilómetros até à aldeia de Alcafozes, onde ele me contava a sua odisseia, levando às costas um precioso par de botas de cavalaria e comendo figos, bolotas, ameixas, pêras, maçãs e amoras pelos caminhos agrestes desbravados pelos passos firmes e vigorosos através dos campos cobertos de restolho.
Obrigado, avô Joaquim, por essas noites inesquecíveis.

Soldados de Alcafozes no assassinato do presidente Sidónio Pais.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

A CASA DOS MEUS AVÓS

Esta é a casa original dos meus avós, onde entrei pela primeira vez aos seis meses de idade. Quando, mais velho, tomei consciência do que me rodeava, esta era a casa dos meus sonhos. Aquela pela qual eu aguardava um ano para ali passar a quase totalidade do mês de Setembro. Como não tenho uma foto da casa nessa época, o filho da mãe que mas roubou que as coma ao pequeno-almoço em vez de flocos, pintei este quadro que a reproduz quase, na sua essência, inspirada fielmente da memória que perdura, dos muitos detalhes que recordo, dos cheiros que aromam o imaginário.

Na noite anterior à viagem para Alcafozes mal dormia, tal era a excitação de regressar ao castelo encantado do meu avô Joaquim e da minha avó Rola, no Cabeço. Olhava embevecido para as pedras da fachada, empoleiradas com sabedoria, uma rusticidade que lhe conferia o ar natural de uma aldeia acima do Tejo.
Deitado, observava os pássaros entre as telhas a caminho dos seus ninhos. Pura magia. Na cozinha, ao lado da sala e de dois quartos, a panela de ferro aquecia com o lume que a lambia o almoço e o jantar de um dia que começa com as fatias de pão a torrar nas brasas.
No piso térreo ia visitar os burros ali instalados numa alcatifa de palha e, apesar do feno ma manjedoura, surripiava uma maçã ou uma pera para levar às beiças rugosas do jerico. De vez em quando dava uns pulos na forragem que chegava ao chão do andar de cima.
À medida que a idade avançava, não era só eu que mudava, a casa também. Desgostou-me aquele "facelift" na fachada que escondeu o lego de pedras e as rugas identitárias. Perdia o encanto para se equivaler a uma qualquer casa dos subúrbios das grandes cidades. Modernizava-se, aconchegava-se, por um lado, mas definhava por outro e aos poucos deixei de a amar como a amava para ficar só embrenhado na nostalgia. Aquela afeição que nutria por ela sumiu e esfumou-se no pó de arroz e no rímel de uma maquilhagem que não merecia. O conforto e o bem-estar não precisam de ser expostos como sinais públicos de entesouramento privado,
A côdea e o miolo de uma habitação de uma aldeia característica podem coexistir em harmonia para que não se desfigure a imagem que transparece para fora. Nunca me pareceu impossível que um interior recheado com um luxo das arábias não pudesse continuar a ser envolvido por uma imagem externa de rusticidade tradicional. Aliás, até deveria ser obrigatório se a porca da política não fosse o que é.
Quem não preserva o passado não projecta o futuro.
De qualquer modo, desculpem lá o revivalismo.


Pintura da minha autoria da casa (original) dos meus avós


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

A VIAGEM LISBOA-ALCAFOZES nos anos 50

A primeira recordação de uma longa viagem com ela aconteceu na visita anual à Beira Baixa, província de onde é natural a minha família. Teria eu uns 4 ou 5 anos. O despertar para essa verdadeira epopeia iniciava-se muito cedo. Às 2h30 ou 03h00 da madrugava já os meus pais me chamavam para levantar da cama. Ainda ensonado, mas muito excitado pelo acontecimento que me aguardava, seguia-se a lavagem o pequeno-almoço quando ainda os galos não cantavam, os últimos acertos e retoques da bagagem e, finalmente, a ida para a estação de Santa Apolónia. O comboio para a Beira Baixa partia da Linha 2 às 07h35. Naquele tempo, finais dos anos 50, as composições eram uma longa fila de carruagens de I, II e III classe. Eu ficava fascinado com aqueles "monstros" sobre carris e o cheiro que deles emanava. O meu Pai, nessa altura, só tinha 15 dias de férias e seguia mais tarde de carro, a tempo de convivermos todos nas festas anuais de Nossa Senhora do Loreto. Portanto, este trajecto obrigatório de inícios de Setembro fazia-se sem ele, mas com a minha Mãe, as minhas tias e o meu primo. Mal o comboio se punha em movimento eu queria era ir pendurado à janela. Não havia ainda aquelas modernices do ar condicionado e sentir o vento na cara, ouvir o roncar da locomotiva diesel e observar aquela longa extensão de carruagens nas curvas deixavam-me extasiado. A minha Mãe estava sempre a puxar-me para dentro, não só por questões de segurança, mas também para não ficar todo mascarrado com as partículas de fumo ejectadas pela locomotiva. E logo ela que queria sempre tudo muito limpo, fosse em que circunstâncias fosse.

Passadas as estações de Vila Franca de Xira, Santarém, Abrantes, já quando o comboio seguia paralelo ao rio Tejo e se vislumbrava o majestoso castelo de Almourol era hora da abrir o saco da merenda. E como sabiam bem as sandes de carne assada, os pastéis e as pataniscas de bacalhau ou os carapaus fritos.
De quando em vez lá ia a minha Mãe buscar-me por uma orelha à varanda da carruagem, muito parecida com aquelas que se vêm nos filmes do Far-West. Quer dizer que chegava a Castelo Branco com as minhas pobres orelhas em brasa...
Na capital da Beira Baixa, o calor já apertava bastante às 12h30. Aí, uma camioneta de passageiros levava-nos para a garagem central da empresa de transportes de passageiros Martins-Évora. Havia que esperar pela ligação rodoviária entre Castelo Branco e Idanha-a-Nova. Eu ficava esbaforido com o calor e lembro-me da senhora que vendia bananas e comia uma ou duas.
Mas ainda havia que fazer o percurso de Idanha-a-Nova para Alcafozes, numa relíquia das estradas que era a vetusta Ford, apenas com uma porta ao meio, a arrastar-se e a fumegar do radiador pelo caminho de terra e saibro até chegarmos, já quase ao pôr-do-sol, a Alcafozes, o nosso destino.
À entrada da aldeia estava sempre a minha avó à nossa espera, às vezes com um jerico pela rédea para ajudar a levar as malas e bagagens até à casa construída pelo meu avô Joaquim.
Ainda nem sequer tinha entrado em casa e já andava a correr atrás das galinhas e, obviamente, a minha Mãe, mais uma vez, a puxar-me as orelhas e a enfiar-me numa bacia de água para me lavar no final daquela longa maratona.
Uffff!

Eu, à direita, já crescidinho. E o bigode também...

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

O BURRO "SÓCIO" DO MEU AVÔ "ESTROINA"

 O "Sócio" foi o último burro do meu avô Joaquim Matos Rolo. Mas a conotação humana de burro não se aplica, de modo algum, ao "Sócio", o dito. Esperto e discreto, nada burro o solípede. O "Sócio" era o jipe 4x4 do meu avô Joaquim Matos Rolo. Um burro ruço, mas não soviético e muito menos pertencente à ortodoxia com a sua capital em Moscovo, no Kremelin, apenas um questão de coloração do pêlo.

Afinal, o nome condizia com a relação do meu avô com o solípede. Eram sócios. Vida em comum em longas viagens pelas províncias beirãs. Havia que tratar da existencialidade de cada um. As jornas do meu avô Joaquim Matos Rolo eram, não raras vezes, longe de casa uma semana. Da madrugada de domimgo para segunda até ao sábado seguinte. Às 2 da manhã já o "Sócio" estava despperto para sair com o seu sócio.
O "Sócio" andava junto à veredas dos caminhos. Os passos das 4 patas ferradas eram curtas mas rápidas. O meu avô, Joaquim Matos Rolo tanto acompanhava o "Sócio" a pé, como subia para o dorso, instalando-se na albarda para dar uma trégua às pernas vigorosas. Nessas malas Vitton para burros, mulas e cavalos, os tecidos não vinham de Milão ou das Amoreiras ou de qualquer outra loja das vaidadades. Os alforges eram urdidos de roupa velha, trapos já gastos e em desuso. Neles, além de ferramentas para o trabalho que o esperava de sol a sol, transportava-se merenda para uma semana. Pão de trigo amassado pela minha avó Rola e cozido no forno comunitário da aldeia, chouriço, toucinho e o que mais fornecia o porco criado ao longo do ano na furda, queijo, azeitonas e a cabaça do vinho da loja do ti Periquito.
O "Sócio", como toda a família de muares, são frugais. Carapetos, restolho, erva, praticamente todo o vegetal o alimenta, recebendo também alguns mimos pelo caminho, pêras, maçãs e ainda mais uns punhados de aveia, que o energizava como aquela gasolina com aditivos para dar potência ao motor. Um verdadeiro Mc Ervas sem Donald ou JeneSaisCus de emproados e pindéricas.
Sentado no "Sócio", o meu avô Joaquim Matos Rolo enrolava o tabaco de onça Duque na mortalha Touro. Passe a publicidade. Nessas viagens nocturnas brilhava apenas o borrão da pirisca entre os lábios do meu avô Joaquim Matos Rolo. O "Sócio", esse, tinha uns faróis mais potentes que os ledes dos burros mecânicos mais recentes, eléctricos, plug-in ou fósseis. Ao nascer do sol era preciso entrar ao serviço da natureza. O astro-rei era o relógio de ponto para os funcionários campestres, mais certeiro que os seus primos suíços. O "Sócio", com a tranquilidade típica de um asno 4x4, ia mordiscando aqui e ali enquanto o seu sócio naquela vida não dava por terminada a sua empreitada. Ceifa, apanha da azeitona, pedra. Já não conheci o meu avô Joaquim Matos Rolo a fazer carvão ou a vender loiça, mas assisti á compra do "Sócio". O negócio aconteceu na travessa entre a casa do meu avô e casa do tio de um primo meu. Não foi num stand de carros de luxo ou num stand manhoso. O vendedor era um cigano que exaltava as boas, excelentes, qualidades do "Sõcio". O meu avô Joaquim Matos Rolo examinou minusiosamente a suspensão, o chassis e a carroceria do "Sócios". Apalpou-o à procura de um corte no pêlo que avivasse o animal quando se toca nessa ferida camuflada, como na cidade se tenta descobrir massa na chapa coberta de tinta na carroceria de um automóvel em segunda mão, impimgido por um vendedor de banha da cobra. O exame final ao "Sócio", antes de se concretizar o contrato, centrou-se ne dentadura bem visível e melhor conservada do monocasco que abanava a cauda para sacudir as moscas na tarde quente de Setembro. Neegócio fechado. O cigano levou o velho e acabado ex-sócio do meu avô Joaquim Matos Rolo e mais 9 notas (900 escudos em dialecto local) e levou o novo sócio, o "Sócio" para a sua residência, um chalet de um piso, com sala de jantar na manjedoura, sala de estar e casa de banho na espessa camada de palha que aconhegava o solípede.
Também seria difícil alguém enganar o meu avô Joaquim Matos Rolo neste negócio. Na sua juventude, este meu inesquecível e douto antepassado cumpriu o serviço militar na arma de Cavalaria, tendo sido colocado no Regiimento de Lanceiros 2, em Lisboa, Regimento de Cavalaria 1, em Santarém, e Regimento de Cavalaria de Elvas. Aconteceu no clima em polvorosa da I República e foi interveniente, entre outros, nos graves distúrbios após a morte a tiro do presidente Sidónio Pais, na estação ferroviário do Rossia, em 14 de Dezembro de 1918. Ainda o "Sócio" não era nascido.
A I Guerra Mundial cessara no mês anterior, no dia 11 âs 11 da manhã, o que evitou a mobilização do meu avô Joaquim Matos Rolo para os campos de combate mortíferos da Flandres. Sem o "Sócio".
Naquela época conturbada da vida portuguesa, o meu avô acabou, finalmente, o serviço militar. Passou à disponibilidade em Elvas e, à falta de transportes entre aquela cidade e a sua aldeia, palmilhou durante alguns dias os mais de 100 kms a pé, com as botas do espólio da tropa ao ombro para não as gastar na longa caminhada.
Em 1900 e 20 e tal, enamorou-se da que seria minha avó, Maria Rola, apesar de a minha bisavó, que ainda chegou aa andar comigo ao colo, não aceitar de bom grado o enlace. "Ai de ti se não tratas bem a minha Rolinha", ameaçava a matriarca da família. Cumpriu.
Não apanhei, como disse, a fase em que o meu avô Joaquim Matos Rolo esteve envolvido no trabalho numa herdade, a Espadaneira, e também na fase em que andou no carvão e a vender louça. Por essa altura era a minha Tia Luísa, a sua segunda filha, quem ia com ele até aos confins da Terra Fria das Beiras. Ainda sem o "Sócio".
Em 1947, o meu avô Joaquim Matos Rolo construiu a sua casa à força de braços. Suou a partir xisto para as paredes. Depois de concluído após meses de trabalho e uma intervenção importante do meu Tio António, as pessoas vivenciavam no primeiro andar e no piso térreo o espaço era destinado aos seus sócios ferrados,, os companheiros de trabalho, que ainda não o nosso "Sócio" desta história. Carimbou a edificação na pedra com as suas iniciais JMR - 1947, as quais ainda hoje se podem observar para recordar aos menos memoriados quem ali habitou como dono e senhor até...
Nada é eterno.
O meu avô, Joaquim Matos Rolo, adoeceu e faleceu no dia 8 de Outubro de 1972. Recebi a triste chamada telefónica em casa dos meus pais, quando acabava de chegar de um jogo de futebol em que o Benfica venceu o Sporting por 4-2. A família partiu logo de seguida para a Beira Baixa no carro do meu pai. Eu fui de combóio com o meu primo João Rolo e tivemos uma série de aventuras e desventuras pelo caminho, de modo que o funeral só se realizou à noite, com candeias e velas a ilumiar o caminho até à sua última morada, féretro acompanhado pelos Irmãos da Misericórdia. O "Sócio", nas suas aconchegadas instalações por trás da casa, sentiu o momento em que nunca mais veria o seu sócio, Joaquim Matos Rolo. Quebrara-se o elo e a sociedade entre dois dedicados sócios inseparáveis durante tantos anos. Desta vez a voz de burro chegou ao céu. De forma nítida. Um zurrar pungente. De dor.
Eu e o meu primo João substituímos o "Sócio" ao puxar o armão com o caixão até ao cemitério. Os dois netos machos mais velhos fizeram o que lhes competia na última homenagem ao prezado avô Joaquim Matos Rolo. Levaram-no até à sua eterna morada. O "Sócio", esse companheiro de tantos anos, acabou os seus dias na paz e sossego na quinta da minha tia Emília, a filha mais velha do meu avô Joaquim Matos Rolo.
Aconteceu em Alcafozes, Beira Baixa, com o Ti Estroina e o "Sócio".


Não é o "Sócio" mas é parecido...

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

LOBISOMENS, BRUXAS e MÁ-HORA ao SERÃO

 Noite de Verão. Está escuro como é próprio da falta de luar. Ainda não chegou a luz eléctrica à aldeia recôndita da Beira Baixa. O bafo do calor diurno não se diluiu ainda. Só atenuará um pouco quando chegar a madrugada. Dentro da casa de dois andares, uma luz mortiça de uma candeia bruxeleia e confere ao ambiente uma soturna dança de sombras, idênticas às que serpenteiam através dos biombos chineses. São enormes, ameaçadoras, intimidantes.

Terminadas as tarefas domésticas com a lavagem da loiça do jantar com a água dos cântaros transportadas das fontes à cabeça das mulheres ou acondicionados aos pares sobre a albarda dos burros, é tempo para se juntar a família e um ou outro vizinho em frente à casa.
Os elementos do conclave sentam-se em cadeiras de assento de verga e estrutura de madeira, produto típico da região, ou tomam assento nos tropeços, uns bancos rústicos sem pernas, feitos de cortiça, idênticos na sua estrutura e utilidade aos actuais pufes, ou puffs, como entenderem escrever.
Tenho os meus cinco ou seis anos e estou a familiarizar-me com o contraste da cidade iluminada por lâmpadas mortiças de 25 velas em contraste com a aldeia das candeias de azeite ou candeeiros a petróleo. Sem rádio nem televisão, são as conversas que escoram a comunidade. Terra de gente do campo, urdida na agrura da terra e nos elementos do tempo que regem as tarefas de sobrevivência individual e colectiva. Vindas de longe, Frente a outras casas ouvem-se na noite outras famílias a dissertarem sobre os temais mais ou menos cadentes das suas vidas.
Tento romper o manto de escuridão com o olhar desconfiado de puto da cidade. Nada. Ao invés, as estrelas brilham como nunca as vi assim tão cintilantes. A negritude do lugar acentua todo aquele esplendor celeste. O tema da conversa, banal, entretanto, mas a passagem do tempo trouxe à assembleia familiar outras histórias mais obscuras que passam de geração em geração.
Apurei o ouvido e à medida que a narrativa esmiuçava pormenores sobrenaturais ocorridos por ali, através dos anos, sentia um frio na barriga. Os segredos temerosos da noite, os maus olhados, as bruxarias tomavam conta do argumento da plateia. Há reacções opostas. Os mais velhos, os relatadores dos episódios, ironizavam nas palavras, a geração anterior à minha soltava brados de espanto "ai credo", eu e sentia arrepios na espinha. O relógio da igreja bateu com energia metálica as 11 badaladas das 23 horas.
A matriarca da família deu o aviso: recolher a casa antes de passar a Má-Hora. Olhei para um lado e para o outro como se quisesse vislumbrar semelhante figura, que eu não fazia a mínima ideia do que se tratava. Então a decana daquela mesa redonda sem mesa, afirmava, peremptoriamente, que antes da meia-noite aparecia um animal preto de qualquer género, para avisar quem se atravesse a sair àquela hora que poderiam acontecer-lhe acontecimentos de má memória, terríveis, imprevistos, danosos. Mau. Vinha aí a Má-Hora.
Os meus cabelos eriçavam-se. Só serenava um pouco quando via a figura de quem se sentava ao meu lado, o chefe da nossa tribo, o qual enrolava, tranquilo, o tabaco das onças Duque numa mortalha Touro. Evidenciava uma tamanha calma existencial como se tudo o que ouvia não o apoquentasse. Era religioso e bastava-lhe a fé para se sentir seguro nos caminhos, umas vezes com o burro e outras, a caminho da Terra Fria, com uma carroça puxada por machos. Mas como não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe, afinal a Má-Hora, professorava a matriarca, era seguida, creio que 60 minutos depois, pela Boa-Hora. Esta aparição, em forma de um qualquer animal branco, acabava com qualquer veleidade sombria da sua predecessora negra. Por essa altura eu já sentia a boca seca como uma casca de árvore ao sol. Lembrava-me do azado com água fresca da fonte, lá em cima no primeiro andar, mas não me atrevia sequer a mexer um pé.
O serão, no entanto, para mim iria correr de mal a pior. Relatam-se episódios ocorridos com lobisomens e calmões. Voltava o aperto à barriga, mas não dava parte de fraco. A calma do ancião ao meu lado, com o cigarro ao canto da boca e o chapéu empurrado para a nunca, dá-me o ânimo de não fugir dali não sei para onde. Um lobisomem sabia mais ou menos o que era, falavam-me deles nos filmes. Os calmões, esses, não faziam ideia de que animal ou pessoa seriam eles. Talvez, quem sabe, fossem umas criaturas da família dos gnomos das histórias irlandesas. Esses seres temíveis e temidos faziam das suas ao cruzar-se com os habitantes da aldeia e foram vários os casos, segundo a irmã mais nova da matriarca, de mulheres que apareceram despidas, nas encruzilhadas de quatro caminhos, com a roupa esfarrapada, atiradas, sem dó nem piedade, para os espinhos dos silvados. Havia marcas de arranhadelas, dizia ela, convicta.
Segundo constava pela aldeia, um homem noivo de uma mulher local, foi recebido por uma turba de gente que não o queria na aldeia por ser familiar de lobisomem, garantiam, um sétimo filho de uma sétima geração. Pois bem, fosse como fosse, o intruso era determinado e valente. Encheu as mangas do casaco de pedras, deu um nó nas pontas e foi com essa arma improvisada que desbaratou a massa de gente que o queria expulsar dali para fora,. O final não foi o que esperava. Ele casou com quem queria, a sua bela amada, mas enfrentando sempre a desconfiança da sogra. No entanto, ali viveram felizes até que a morte os separou, no espaço de pouco meses, já estavam ambos na casa dos 70 anos.
O ambiente, para mim, piorava a cada momento que se abria um novo capítulo. Agora era tema de conversa um indivíduo que se transformava nas noites de lua cheia. Ciente do que iria acontecer, a mulher colocava na rua um balde cheio de água e recolhia logo ao lar. Pela noite adentro ouviam-se os cascos deles nas correrias desvairadas pelas ruas e o seu guinchar histriónico. Horas depois, antes do amanhecer, ele regressava a casa, desfigurado, mas já em forma de gente. A matriarca da família confessou-nos que a seguir a uma dessas noites aterradoras, ela passou junto a ele no local onde exercia o seu mister e ao cumprimentá-la sorriu, e entre os dentes ela viu que ele ainda tinha fios de roupa que rasgara com a boca nessa cavalgada que terminava sempre com ele a beber toda a água do balde que a mulher lhe colocava na rua. Dias depois, ao passarmos junto a um muro, a contadora da história apontou para uma marca na parede em forma de ferradura e comentou: "Foi ele".
As narrativas de assombrações eram intermináveis. Dou a conhecer apenas mais uma, ocorrido com a própria matriarca. No caminho para casa, mais tarde do que habitual e vinda dos seus labores do campo, ouviu atrás de si uns ruídos e umas risadas. Era próximo da meia-noite, tempo da Má-Hora. Olhou para trás e estava a ser perseguida por um coelho que tentava atirar-se a ela, sempre com aqueles sons intimidantes de risadas diabólicas e um palavreado que não era entendível. O animal seguiu-a sempre a incomodá-la com aquela ladainha, puxou-lhe a bainha da saia com os dentes, até que deu uma forte gargalhada, seguindo-se um valente estoiro e desapareceu. Assim, como e nunca tivesse existido. Por sinal, isso aconteceu no preciso momento em que um gato branco apareceu e atravessou o caminho. Era a Boa-Hora. Ao chegar a casa reparou que as pontas da saia comprida tinham sido roídas pelo estranho ser.
A terminar o serão, ouvi os testemunhos sobre a "daibólica", que não entendi bem o que era, e ainda aves e animais empalados nos ramos das árvores. Suspirei de alívio quando começámos a recolher a casa, apesar do calor que ainda abafava o corpo. Nessa altura, o chefe da nossa tribo, colocou-me a mão em cima do ombro e aconselhou-me algo que ainda hoje arquivei nos ouvidos. "Quando ouvires um barulho quando andares nos campos à noite nunca olhes para trás". Registei!
Os grilos e as cigarras continuavam o seu concerto à desgarrada e o fiel gato da casa levantou-se, espreguiçou-se e esgueirou-se na noite. Era preto e branco. Não havia azar...

Serão na aldeia com histórias de encantar

domingo, 9 de fevereiro de 2025

O DECLÍNIO DE ALCAFOZES: "TERRA DE AZEITE E GADO"

Em menos de um século, Alcafozes viu diminuir a sua massa humana nada menos que dez vezes. De 1600 almas nos anos 30 e 40 para os actuais 160. Pode.se afirmar por estes números que a aldeia está a definhar em todas as vertentes e deixou-se envolver num abraço que poderá ser fatal por Idanha-a-Nova, vila com a qual reparte agora uma União de Freguesias. Neste resumo histórico de Alcafozes,  recordem.se os tempos áureos de Alcafozes, naquela viagem épica de 12 horas que se iniciava às 07h25, na Estação de Santa Apolónia e terminava numa velha e ronceira camionate da carreira, uma Ford Bus de 1940, da empresa Martins-Évora, às 19h30, na aldeia. 
Alcafozes sobrevive, hoje em dia, envolta nos quatro dias da Festa de Nossa Senhora do Loreto, no final de Agosto, e pouco mais. Ouvem-se uns artistas mais ou menos em voga na altura, compram-se umas senhas na quermesse, acompanha-se a procissão e olha-se para o ar a ver passar os aviões F-16 da FAP. Finda a cerimónia, a povoação regressa a um dia-a-dia monótono para a sua centena e meia de gente. 
Longe vão os tempos da euforia (quase) geral da implantação da República, em 5 de Outubro de 1910, à qual a população de Alcafozes aderiu com todo o povo à volta da nova bandeira empunhada por um republicano dos sete costados, Benjamim Nunes Leitão. Enquanto uns rejubilavam com o hastear do estandarte, outros perseguiram Joaquim Franco, fervoroso monárquico, que se refugiou em Espanha. Uma história curiosa e hilariante é a do Senhor "Conde" (de quê?) que armou a criadagem ao ser serviço com bacamartes e espingardas de carregar pela boca e foi entricheirar-se em Monsanto. Ao aproximar de uma força com duas bocas de fogo pela estrada de Medelim, o fervor da resistência foi por água abaixo e cada um fugiu para seu lado. 

Apesar do temor que impunha a Casa Franca, contava-se, entre outros casos, que a melhor galinha, entre outros haveres, era oferecida às "senhoras", uma aitude reverencial que, por exemplo, não afectou uma mulher de armas que, enfrentou e irrompeu o cerco dos empregados dos donos do terreno da fonte do Chafariz Novo, e de caldeiro em punho avanlou e emcheu-o de água. O resto do povo, empolgado com o seu exemplo, tomou a fonte e esta nunca mais seria propriedade só para dar água aos senhores feudais de Alcafozes. O respeito era de tal modo imposto pelos proprietários e aceite pela esmagadora maioria dos habitantes, que o latifundiário Marrcos, de Idanha-a-Velha, impunha a estes e também aos de Alcafozes que tirassem o chapéu quando ele passasse no seu automóvel num geste revenrencial. 

Numa terra dominada por um caciquismo comum a todo o território nacional, de louceiros sem louça, lavradores sem terras, azeitoneiros sem oliveiras, de boletreiros sem azinheiras, os "esturrêdos, como eram conhecidos os carvoeiros de Alcafozes que vendiam o carvão que vendiam pela vizinhança, nomeadamente aos "alarves" (de onde esta alcunha?) de Idanha-a-Nova, ainda alargaram os limites da aldeia quando os Franco venderam o "Cabeço" de pastagem para o gado em lotes, surgindo o Bairro de Nossa Senhora do Loreto, desenhado com traça pombalina, de ruas paralelas e travessa perpendiculares como a Baixa de Lisboa. Terá sido esse o auge populacional e económico de Alcafozes através de recursos própriios. Mas com o progresso também se desfigorou a terra, Não seria inevitável se houvesse quem enxergasse.  mais longe e pensasse mais além. 

A primeira machadada na estrutura de Alcafozes foi asfixiar a Igreja Matriz de São Sebastião com construções tão próximas à sua frente, algo que é um "pecado" paisagistico neste afunilamento sem sentido, constário às normas destas construções da fé que devem possuir amplos adros à sua frente. 
Mas logo na entrada, o progresso deu um rombo naquilo que a povoação tinha de mais interessante. O Leque, com quatro triângulos em forma de trevo de quatro folhas, arborizado e com quatro belas placas rectangulares com duas "pernas", indicando um deles Idanha-a-Nova 13 kms; outro Granja de São Pedro 6 kms, outro Medelim 13 kms, Covilhã (?) e Guarda 90 kms e o último, obviamente, Alcafozes. Este lugar de estética imaculada foi arrasado para uma chamada rotunda, deserta, vazia, quase invisível, como as cabeças que a idealizaram. Parece que se pretende colocar nesse espaço um monmento a representar uma saca de carvão e um pão, erradamente considerados símbolos máximos, o "ex-libris" de Alcafozes, sendo que o que consta na sua bandeira e brasão é uma oliveira, que há dois mil anos, tal como o gado, representam a história milenar da aldeia. "Alcafozes terra de azeite egado, sim", de "Pão e carvão" não tem sustentação. O pão (bem saboroso, diga-se de passagem) era para consumo pessoal e o carvão, de raíz de azinheira ou de chamiços, é uma actividade que nem um século regista. Isto não é uma questão de gosto, é uma questão de história. 

É um bocado estranho a colocação de passadeiras para peões, espelhos nas esquipas para o trânsito e lombas para abrandar a velocidade, registo o desinteresse geral de não mandar para o pretenso centro cultural os marcos miliários romanos referentes a Alcafozes, um na esquina de um prédio na aldeia, outro no museu de Idanha-a-Velha e um terceiro no museu de Idanha-a-Nova. E Alcafozes não merece o que é seu exposto na terra? São imensos os artefactos que poderiam dar úm conteúdo muito ineteressante ao tal putativo Centro Cultural. Dizem que não gente para ir ver. Isso é a teoria do deixa andar. Há terras na Beira Alta, menores e mais escondidas que Alcafozes, que, além de manterem a traça original exterior das casas e caminhos muito mais sinuosos para lá se chegar exploram restaurantes de luxo com uma clientela de estrato médio-alto. E outras com discotecas bem isoladas mas repletas de clientes. Aliás, e para terminar, uma referência à alteração da traça original das casas do seu tradicional exterior em xisto, tradicional na zona, e granito, para aquelas despersonalizadas pinturas brancas que nada condizem com a região. Não custava manter e até reparar o exterior, mas deixá-lo como foi arquitectado e no seu interior fazer uma remodelação total para modernizae a habitação e torná-la mais confortável. E como se não bastassem todos estes transtornos, ainda veio a negociata dos eucaliptos defigurar ainda mais a outrora misteriosa beleza de Alcafozes.  

Até quando sobreviverá Alcafozes? 


Uma casa de Alcafozes ainda não exteriormente desfigurada

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

DA SEMENTEIRA à COLHEITA, a LOIÇA e o CARVÃO

 No círculo da vida em Alcafozes, o primeiro trabalho do ano é a sementeira, pois sem ela não há sustento. Este mê de Outubro é duro, trabalha.se de dia e noite, sob vigilância apertada dos patrões na figura dos capatazes. A remuneração. se assim se lhe pode chamar, são 80 litros de trigo em grão, 10 litros de feijão, 3 litros de azeite e 400$00 em dinheiro. Isqueto num ano bom. Como  não há tempo para descanso o trabalho não pára e de Novembro a Fevereiro trabalha-se afincadaemnte na apanha da azeitona, com pagamento à jorna. Ao dia, para os mais novos entenderem, Sem férias, que a vida não dá para isso, de Fevereiro a fins de Abrilé preciso levrar as terras pela primeira vez, a chamada decrua. No mês seguinte em Maio, após uma bervíssima pausa para as Festas do Espírito Santo, segue-se o período da ceifa, quando se apanha o quinto. 
Todos os quinteiros vão receber as comédias, que consiste em 80 litros de trigo, um queijo, um litro de azeite e um litro de vinagre. Coisa pouca que com parcimónia sustenta uma família de homem, mulher e quase sempre mais de três gaiatos. A ceifa prolonga-se até ao fim de Junho d pode ir até meados de Julho de o quinto (terreno da propriedade) for mais extenso. Em Agosto, quando o calor inclemente aperta nos cabeços com pedrgulhos de granito a fazer ferver ainda mais o corpo e a alma é preciso debulhar à mão ou com máquina, consoante a quantidade da colheita. A fechar o ciclo, em Setembro, aliaviado por uns dias de festa em honra de Nossa Senhora do Loreto. os homens sáo contratados para fazer as moitas. Antes de Setembro regressam os "ratinhos" do Alentejo, onde foram fazer uma "comissão de serviço". Alguns sucumbem ao esforço e reanimam com um púcaro de água que os aguenta até ao tardão, quando chega o burro ou a mula para o jantar. A assada é distribuída pelos alguidares, de onde um punhado de homens e mulheres vão retirando a comida para a boca. Com o inclemente sol a pinto é hora (uma hora mesmo) de sesta. Ao pôr-do-sol merenda-se o gaspacho: pão, azeite e água. Não alimenta para compensar todo aquele esforço mas refresca. 

Desde o tempo dos romanos, ou até antes, a arte de fazer louça era uma indústria mais ou menos rústica dos povos. Por ali, em Alcafozes, era também natural que isso acontecesse, embora até determinada altura, à excepçáo da oligarquia da aldeia, o padre, homens das artes, ferreiros, albardeiros, etc, e, claro, o senhor da terra, a Casa Franca, reunissem a família em redor de um alguidar e dali casa um que se servisso melhor que podia, sendo que a melhor e maior parte era concedida ao homem da casa. Se por lá em Alcafozes se fizesse uma louça muito rústica, sem valor comercial para vendar onde quer que fosse, houve quem apostasse em levar um carro puxado por burros por caminhos de pedras enterradas na lama ou no pó até Idanha-a-Nova, onde essa indústria estava uma pouco mais desenvolvida e de melhor qualidade. AInda conheci homens de Alcafozes que me contaram que chegavam à Idanha e saíam de lá com 500 peças de louça, que ia vender após uma longa caminha até à Covilhã e mais a norte, a Viseu e à Guarda, de onde, feito o negócio, traziam, além de dinheiro, obviamente, batatas e cabolas, especialmente estas. Eram os chmados "louceiros", que intervalavam as suas actividades agrícolas com este pequeno negócio particular que requeriam uma longa caminhada. A qualidade da louça foi-se refinando com o tempo e, aí pelos anos 50 e 60, a loiça era pintada com motivos muito bem desenhados, normalmente em azul, constituindo verdadeiras peças de arte, juntamente com canecos, tachos e tabuleiros. 

O rigor do clima exigia que se aquecesse a lareira para aquecer casas ainda sem forro e com as telhas à vista do interior, por onde, frequentemente, voava um pardal para o ninho ou apenas para se abrigar das borrascas. Nas camas de ferro ou nas tarimbas de madeira não havia mantas que chegassem para aquecer o corpo gelado sob quilos de roupa. A lenha era colhida e armazenada antes das chuvas e trovoadas de meados de Setembro, quando o tempo mudava a partir da terceira semana. Surgiram nos anos 40 e 50, tempo de carências na sequência da Guerra Civil Espanhola, da II Guerra Mundial e da reconstruçáo de uma Europa destruída, os carvoeiros de Alcafozes. Não eram muito os que fizeram vida nessa actividade que pouco durou. Quando a Casa Franca andou a arrancar sobreiros e azinheiras perto do Rio Pônsul para se erigir a Barragem de Idanha-a-Nova, nomeadamente na Granla do Cabeço dos Mouros, aproveitou-se a oportunidade de fazer o carvão das raíses dessas árvores abatidas para dar lugar a uma construção de que poderia transformar a zona de sequeiro em terras de regadio, o que nunca chegou a acontcer por questões de interesses não coincidentes. As  raízes de tamanho consderável eram arrancadas à força de picareta. Escolhia-se as , madeiras de espécies duras, que produzem um carvão de melhor qualidade. Os cortes deviam ser de pedaços de tamanho uniforme para se obter uma carbonização homogénea e depois da matéria vegetal estar ben seca. Tradicionalmente, a carbonização é realizada em fornos simples ou "carvões", que limitam o fluxo de oxigênio ou outros mais complexos como um forno de argila. A madeira é empilhada em forma de pirâmide ou cilindro, coberta com solo ou folhas para minimizar a entrada de ar.A madeira é aquecida a temperaturas entre 300 °C a 700 °C. O calor causa a decomposição térmica da madeira, liberando gases, vapor de água e compostos voláteis, e resultando, enfim, na formação de carvão. Após o término da carbonização, o carvão deve ser resfriado antes de ser exposto ao ar para evitar que se incendeie.

Feito o trabalho, os homens carregavam as suas carroças para irem vender o produto pelas terras em redor de Alcafozes. Trabalho sujo merecia uma lavagem num curso de águas mais próximo, aproveitando umas plantas como sabão, como as giestas, mas o aspecto não melhoravam por aí além. E daí chamarem-lhes os "pretos de Alcafozes" quandose aproximavam das terras para vender o produto do seu trabalho. Mascarrados, roupa escurecida pelos fumos, mãos ásperas e com o cheiro característicos das lenhas, os carvoeiros entravam depressa das povoações e siam rapidamente por motivos óbvios. Esta actividade. no entanto, despertou muitos movimentos contrários à sua execução devido à poluícão nos campos e terras e ao aumento consoderável de doenças respiratórias. Várias aldeias fizeram chegar protestos à comarca de Castelo Brancp, denunciado doenças provocadas pela feitura do carvão. Por estas e por outras, aquela tirada de "Alcafozes terra do pão e do carvão" está completamente errada. O carvão por ali se fez em 20 e poucos anos nos mais de 2000 anos de abundância de azeite e gado. O pão, por seu lado, era para consumo próprio e quem não o sabia fazer, embora os três ou quatro fornos fossem geridos por "especialistas" de aquecer e manter uma temperatura normal. "Alcafozes terra de azeite e gado" por mais de 2000 mil anos destrói a numenclatura de um brevíssimo período de carvão. E quanto ao pão estamos conversados... 


A fazedura de carvão em Alcafozes causou reclamações

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

SENHORA DAS DORES, CABOS DE POLÍCIA e "RATINHOS"

 A Capela de Nossa Senhora das Dores, localizada em Alcafozes, faz parte do rico patrimônio cultural e religioso da região e foi descoberta por acaso quando da realização de umas obras em três casas contíguas no  centreo da aldeia. A  sua construção remonta ao século provavelmente ao século XVIII, época em que muitas capelas e igrejas foram erguidas em honra a santos e figuras religiosas, refletindo a devoção da população.  Também a Confraria de Alcafozes, associada à Capela de Nossa Senhora das Dores, é uma associação religiosa que tem como objetivo promover a devoção e a realização de atividades litúrgicas e sociais dentro da comunidade local, nomeadamente a administração da actividade econónica e uma vasta influência na actividade militar. Esta é uma prova que, ao contrário de Idanha-a-Velha, cujas terras foram revolvidas até revelar muitos dos seus segredos, em Alcafozes isso não tem acontecido, o que é pena, pois não seria de estranhar que viesse a público muita matéria histórica para enriquecer a existência da aldeia. Nas guerras liberais e absolutistas derivaram diversas constituições para regular a actividade da nação. Nessa altura, exisitia umas força de segurança na aldeia,denominada Cabos de Polícia de Alvafozes, uma espécie de xerifes do Oeste americano, s quais apenas juraram uma constituição, breve aliás, de Abril 1828 a Fevereiro 1829. Em Portugal, um cabo de polícia era um cidadão designado para auxiliar um regedor de freguesia na sua função de agente local de autoridade de segurança. Os cabos de polícia eram escolhidos de entre os cidadãos da respetiva freguesia, estando inicialmente prevista a designação de um por cada oito fogos familiares.  Não eram regularmente remunerados pelo exercício das suas funções, só recebendo percentagens de algumas multas cobradas.

Durante o período da Monarquia Constitucional, os cabos de polícia constituiram praticamente a única força policial na maioria do território português, uma vez que, inicialmente, só Lisboa e Porto dispunham de corpos policiais profissionais, as guardas municipais. Apesar de várias vezes planeada, a criação de forças policiais profissionais que cobrissem todo o território obteve sempre resistências políticas, uma vez era vista por alguns setores da sociedade, como uma ameaça às liberdades e garantias dos cidadãos. Por outro lado, dadas as suas caraterísticas de polícia cidadã, os cabos de polícia eram vistos como tendo bastantes limitações em termos de eficiência policial, obrigando as autoridades civis a recorrerem a destacamentos do exército sempre que ocorriam situações de maior gravidade em que era necessário o uso da força pública. A partir de 1867, com a criação dos Corpos de Polícias Civis nas capitais de distrito, os cabos de polícia perderam substancialmente a importância no policiamento dos grandes centros urbanos. Continuaram contudo a ser a principal força policial presente nas regiões rurais.

Os cereais, por força das imposições políticas a partir da Lei da Forme, como já assinalei, incrementou a sementeira dos grãos para o fabrico do pão. Quem passasse pela Tapada das Naves, por exemplo, veria imensos medas de trigo parecidas com cubatas africanas no seu formato, com toneladas de cereiais para esbullhar, à força de braços nos períodos mais difíceis que não permitiam o aluguer de uma máquina debulhadudora para separar os grãos da palha. Sobreiros e azinheiras foram arrasadas, ficando menos cortiça para vender e exportar e também as bolotas para os porcos roerem aquando da queda do precioso vegetal que alimentou toda a gente antes da chegada da batata do Novo Mundo.  

Aquando das colheitas e medidos os alqueires, uma medida de origem árabe e com uma capacidade de mais ou menos 8,7 litros, havia que pôr as contas em dia. Um alqueire para pagar a dívida das sementes e depois uma desta medidada para a Misericórdia, para o padre, para o ferreiro, para o barbeiro e a uns quantos consoante a dívida na loja de fornecimento de bens durante o Inverno. Aqueles cujo trabalho da ceifa não compensava ou não abundava na Beira Baixa, e nomeadamente em alcafozes, migravam para o Alentejo em ranchos de "ratinhos" para os latifúndios de Elavas, Évora, Portalegre e outros. Estes eram (mal) remunerados em dinheiro e não necessitavam de pagar as dívidas em alqueires. 


terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

TRIGO E GADO ALIMENTAM ALCAFOZES

 Apesar da sua reduzida dimensão e população existem na história de Alcafozes casos bastante curiosos. Um deles, que me chamou mais a atenção e só agora descobri, existiu uma confraria na povoação, da qual não se sabe da existência de qualquer registo. Esta suspeita alicerçou-se quando se efectuaram obras em algumas obras na aldeia, mais propriamente em três habitações com passagem interior entre si. Os donos dessas habitações, João Páscoa, o proprietário da venda antecessora das actuais "lojas dos chineses", onde se negociava de tudo, desde alfinetes até charruas, enxadas e picaretas, além de ser ali o único telefone durante muitos anos, com "franchising" da Singer  e correspondente do jornal "O Século". As outras duas casas da persumível confraria pertenciam ao Ti Faia, o dono de uma concorrida tasca, e a outra do Ti Bernardo, o barbeiro, enfermeiro e ainda sacristão. No celeiro junto a estas três casas descobriu-se uma cisterna, que fornecia água aos frades e freiras. Tudo isto perdeu-se, infelizmente, perdeu-se na memória do tempo. 
A implatação da República, em 5 de Outubro de 1910, fez estremecer as estruturas da terra. Houve uma divisão entre republicanos e monárquicos e a própria família Franco, a latifundiária dominante buscou refúgio em Espanha. Aconteceram as inevitáveis discussões mas não se entrou em confronto físico. A vida rude não permitia deixar que o dia-a-dia acentuasse a pobreza de 99,9% da aldeia. Em meados do século XIX cerca de metade do trigo era importado dos Estados Unidos, situação que agravava a balança de comércio de Portugal com outros países. A partir de 1820 houve um incremento da produção nacional e em redor de Alcafozes um número incalculável de azinheiras e outras espécies foram derrubadas para as juntas de bois e a lâmina das charruas rasgassem os terrenos para sementeiras de maior dimensão. Era a chamada Lei da Fome, de 1889, a tentar que o país fosse suficiente e m cereais. Neste início do século XX, moinhos e azenhas eram as "máquinas" das quais se retiravam preciosidades como a farinha e o azeite, Os sobreiros proporcionaram a recolha de milhares de tonelasas de cortiça e a lã das ovelhas tosquiadas também atingiam quantidades apreciáveis. A produção de linho também se revelava produtiva. 

Até à implantação da República , o Cabeço das Taipinhas, onde se encontra a Capela da Senhora do Loreto, e outros terrenos em redor eram de uso público para o gado pastar livremente. A I Guerra Mundial levou para as trincheiras de França muitos homens de Alcafozes, cujos nomes merecem ser recordados: Joaquim Braga, António Nunes, Joaquim Morgado, José Pedro, Joaquim Garnacho, João Brito, José Videira e Nuno Robalo, o célebre Perra da concertina, que regressou sem um braço. Todos os outros voltaram sãos e salvos.O sino da torre da aldeia, colocado quando foi construída a torre, em 1883, mais de um sécuço depois da igreja, saudou-os quando voltaram da Flandres. Apesar das carências devido ao conflito mundial, a agricultura em Alcafozes manteve-se a um nível sustentável dentro das dificuldades existentes de miúdos descalços a correr pelas ruas a fazer recados à família ou a ajudar os mais velhos no pastoreio, apanhar lenha e outras tarefas. O ferreiro da povoação, com a fornalha vermelha como o inferno empenhava-se em dar à luz ferramentas para os mais diversos labores e utensílios agrícolas.
Em 1914, os republicanos "absolveram" os monárquicos refugiados em Espamha, França, Bélgica, Brasil, Inglaterra e permitiu-lhes o regresso a Portugal. Assim, a família da Casa Franca voltou às rédeas dos seus latifúndios em Alcafozes. A necessidade de maior facilidade de transporte trouxe um serviço de táxi, propriedade de José Esteves Remédios, e uma singular bomba de gasolina. Também começou a fazer-se por camioneta da carreira, entre Alcafozes e Idanha-a-Nova pelos 13 kms de uma estarada de terra e pedras, que levantava uma poeirada imensa quando o veículo da empresa Martins-Évora fazia o trajecto. Quando a aviação comercial começa a despontar, a Força Aérea está em evolução e já conhece a veneração pela "Senhora do Ar"  um grupo de alcafozenses liderado pelo Sr. Joaquim Marques  conseguiu tomar conta do terreno em volta da igreja, em nome de Nossa Senhora do Loreto, cujas festas com o sobrevoo de aeronaves Corsair da FPF, aconteceriam a partir de 1957.
 

Tapada de Alcafozes com vista para Monsanto

sábado, 1 de fevereiro de 2025

A "SENHORA DO AR" RECONHECIDA COMO PADROEIRA

 A 24 de Março de 1920, na festa do Arcanjo S. Gabriel – o mensageiro de Nazaré -, o Papa Bento XV, acedendo ao desejo do Clero, declarou a Santíssima Virgem do Loreto, Padroeira Universal da Aviação. Em 12 de Setembro desse mesmo ano, os aviadores reuniram-se em massa na Basílica de Loreto e fizeram, oficialmente, a consagração da sua Padroeira. No ano seguinte, a imagem foi destruída por um incêndio e, em 1922, o Papa Pio XII benzeu a nova imagem da Virgem do Loreto, não muito diferente da anterior. Em Portugal, os contactos com gentes de Itália realizavam-se desde a fundação da nacionalidade, inclusive o primeiro Rei de Portugal, D.Afonso Henriques, casou com D. Mafalda de Sabóia, e, ao longo dos séculos, as relações foram constantes. No século XV, mercê da decadência do comércio entre as repúblicas italianas e o Oriente, devido à presença muçulmana na Palestina, começam a surgir na Península Ibérica, nomeadamente em Portugal, comunidades de italianos, não só navegadores e especialistas na arte de marear, mas também comerciantes e outros. D. Dinis contratou o genovês Emanuele Pessagno para almirante em 1317, as famílias Perestrelo e Spínola de origem genovesa, assim como Cristóvão Colombo, e todos se estabeleceram em Portugal. Lisboa enche-se de ricos comerciantes e a comunidade dos italianos teve permissão real para construir, em 1518, o primeiro templo de invocação a Nossa Senhora do Loreto, templo esse totalmente reconstruído no século e, novamente, depois do Terramoto de 1755, tendo resistido as paredes-mestras e a sacristia. O culto foi-se espalhando por algumas povoações. 

Com o advento da aviação após a Primeira Guerra Mundial, e por acção do Clero e de aviadores sensibilizados com o milagre da «Casa Voadora», a 25 de Março de 1920, na festa do Arcanjo São Gabriel, o Papa Bento XV proclamou «A Santíssima Virgem do Loreto, Padroeira Universal da Aviação». A 12 de Setembro desse mesmo ano, os aviadores reuniram-se em missa na ano seguinte, a imagem foi destruída por um incêndio e, em 1922, o Papa Pio XII benzeu a nova imagem da Virgem do Loreto, não muito diferente da anterior, e ela foi acompanhada por aviadores no percurso entre a Capela Sistina e a Basílica de Loreto, onde chegou a 8 de Setembro. Foi no dia 14 de Agosto de 1926 que se iniciou oficialmente o culto a Nossa Senhora do Ar, como pradoreira da aviação em Portugal, com uma celebração eucarística na Capela da Granja do Marquês, onde a imagem foi colocada no trono do altar principal. 

A 19 de Dezembro de 1959, o Governo de Salazar, com especial recomendação de D. Manuel Gonçalves Cerejeira, Cardeal Patriarca de Lisboa e Ordinário Castrense, determinou que todas as capelas da Força Aérea de Portugal são dedicadas a Nossa Senhora, onde é venerada uma sua imagem que representa a sua gloriosa assunção. Os aviadores  chamam-lhe ‘Nossa Senhora do Ar e uma delegação desloca-se à Santa-Sé a rogar a graça da declaração de “Nossa Senhora do Ar” como Padroeira Nacional da Força Aérea Portuguesa.Quando a aviação comercial começa a despontar, a Força Aérea está a evoluir e há um grupo de alcafozenses – do qual se destacou, pelo seu dinamismo, o Sr. Joaquim Marques – que depois de muitas démarches consegue não só obter terreno em volta da capela, para ser realizada uma procissão campal com o apoio do p.ároco António Costa, como, e mais importante, que a cerimónia religiosa campal fosse sobrevoada por aviões da Força Aérea. Importa destacar o papel do então comandante da Base Aérea de Alverca, coronel Mira Delgado e o do tenente-coronel Kaulza de Arriaga, subsecretário de Estado da Aeronáutica que, em 1959, inaugurou os melhoramentos do altar-mor juntamente com o general Carlos Costa Macedo. Autoriza-se que em 1957 a procissão seja sobrevoada por diversos aviões da Força Aérea. 



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